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quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Mamografia aos 30, 40, 50 ou 70 anos: o que muda no exame em cada idade

 Radiologistas e ginecologista explicam por que a idade influencia a imagem, a frequência e os exames complementares, e o que dizem as recomendações do SUS e das sociedades médicas

 

Desde o dia 1º de outubro, os planos de saúde passaram a cobrir a mamografia digital para mulheres de qualquer idade, desde que haja pedido do médico. Até agora, a cobertura obrigatória desse exame valia apenas para quem tinha entre 40 e 69 anos. A mudança, aprovada pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), vale para rastreamento, diagnóstico e acompanhamento do tratamento do câncer de mama1. 

Mas, a partir de quando é indicado fazer a mamografia e com que frequência? A resposta muda conforme a idade e o histórico de cada mulher. “O exame é essencialmente o mesmo em qualquer idade, mas a mama muda ao longo da vida. Isso interfere na aparência das imagens e, principalmente, na estratégia de acompanhamento de cada paciente”, explica Paula Moraes, radiologista especialista em imagem mamária do Delboni e do Lavoisier, marcas da Dasa, líder em medicina diagnóstica no Brasil. 

Um dos principais fatores que mudam com a idade é a composição da mama. Mulheres mais jovens tendem a apresentar maior quantidade de tecido fibroglandular, que aparece mais branco na mamografia. E muitas alterações suspeitas, como nódulos e calcificações, também podem ser brancos, a sobreposição de tecidos pode dificultar a identificação de algumas lesões. 

Com o envelhecimento, especialmente após a menopausa, é comum ocorrer substituição do tecido mamário por tecido adiposo, que aparece mais escuro na mamografia. O maior contraste pode facilitar a visualização de algumas alterações. 

Um estudo norte-americano publicado no Journal of the National Cancer Institute mostrou que 56,6% das mulheres de 40 a 44 anos têm mamas densas. Entre as de 70 a 74 anos, a proporção cai para 18,4%2. ““A densidade mamária também está associada a maior risco de desenvolvimento do câncer de mama. Quanto maior a proporção de tecido mamário, maior o risco relativo de câncer, além de maior a possibilidade de que algumas lesões fiquem ocultas na mamografia devido à sobreposição de tecidos. Por isso, o laudo mamográfico informa a densidade mamária. Essa informação faz parte da avaliação da paciente e pode ajudar o médico a decidir se há necessidade de algum exame suplementar, levando em conta também os fatores de risco e os achados da mamografia”, explica Paula. 

O câncer de mama é o tipo mais comum entre as brasileiras, sem contar os tumores de pele não melanoma. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 78.610 novos casos por ano entre 2026 e 2028, o equivalente a cerca de 72 casos a cada 100 mil mulheres3.
 

Antes dos 40 anos

Para mulheres sem fatores de risco, a mamografia de rotina não é indicada nessa fase. A orientação das sociedades médicas brasileiras é que toda mulher faça, a partir dos 30 anos, uma avaliação do seu risco de câncer de mama com o médico4. 

Para mulheres com alto risco, o rastreamento costuma começar mais cedo. Entram nesse grupo mulheres com mutações genéticas como BRCA1 e BRCA2, risco estimado de 20% ou mais ao longo da vida ou radioterapia no tórax entre os 10 e os 30 anos. Nesses casos, a ressonância magnética costuma ser feita junto com a mamografia, e a idade de início varia conforme o tipo de risco4. 

“Quando uma mulher jovem sente um nódulo, o primeiro exame costuma ser o ultrassom, porque a mama ainda é muito densa. A maioria desses nódulos é benigna, mas todos precisam ser investigados”, orienta a radiologista Rosana Horácio, do laboratório Bronstein, da Dasa no Rio de Janeiro.
 

 Dos 40 aos 49 anos

É a faixa etária que mais gera dúvidas, porque as recomendações não são iguais. Desde setembro de 2025, o Ministério da Saúde garante no SUS a mamografia para mulheres de 40 a 49 anos mesmo sem sintomas, a partir de uma conversa com o profissional de saúde sobre riscos e benefícios5. O Colégio Brasileiro de Radiologia (CBR), a Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) recomendam o exame todos os anos a partir dos 404. 

Os números ajudam a entender a mudança. Segundo o Ministério da Saúde, cerca de 23% dos casos de câncer de mama no país acontecem entre os 40 e os 49 anos6. Nos Estados Unidos, a força-tarefa que define as diretrizes de prevenção do governo (USPSTF) antecipou em 2024 o início do rastreamento de 50 para 40 anos, após observar que os casos nessa faixa vinham crescendo cerca de 2% ao ano entre 2015 e 20197. 

“As diretrizes divergem na frequência, mas todas reconhecem o valor do exame nessa idade. Aos 40, o ideal é conversar com o médico, avaliar o próprio risco e começar o acompanhamento”, afirma Rosana.

Como a mama ainda tende a ser densa nessa fase, o médico pode pedir ultrassom complementar. A tomossíntese, uma mamografia que gera imagens em camadas, também é recomendada pelas sociedades quando está disponível4.
 

