Condição provoca crises intensas de dor facial, semelhantes a choques elétricos, que podem surgir ao falar, mastigar, escovar os dentes ou tocar a pele
Uma dor súbita e intensa no rosto, semelhante a um choque
elétrico, que pode aparecer ao mastigar, falar, escovar os dentes ou
simplesmente tocar a pele. Esse é o quadro característico da neuralgia do
trigêmeo, condição neurológica marcada por crises de dor facial de forte
intensidade e popularmente descrita como uma das “piores dores do mundo”.
Uma revisão sistemática publicada em 2026 no Journal of
Clinical Neurology, que reuniu 17 estudos, mais de 170 milhões de
participantes e 109 mil pacientes diagnosticados, estimou incidência global de
25,33 casos de neuralgia do trigêmeo para cada 100 mil pessoas por ano. O
levantamento também encontrou taxas maiores entre mulheres, embora os pesquisadores
ressaltem que há variações importantes entre os estudos.
“O nervo trigêmeo é responsável por grande parte da sensibilidade
da face. Na neuralgia, estímulos simples, que normalmente não provocariam dor,
podem desencadear crises muito intensas, geralmente descritas como choque,
pontada ou descarga elétrica. Embora cada episódio possa durar pouco tempo, as
crises podem se repetir e comprometer significativamente a rotina do paciente”,
explica a neurocirurgiã Dra. Vanessa Milanese, diretora de Comunicação da
Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN).
A dor geralmente atinge um lado da face e pode acometer regiões
como mandíbula, bochechas, lábios, dentes e gengivas. Atividades comuns, como
comer, beber, conversar, escovar os dentes, lavar o rosto ou fazer a barba,
podem funcionar como gatilhos.
Por atingir principalmente regiões da face e da boca, a neuralgia
do trigêmeo também pode ser confundida inicialmente com problemas
odontológicos. A característica das crises, a localização da dor, sua duração e
os fatores que a desencadeiam são informações importantes para diferenciar a
condição de outras causas de dor facial.
“É importante observar o padrão. Uma dor muito intensa,
unilateral, que aparece em crises e é desencadeada repetidamente por
determinados estímulos precisa ser investigada. O paciente não deve conviver
com a dor acreditando que não há tratamento ou apenas tentar controlar os
episódios sem identificar a causa”, orienta Milanese.
Na forma clássica da neuralgia, é comum existir contato entre um
vaso sanguíneo e o nervo trigêmeo, causando compressão na região. Há também
casos secundários relacionados a outras doenças, como esclerose múltipla ou
lesões estruturais, incluindo tumores. Por esse motivo, a ressonância magnética
faz parte da investigação recomendada para pacientes com neuralgia do trigêmeo,
especialmente para avaliar possíveis causas secundárias.
O tratamento costuma começar com medicamentos específicos para
controlar a dor neuropática. Carbamazepina e oxcarbazepina estão entre as
opções recomendadas como primeira linha. Quando a medicação não controla
adequadamente as crises, provoca efeitos adversos importantes ou o quadro
apresenta características específicas, procedimentos neurocirúrgicos podem ser
considerados.
“Quando há compressão vascular do nervo e o tratamento clínico não
oferece o controle esperado, existem alternativas cirúrgicas que podem ser
avaliadas. A indicação precisa ser individualizada, levando em consideração a
causa da neuralgia, a intensidade e a frequência das crises e as condições
clínicas do paciente”, explica a neurocirurgiã.
Além da dor física, a recorrência das crises pode interferir na
alimentação, na higiene pessoal, no trabalho e no convívio social. O medo de
provocar uma nova crise também pode fazer com que o paciente evite atividades
simples do cotidiano.
“Não é uma dor que deve ser normalizada. Quando as crises são
recorrentes ou interferem nas atividades diárias, é importante procurar
avaliação especializada. O diagnóstico correto permite definir a estratégia de
tratamento mais adequada e recuperar qualidade de vida”, conclui Milanese.
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