Endometriose: tratamentos vão do controle dos
sintomas à cirurgia robótica em casos mais complexos
Do
uso de medicamentos à cirurgia minimamente invasiva, a escolha da abordagem
depende dos sintomas, extensão da doença e planos reprodutivos; tecnologia
robótica pode ampliar a precisão em procedimentos de maior complexidade.
A endometriose deixou de ser vista apenas como uma doença associada a cólicas fortes e restrita a pelve da mulher. Dor pélvica, dor durante as relações sexuais, alterações intestinais ou urinárias e dificuldade para engravidar, impactam a qualidade de vida da mulher como um todo e podem fazer parte do quadro, que apresenta diferentes formas e níveis de comprometimento. Por isso, o tratamento também mudou: hoje a endometriose é considerada uma doença sistêmica, inflamatória e crônica sendo a estratégia definida de acordo com as características da doença e os objetivos de cada paciente.
“Não existe um único tratamento para a endometriose, cada caso tem que ser individualizado. Precisamos entender quais são os sintomas, onde estão as lesões, qual é a extensão da doença e, principalmente, o que aquela mulher espera do tratamento. O desejo de engravidar, por exemplo, muda bastante a tomada de decisão”, explica Marcos Tcherniakovsky, especialista em endometriose do Hospital e Maternidade Santa Joana.
Em
muitos casos, o tratamento começa pelo controle dos sintomas. Analgésicos e
anti-inflamatórios podem ser utilizados para a dor, enquanto terapias
hormonais, como contraceptivos combinados e progestagênios, podem ajudar a
reduzir ou controlar os sintomas relacionados à atividade da doença. A escolha
depende da resposta de cada paciente, dos efeitos adversos e dos seus planos
reprodutivos.
Mas
nem toda mulher com endometriose precisa passar por cirurgia. A indicação
cirúrgica é avaliada individualmente e pode ganhar importância diante de dor
persistente, da evolução da doença ou comprometimento de órgãos e estruturas da
pelve. Nas formas mais avançadas, as lesões podem atingir regiões próximas ao
intestino, bexiga, ureteres e outros tecidos, tornando o planejamento cirúrgico
especialmente importante. A ESHRE recomenda que pacientes com endometriose profunda
sejam encaminhadas a centros com experiência nesse tipo de cirurgia.
É
justamente nos procedimentos de maior complexidade que a cirurgia robótica
passa a fazer parte do arsenal disponível para algumas pacientes. A tecnologia
permite ao cirurgião trabalhar com visualização ampliada e instrumentos
articulados, favorecendo movimentos mais precisos em regiões anatômicas
delicadas.
“Quando
falamos de endometriose profunda, muitas vezes estamos trabalhando em áreas muito
próximas de estruturas importantes. A cirurgia robótica oferece recursos que
podem ajudar o cirurgião a realizar movimentos mais delicados e precisos. Mas é
importante deixar claro que o robô não substitui o médico: a indicação, a
estratégia e a execução do procedimento continuam sob responsabilidade da
equipe cirúrgica”, explica Tcherniakovsky.
A
tecnologia, porém, não deve ser entendida como obrigatória para todas as
pacientes. A laparoscopia convencional continua sendo uma técnica importante no
tratamento cirúrgico da endometriose, e a escolha entre as diferentes
abordagens depende da extensão e localização da doença, das características da
paciente e da experiência da equipe.
Outro
ponto que ganhou importância na abordagem da endometriose é a preservação da
fertilidade. Uma cirurgia pode ser muito relevante para determinada paciente,
mas precisa ser planejada com atenção quando existem lesões ovarianas ou quando
a mulher pretende engravidar. Nas endometriomas ovarianos, por exemplo, as
diretrizes recomendam cautela para minimizar possíveis danos ao ovário durante
o procedimento.
“Não
podemos olhar apenas para a lesão. Precisamos olhar para a mulher. Em uma
paciente que deseja engravidar, preservar a reserva ovariana pode ser tão
importante quanto tratar a doença. Em outra, o principal objetivo pode ser
controlar uma dor que compromete a qualidade de vida. São situações diferentes
e que exigem estratégias diferentes”, afirma o especialista.
A
cirurgia também não significa necessariamente o fim do acompanhamento. Como a
endometriose é uma doença crônica, é preconizado bloquear o ciclo menstrual
quando não se tem desejo reprodutivo no momento e aí o tratamento hormonal
continua sendo importante. O acompanhamento permite monitorar sintomas e definir
os próximos passos de acordo com a evolução de cada caso.
Mais
do que escolher entre remédio, laparoscopia ou robótica, o tratamento da
endometriose passa por uma avaliação individualizada. O avanço das técnicas
cirúrgicas ampliou as possibilidades para pacientes com doença complexa, mas a
tecnologia é apenas uma parte de uma estratégia que começa pelo diagnóstico
adequado e pela definição dos objetivos de cada mulher.
“Hoje
temos diferentes ferramentas para tratar a endometriose, inclusive tecnologias
que ampliam nossa capacidade de atuar em casos complexos. O mais importante é
saber quando utilizar cada uma delas e fazer com que o tratamento esteja
alinhado às necessidades e ao projeto de vida da paciente”, conclui Marcos
Tcherniakovsky.
www.santajoana.com.br
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