Fundador e Presidente do Conselho de
Administração do grupo Ser Educacional, Janguiê Diniz diz
que quando não se confronta o desrespeito, acaba-se contribuindo para que
ele continue a existir
Os casos recentes de violência e abusos contra mulheres e meninas no Brasil voltaram a escancarar uma realidade que, infelizmente, ainda insiste em se repetir. Notícias de feminicídios, agressões domésticas, estupros e diferentes formas de violência de gênero surgem com frequência alarmante, lembrando-nos de que o problema está longe de ser resolvido. No entanto, há um ponto que precisa ser cada vez mais enfatizado nesse debate: combater a violência contra a mulher também é responsabilidade dos homens.
Durante muito tempo, esse tema foi tratado como
uma pauta tida como feminina. As mulheres, com razão, lideraram movimentos de
denúncia, conscientização e transformação social. Mas a violência de gênero não
pode ser combatida apenas por quem sofre suas consequências. Ela nasce, em
grande parte, de comportamentos, valores e estruturas que também envolvem
homens, e, por isso, exige a participação ativa deles na mudança. Não basta que
um homem diga que não é machista. É preciso agir contra o machismo sempre que
ele se manifesta. Isso significa reconhecer que a violência de gênero não
começa apenas nos crimes mais graves, mas em atitudes aparentemente pequenas e
banalizadas no cotidiano. Piadas que diminuem mulheres, comentários que
objetificam seus corpos, desrespeito às suas escolhas ou a tentativa de deslegitimar
suas vozes fazem parte de uma cultura que normaliza desigualdades e cria
terreno fértil para agressões mais graves.
Quando essas atitudes são toleradas em rodas de
conversa, ambientes de trabalho ou grupos de amigos, cria-se uma cadeia
silenciosa de validação. Muitas vezes, quem presencia essas situações prefere o
silêncio para evitar desconfortos. No entanto, a omissão também tem peso moral.
Quando não se confronta o desrespeito, acaba-se, ainda que involuntariamente,
contribuindo para que ele continue existindo. É nesse ponto que a participação
masculina se torna essencial. Homens têm um papel importante na desconstrução
de comportamentos e mentalidades que historicamente sustentaram a desigualdade
de gênero. Isso passa por atitudes simples, mas significativas: contestar
comentários ofensivos, apoiar vítimas, promover ambientes de respeito e educar
novas gerações com valores de igualdade e empatia.
A educação, aliás, é um dos pilares dessa
transformação. Famílias e escolas precisam trabalhar juntas para formar meninos
e meninas que compreendam o valor do respeito mútuo desde cedo. Ensinar que
mulheres não são propriedade, que consentimento é indispensável e que
relações devem ser baseadas em dignidade e igualdade é fundamental para quebrar
ciclos de violência que se perpetuam há décadas.
Entretanto, educação e conscientização precisam
caminhar lado a lado com respostas firmes do sistema de justiça. O Brasil
avançou ao criar legislações importantes, como a Lei Maria da Penha e a
tipificação do feminicídio, mas ainda há um longo caminho a percorrer. Muitas
vítimas enfrentam dificuldades para denunciar, encontram barreiras
institucionais e convivem com a sensação de impunidade em diversos casos. E
leis eficazes precisam ser acompanhadas de aplicação rigorosa. A punição
consistente de agressores tem efeito pedagógico para a sociedade e transmite
uma mensagem clara: a violência contra mulheres não será tolerada. Além disso,
é legítimo discutir o aprimoramento das legislações e o endurecimento de penas
para crimes de violência doméstica e sexual, garantindo que a proteção às
vítimas seja cada vez mais efetiva.
Outro ponto fundamental é o acolhimento às
vítimas. Muitas mulheres ainda enfrentam medo, vergonha ou descrédito ao
denunciar agressões. É responsabilidade do Estado e da sociedade garantir
estruturas de apoio, proteção e acompanhamento psicológico e jurídico
adequados. Uma sociedade verdadeiramente comprometida com a justiça não pode
permitir que vítimas se sintam desamparadas.
A mudança cultural exige tempo, mas começa com
escolhas individuais e é urgente. Cada comentário questionado, cada atitude de
respeito e cada posicionamento contra a violência ajudam a transformar
mentalidades. Combater o machismo não é apenas uma pauta social; é um
compromisso ético com a dignidade humana. Por isso, é importante afirmar com
clareza: violência contra a mulher não é um problema apenas das mulheres, mas
de toda a sociedade, e os homens precisam fazer parte da solução. Ficar em
silêncio diante da injustiça nunca foi neutralidade. É, muitas vezes, uma forma
silenciosa de conivência.
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