“Cada criança tem seu tempo” pode atrasar diagnóstico de autismo, alerta neuropsicóloga
A frase “cada criança tem seu tempo” é comum entre pais e cuidadores, mas pode ser perigosa quando se trata do desenvolvimento neurológico. A neuropsicóloga Bárbara Calmeto, diretora do Autonomia Instituto, alerta que esperar demais pode atrasar diagnósticos importantes e impedir o início de terapias que fazem diferença no futuro da criança.
“Quanto antes for a intervenção, mel, hor para o neurodesenvolvimento”, afirma. Ela explica que o cérebro nos primeiros anos de vida é altamente plástico e essa janela precoce é decisiva para o aprendizado e a adaptação.
Uma pesquisa da Drexel University, publicada em novembro de 2024, mostrou que o uso de triagens padronizadas, como o M-CHAT-R/F, durante consultas pediátricas de rotina, permite identificar sinais de autismo com média de diagnóstico aos 20 meses, inclusive em casos leves. Já um estudo da University of Missouri (2025) apontou que comportamentos observados aos nove meses podem indicar sinais de autismo, reforçando a importância da atenção precoce.
Segundo uma revisão publicada no periódico Autism Research, apenas 15% das crianças em idade pré-escolar com Transtorno do Espectro Autista (TEA) iniciam terapias antes dos dois anos, uma lacuna que reduz o potencial de avanço no tratamento.
Mesmo antes de um diagnóstico fechado, alguns sinais devem ser observados: falta de reação a sons, ausência de contato visual ao ser chamada pelo nome, expressões faciais pouco variadas, preferência por brincar sozinha, ausência de balbucios e movimentos repetitivos.
Esses comportamentos não confirmam o diagnóstico, mas justificam uma avaliação. “Muitos pais esperam que o tempo resolva, mas isso pode significar perder o período mais importante para o desenvolvimento”, alerta Calmeto.
A Análise do Comportamento Aplicada (ABA) é uma das
terapias mais indicadas e, quando iniciada cedo, ajuda a ampliar interações
sociais, desenvolver habilidades de comunicação e autonomia. A especialista
reforça que cada criança realmente tem um ritmo, mas essa diferença não deve
ser usada como justificativa para adiar investigações. “Nem toda variação é
sinal de autismo, mas toda dúvida merece ser avaliada. Esperar pode custar
oportunidades preciosas de desenvolvimento”, conclui.
Sinais precoces
Segundo a especialista, os seguintes sinais podem ser observados em bebês e indicam a necessidade de uma avaliação especializada:
1️⃣ Falta de reação a estímulos sonoros: Bebês normalmente reagem a sons, especialmente visíveis ou familiares. A ausência dessa resposta pode ser um indicativo de TEA.
2️⃣ Ausência de contato visual ao ser chamado pelo nome: Espera-se que a criança responda de 70% a 80% das vezes quando chamada.
3️⃣ Expressões faciais limitadas: Bebês com TEA podem apresentar apenas uma expressão facial, independentemente das emoções.
4️⃣ Isolamento social: Preferem brincar sozinhos e evitam interações carinhosas ou gestos de afeto.
5️⃣ Ausência de balbucios ou tentativas de comunicação sonora: Sons como "ada" ou "ohh" são comuns em bebês neurotípicos que querem chamar atenção.
6️⃣ Movimentos repetitivos: Balançar os pés ou bater a cabeça de forma frequente pode ser observado.
Calmeto ressalta que, quanto mais cedo as terapias
especializadas são iniciadas, maior a chance de avanços nos déficits
apresentados. A Intervenção ABA, por exemplo, tem sido amplamente utilizada
para aumentar interações sociais, reduzir comportamentos inadequados e ensinar
habilidades importantes, proporcionando um desenvolvimento mais próximo ao
esperado. "Isso pode transformar o futuro dessas crianças, garantindo-lhes
mais autonomia e qualidade de vida", completa a neuropsicóloga.
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