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A gravidez é um período de transformações intensas no corpo da
mulher, muitas delas invisíveis, mas com impacto direto na saúde. Entre essas
mudanças, as que envolvem a circulação sanguínea merecem atenção especial. Isso
porque a gestação, por si só, aumenta significativamente o risco de trombose,
condição potencialmente grave e ainda pouco reconhecida fora do meio médico.
Com a chegada de períodos mais frios, como o outono, é comum
associar a queda de temperatura a alterações na circulação. De fato, o
organismo responde ao frio com a chamada vasoconstrição periférica, mecanismo
que reduz o fluxo sanguíneo na pele e nas extremidades para preservar o calor
corporal. No entanto, especialistas alertam: esse fator, isoladamente, não é o
principal responsável pelo aumento do risco de trombose.
“O que realmente determina esse risco é a própria gestação”,
explica o presidente da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia
Vascular (SBACV), Dr. Edwaldo Joviliano. “O corpo da mulher entra em um estado
de maior tendência à coagulação, como forma de proteção contra sangramentos no
parto, mas isso também favorece a formação de trombos.”
Além da hipercoagulabilidade, outros fatores contribuem para esse
cenário. O volume de sangue pode aumentar em até 50% durante a gravidez, os
hormônios promovem a dilatação das veias e o crescimento do útero passa a
comprimir estruturas importantes da circulação venosa. Como resultado, o
retorno do sangue das pernas ao coração se torna mais lento, condição que
favorece o aparecimento de varizes e, em casos mais graves, a trombose.
Risco maior e pouco percebido
Dados de diretrizes da Federação Brasileira das Associações de
Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) indicam que o risco de tromboembolismo
venoso é cerca de quatro a cinco vezes maior em gestantes do que em mulheres
não grávidas da mesma idade. Embora a incidência seja considerada baixa, entre
5 e 10 casos por 10 mil gestações, o impacto é significativo: a trombose está
entre as principais causas indiretas de mortalidade materna.
O risco aumenta ao longo da gravidez e atinge seu ponto mais
elevado no período pós-parto. As primeiras seis semanas após o nascimento
concentram a fase de maior vulnerabilidade, exigindo atenção mesmo após a alta hospitalar.
Sinais que não devem ser ignorados
Durante a gestação, sintomas como inchaço nas pernas, sensação de
peso e aparecimento de varizes são comuns e, na maioria das vezes, benignos. No
entanto, alguns sinais devem acender o alerta.
Dor em uma das pernas, aumento de volume assimétrico, vermelhidão
e calor local podem indicar trombose venosa profunda, situação que exige
avaliação médica imediata. “É fundamental que a gestante esteja orientada para
reconhecer esses sinais e buscar atendimento rapidamente”, reforça Joviliano.
Quem tem mais risco
Alguns fatores aumentam ainda mais a probabilidade de complicações
vasculares durante a gestação e o puerpério. Entre eles: idade acima de 35
anos; obesidade; histórico de trombose; presença de trombofilias; sedentarismo
ou imobilização prolongada e cesariana, especialmente associada a outros
fatores.
Nesses casos, o acompanhamento médico deve ser mais rigoroso e, em
situações específicas, pode incluir medidas preventivas adicionais.
Prevenção é simples e eficaz
Apesar do alerta, especialistas reforçam que a maioria dos casos
pode ser evitada. Medidas simples, quando adotadas de forma regular, têm
impacto direto na redução do risco.
Manter-se ativa, evitar longos períodos sentada ou em pé, elevar
as pernas ao descansar, manter boa hidratação e utilizar meias de compressão
quando indicadas são recomendações amplamente respaldadas por diretrizes
médicas.
“O cuidado com a circulação deve fazer parte do pré-natal. Com
acompanhamento adequado, é possível atravessar a gestação com segurança e
tranquilidade”, afirma o presidente da SBACV.
Mais informação, menos risco
Embora mudanças de temperatura influenciem o funcionamento do
sistema circulatório, o principal fator de risco para trombose continua sendo a
própria gestação, especialmente no período pós-parto.
Por isso, a orientação dos especialistas é clara: informação de
qualidade, acompanhamento regular e atenção aos sinais do corpo são as melhores
ferramentas para prevenir complicações.
Fonte: (PDF) Protocolos FEBRASGO - Prevenção do tromboembolismo na gestante hospitalizada e no puerpério (2025)

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