Dos 50 aos 74 anos

Nessa faixa etária se concentram quase 60% dos casos de câncer de mama5. É também o período em que há mais consenso. Em 2025, o SUS ampliou o rastreamento prioritário, que ia até os 69 anos, para até os 74, com mamografia a cada dois anos6. As sociedades médicas mantêm a recomendação anual4. 

“Depois da menopausa, é comum ocorrer redução do tecido fibroglandular e aumento relativo do tecido adiposo. Como a gordura aparece mais escura na mamografia, o contraste com estruturas mais densas pode facilitar a identificação de algumas lesões”, explica Paula.
 

A partir dos 75 anos

Para as sociedades médicas, como o Colégio Brasileiro de Radiologia (CBR), Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) e Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), vale manter o rastreamento se a mulher tiver boa saúde e expectativa de vida de pelo menos sete anos4. No SUS, o exame pode ser feito por demanda, com orientação profissional5. A nova regra da ANS também beneficia esse grupo, já que a cobertura obrigatória da mamografia digital terminava aos 69 anos1. 

“A idade, sozinha, não deve ser motivo para deixar de fazer a mamografia. Uma mulher de 78 anos ativa e saudável pode se beneficiar do exame. A decisão é individual e deve ser tomada com o médico”, diz a radiologista Paula.
 

Dúvidas rápidas
 

Preciso de pedido médico?

Nos planos de saúde, sim. Com a nova regra, a cobertura depende da prescrição do médico, e não mais da idade1. No SUS, o caminho é procurar a Unidade Básica de Saúde.
 

A mamografia dói?

“A compressão dura poucos segundos e pode incomodar. Ela é necessária para a imagem sair nítida com menos radiação”, orienta Jaime Kulak, médico ginecologista do Laboratório Frischmann Aisengart, marca da Dasa em Curitiba.
 

 Existe melhor época do ciclo menstrual para fazer o exame?

Para mulheres que ainda menstruam, algumas podem preferir realizar o exame na primeira metade do ciclo, quando as mamas tendem a estar menos sensíveis e doloridas. “Não existe necessidade de adiar a mamografia simplesmente por estar em determinada fase do ciclo. Para mulheres que apresentam muita sensibilidade mamária, entretanto, pode ser mais confortável realizar o exame nos primeiros dias após o início da menstruação”, explica Paula. Um estudo americano com mais de 387 mil mamografias mostrou que, entre mulheres que já faziam o rastreamento, o exame detectou 79,5% dos cânceres quando feito na primeira semana do ciclo, contra 67% a 73% nas semanas seguintes.
 

Posso fazer o exame menstruada?

“Sim. A menstruação não impede a realização da mamografia. A principal questão é o conforto da paciente”, diz Paula.
 

Quem tem prótese de silicone pode fazer?

“Pode e deve. Basta avisar a equipe, que usa técnicas específicas para afastar a prótese e avaliar melhor o tecido da mama”, afirma Jaime Kulak.
 

Posso usar desodorante no dia?

“O ideal é evitar desodorante, talco e cremes nas axilas e nas mamas. Alguns produtos deixam partículas que podem aparecer na imagem e confundir a leitura”, recomenda Moraes.
 

 O autoexame substitui a mamografia?

Não. Conhecer o próprio corpo ajuda a perceber mudanças e procurar o médico mais cedo, mas o toque não identifica lesões pequenas que a mamografia consegue mostrar.

 


 

Referências

1. Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). ANS aprova mamografia digital sem restrição de idade. 10 set. 2026. Link 

2. Sprague BL, Gangnon RE, Burt V, et al. Prevalence of mammographically dense breasts in the United States. J Natl Cancer Inst. 2014;106(10):dju255. doi:10.1093/jnci/dju255. Link

3. Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estimativa 2026: incidência de câncer no Brasil. Síntese de resultados e comentários. Rio de Janeiro: INCA, 2026. Link

4. Urban LABD, Chala LF, Paula IB, et al. Recomendações do Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem, da Sociedade Brasileira de Mastologia e da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia para o rastreamento do câncer de mama no Brasil. Radiol Bras. 2023;56(4):207-214. doi:10.1590/0100-3984.2023.0064. Link

5. Instituto Nacional de Câncer (INCA). Ministério da Saúde padroniza informações para acesso ao exame de mamografia no SUS. 29 set. 2025. Link

6. Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Ministério da Saúde recomenda mamografia a partir dos 40 anos (com dados do Ministério da Saúde). 24 set. 2025. Link 

7. US Preventive Services Task Force. Screening for breast cancer: US Preventive Services Task Force recommendation statement. JAMA. 2024;331(22):1918-1930. doi:10.1001/jama.2024.5534. Link

8. Chlebowski RT, Hendrix SL, Langer RD, et al. Influence of estrogen plus progestin on breast cancer and mammography in healthy postmenopausal women: the Women's Health Initiative Randomized Trial. JAMA. 2003;289(24):3243-3253. Link 

9. Miglioretti DL, Walker R, Weaver DL, et al. Accuracy of screening mammography varies by week of menstrual cycle. Radiology. 2011;258(2):372-379. Link


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