Dados analisados pelo Einstein indicam aumento na incidência, maior acesso ao diagnóstico e ao tratamento cirúrgico; regiões Sul e Sudeste concentram mais de 70% dos procedimentos
Neste Março Azul-Marinho, mês de conscientização e prevenção do câncer colorretal, um estudo conduzido por pesquisadores do Centro de Estudo e Promoção de Políticas de Saúde do Einstein Hospital Israelita com apoio da Fundação Bracell mostrou que o número de cirurgias para retirar tumores na região cresceu 74% em uma década, passando de 23 mil, em 2014, para 40 mil, em 2024. A análise utilizou dados de mais de 310 mil procedimentos registrados no Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH-SUS).
O aumento das cirurgias foi verificado em todas as faixas etárias da população e está relacionado ao próprio crescimento populacional, ao avanço da incidência da doença e à ampliação da capacidade de diagnóstico e tratamento, ainda que o acesso ocorra de forma desigual entre as regiões do país. A tendência de alta sofreu interrupção somente em 2020, quando houve queda significativa na realização de cirurgias eletivas em razão do impacto da pandemia de Covid-19 sobre o sistema de saúde, com retomada nos anos seguintes.
Os procedimentos envolveram homens e mulheres em proporções praticamente equivalentes, sendo 50,2% homens e 49,8% mulheres, com ocorrência majoritariamente em faixas etárias mais avançadas. O grupo de 60 a 69 anos concentrou 30,1% das cirurgias, o de pacientes de 50 a 59 anos responderam por 23,0% e os de 70 a 79 anos, por 20,9%. Casos em pessoas com até 30 anos representaram apenas 2,6% do total das cirurgias, reforçando a associação do câncer colorretal com o envelhecimento da população brasileira.
“Embora as cirurgias para câncer colorretal no SUS se concentrem
majoritariamente em faixas etárias mais avançadas, é fundamental ampliar a
atenção também para a população mais jovem. O aumento de casos em adultos
abaixo dos 50 anos, muitas vezes associado a fatores genéticos e histórico
familiar, reforça a importância do diagnóstico precoce, da avaliação individual
de risco e da conscientização de profissionais e pacientes para sinais e
sintomas que não devem ser negligenciados em nenhuma idade”, destaca Sidney
Klajner, cirurgião do aparelho digestivo e coloproctologista, e presidente do
Einstein.
Desigualdades regionais no acesso aos tratamentos
Do ponto de vista geográfico, o estudo aponta forte concentração regional da capacidade cirúrgica. Mais da metade das cirurgias para câncer colorretal realizadas no SUS ocorreu na região Sudeste (51,5%), seguida pelo Sul (23,5%), Nordeste (16,0%) e Centro-Oeste (6,4%). A região Norte respondeu por apenas 2,7% dos procedimentos realizados no país ao longo da década, indicando limitações estruturais no acesso à oncologia de alta complexidade.
As desigualdades também se refletem nos resultados clínicos. A mortalidade hospitalar média das cirurgias foi de 5,8%, mas apresentou variações importantes entre as regiões. O Norte registrou a maior taxa de mortalidade hospitalar (6,7%), enquanto Nordeste e Sul apresentaram os menores índices (5,2%). O tempo médio de internação também foi mais elevado nas regiões com menor oferta cirúrgica: pacientes do Norte permaneceram hospitalizados, em média, 9 dias, acima da média nacional de 7,3 dias, enquanto Nordeste e Centro-Oeste apresentaram tempo médio de internação de cerca de 6,5 dias.
“Os achados indicam que as desigualdades regionais não se limitam
ao acesso às cirurgias, mas impactam diretamente a qualidade do cuidado e os
resultados clínicos, refletindo diferenças na disponibilidade de centros
especializados, equipes treinadas e tecnologias de alta complexidade”, explica
Klajner.
Prevenção e diagnóstico precoce ganham relevância em cenário
de incidência crescente
O crescimento sustentado das cirurgias para câncer colorretal ocorre em um país que envelhece em ritmo acelerado. De acordo com o Censo 2022 do IBGE, a população com 65 anos ou mais já representa 10,9% dos brasileiros, após um aumento de 57% em pouco mais de uma década. Essa dinâmica demográfica amplia a pressão sobre o SUS, especialmente na assistência oncológica de alta complexidade. Não por acaso, dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca), na Estimativa 2026–2028: incidência de câncer no Brasil, indicam que o câncer colorretal já é o segundo tipo de câncer mais comum no país, com cerca de 27,5 mil novos casos anuais entre mulheres e 26,2 mil entre homens.
Esse movimento reforça a importância de ampliar as estratégias de prevenção e diagnóstico precoce, capazes de identificar lesões em estágios iniciais e reduzir a necessidade de procedimentos mais complexos. Na assistência de alta complexidade, evidencia a necessidade de planejamento de longo prazo, fortalecimento da rede oncológica e adoção de políticas públicas voltadas à redução das desigualdades regionais, com ampliação do acesso ao rastreamento, ao diagnóstico e ao tratamento oportuno em todas as regiões do país.
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