Com expiração da patente da
semaglutida no Brasil, Anvisa informa que há oito processos em análise e nove
que aguardam avaliação técnica; para especialista, maior oferta não resolve
sozinha a base do problema metabólico
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A expiração da patente da semaglutida no
Brasil abriu uma nova etapa no mercado dos medicamentos com o mesmo princípio
ativo do Ozempic. Em atualização divulgada em 20 de março, a Agência Nacional
de Vigilância Sanitária (Anvisa) informou que há oito processos em análise para
novos produtos e outros nove aguardando o início da avaliação técnica. A
agência ressalta, porém, que isso não significa chegada imediata às farmácias,
já que qualquer medicamento precisa comprovar eficácia, segurança e qualidade
antes de obter registro.
Para a nutricionista Bela Clerot
(@bela_nutricao no Instagram), especialista em tratamento e prevenção
do diabetes, o novo cenário pode ampliar a concorrência e facilitar o acesso ao
tratamento ao longo do tempo, mas não muda, por si só, a forma como o país lida
com prevenção e acompanhamento. “A expiração da patente do Ozempic pode
ampliar o acesso ao medicamento no Brasil, mas isso não acontece da noite para
o dia e não substitui prevenção, acompanhamento e mudança de hábitos”,
afirma.
Dados do Ministério da Saúde mostram
que, entre 2006 e 2024, a prevalência de diagnóstico médico de diabetes entre
adultos das capitais dos 26 estados e do Distrito Federal passou de 5,5% para
12,9%, alta de 135%. No mesmo período, o excesso de peso passou de 42,6% para
62,6%, e a obesidade, de 11,8% para 25,7%.
Na avaliação da especialista, o risco é
tratar a medicação como solução total para um problema que continua sendo
negligenciado em sua base. Segundo Bela, o medicamento pode ter papel
importante no tratamento do diabetes tipo 2 e no controle do peso, mas não
reorganiza sozinho a rotina, não ensina a interpretar exames e não corrige, por
si só, hábitos que contribuem para o adoecimento metabólico.
Para Bela, a popularização dessas
canetas ampliou o debate sobre emagrecimento e controle glicêmico, mas não
eliminou problemas básicos de prevenção e orientação. “Tem muita gente
cansada, com fome frequente, sono ruim, exames alterados e ganho de peso
abdominal, mas que continua chamando isso de estresse, idade ou rotina corrida.
O corpo dá sinais antes do diagnóstico, e é aí que o debate público precisa
amadurecer”, diz.
A nutricionista defende que a cobertura
sobre Ozempic e medicamentos da classe GLP-1 não fique restrita à lógica do
consumo ou da novidade farmacêutica. Para ela, a discussão sobre preço e acesso
é importante, mas não deveria apagar o que vem antes do remédio: leitura de
sinais precoces, alimentação cotidiana, acompanhamento e estratégia de longo
prazo.
“A pergunta não deveria ser só quando a caneta vai ficar mais
acessível. A pergunta mais importante é por que tanta gente chegou a um ponto
em que depende de uma solução rápida para lidar com um problema metabólico que
já vinha sendo construído há anos”, conclui.
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