Em meio ao Outubro Rosa, especialistas da Rede Santa Catarina esclarecem as regras para o exame e explicam quando o histórico familiar exige investigação genética
Mesmo
com o amplo debate sobre a prevenção do câncer de mama em meio ao Outubro Rosa,
duas questões acerca do rastreamento continuam gerando dúvidas: a idade exata
para iniciar a mamografia e o momento certo de investigar o histórico familiar
por meio de testes genéticos.
No ano
passado, o Ministério da Saúde atualizou suas orientações acerca da realização
da mamografia, mas ainda restam incertezas sobre quem pode ou não realizar o
exame. Atualmente, mulheres entre 40 e 49 anos têm acesso garantido à
mamografia no SUS, mas a
realização é indicada após uma decisão compartilhada entre a paciente e o
médico. Já o rastreamento mamográfico, que
anteriormente era recomendado para a faixa etária de 50 a 69 anos, passou para
50 a 74 anos, mantendo a periodicidade bienal.
Em
contrapartida, as principais sociedades médicas brasileiras, como o Colégio
Brasileiro de Radiologia (CBR), a Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) e a
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo),
recomendam que a mamografia seja feita anualmente a partir dos 40 anos para
todas as mulheres de risco habitual. “O ponto principal é que mulheres a partir
dos 40 anos passaram a ter acesso garantido à mamografia, mesmo que não
apresentem sintomas. Hoje a discussão não é mais se a mulher de 40 anos pode
fazer mamografia: afinal, ela pode e deve”, explica a Dra. Larissa Mattioli
Guedes, coordenadora da Radiologia Mamária da Casa de Saúde São José,
pertencente à Rede Santa Catarina.
A
médica reforça que a conversa entre paciente e profissional de saúde deve levar
em conta o risco individual, a densidade mamária e o histórico da paciente.
Além disso, ela faz um alerta fundamental: as regras de rastreamento valem
apenas para quem não tem queixas. "Uma mulher com sintomas, como nódulo
palpável ou retração da pele, não deve aguardar o período habitual de
rastreamento. A investigação precisa ser ágil, independentemente da
idade", ressalta a Dra. Larissa.
Histórico
familiar e a genética do câncer de mama
Se
para a população de risco habitual a mamografia é o padrão-ouro, para mulheres
com histórico familiar as regras são outras. O Dr. Antônio Cavaleiro,
coordenador médico do Centro de Oncologia e Hematologia do Hospital Santa
Catarina – Paulista, também pertencente à Rede Santa Catarina, lista os sinais
familiares que exigem atenção: “A suspeita surge a partir de câncer de mama
diagnosticado em idade jovem em familiares, vários casos de câncer de mama ou
de ovário na mesma família, câncer de mama em homens, tumores nas duas mamas ou
determinados subtipos, como o chamado triplo-negativo”.
Nesses
cenários, o aconselhamento e o teste genético entram em cena para investigar
mutações hereditárias, como as dos genes BRCA1 e BRCA2, que aumentam
expressivamente a probabilidade de desenvolver a doença. Enquanto uma mulher
sem a mutação tem de 10% a 12% de chance de ter câncer de mama ao longo da
vida, nas portadoras dessas alterações genéticas o risco pode ultrapassar os
60%.
Caso a
mutação genética seja descoberta, a rotina de exames deve ser alterada
radicalmente. “A mamografia convencional isolada não é suficiente. A
ressonância magnética anual das mamas passa a ter papel central no
rastreamento, por sua maior capacidade de detectar tumores precoces em mamas
jovens e densas”, detalha a Dra. Larissa Guedes. Dependendo da mutação, essa
bateria de exames pode começar já aos 25 ou 30 anos.
Além
do impacto direto na paciente, o teste genético tem um papel crucial para os
parentes, já que essas mutações têm 50% de chance de serem transmitidas aos
filhos, independentemente do sexo. No entanto, segundo o Dr. Cavaleiro, ter a
mutação não é uma condenação. “O resultado abre um leque de decisões; ele não é
uma sentença. A informação é valiosa justamente porque permite agir antes. Hoje
temos estratégias bem estabelecidas de rastreamento intensivo e de cirurgias
redutoras de risco, que podem ser discutidas com calma, respeitando a idade, os
planos de vida e as preferências de cada mulher”, afirma o Dr. Cavaleiro.
Diagnóstico
precoce: mais de 90% de chance de cura
Segundo
o oncologista do Hospital Santa Catarina – Paulista, quando o câncer de mama é
diagnosticado em estágio inicial, as chances de cura passam de 90%. Logo, seja
pelo rastreamento padrão aos 40 anos ou pelo acompanhamento genético de alto
risco, o objetivo continua sendo o diagnóstico precoce da doença, quando o
tratamento é muito mais eficaz, seguro e direcionado.
As estratégias
para tratar o câncer de mama hoje são guiadas pelas características moleculares
do tumor, o que permite o uso de terapias-alvo, imunoterapia ou
hormonioterapia, poupando muitas pacientes da quimioterapia agressiva. No
entanto, a eficácia desse tratamento vai depender sempre de um rastreamento
eficaz e diagnóstico precoce.
“Não
existe uma única estratégia de prevenção para todas as mulheres. O rastreamento
precisa considerar idade, sintomas, história familiar, fatores pessoais e risco
individual. Detectar cedo continua sendo uma das ferramentas mais importantes
para ampliar as possibilidades de tratamento e melhorar os resultados”,
conclui a radiologista da Casa de Saúde São José.
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