Muitas pessoas
podem achar estranho ou até franzir a testa quando alguém fala: “Eu durmo com o
meu pet”, mas, na verdade, esse hábito é muito comum e, em muitos casos, as
pessoas que dormem com seus pets relatam uma sensação de conforto.
Em muitos casos elas relatam que dormem melhor e acordam mais relaxadas quando o pet está com elas. Mas será que é isso mesmo? Será que, do ponto de vista fisiológico, o sono é mais restaurador quando o pet está na cama ou no quarto com o seu responsável?
O que
as pesquisas dizem
Essa é exatamente
a pergunta que os pesquisadores têm feito nas últimas décadas, tentando
entender não só por que essa prática tem se tornado mais comum, mas também qual
é o impacto dela na nossa saúde física e na qualidade do nosso sono.
E aí uma coisa
interessante acontece, porque, em muitos estudos, os responsáveis por seus pets
descrevem realmente essas sensações muito positivas, mas, quando medidas mais
objetivas são observadas, nem sempre os dados confirmam essa percepção dos
responsáveis.
Para entender o
que está sendo avaliado quando falamos de sono ou qualidade do sono, primeiro é
importante entender que o sono não é só algo que tem uma função restauradora do
ponto de vista biológico. Essa é, sim, uma dimensão importantíssima do sono,
mas existe uma outra dimensão, que é a subjetiva. Ela mede o quanto a pessoa se
sente confortável durante a noite e o quanto essa experiência é percebida como
relaxante.
Isso significa
que, em estudos sobre o sono, essas duas dimensões precisam ser avaliadas e
elas são avaliadas de formas diferentes. Quando o interesse é em medidas
fisiológicas, alguns estudos usam polissonografia, sensores para monitorar
frequência cardíaca, além de dispositivos como a actigrafia, um tipo de relógio
feito para monitorar parâmetros específicos.
Nesses casos, eles
focam aspectos fisiológicos, além de tentar medir quantas vezes as pessoas
acordaram à noite, quanto tempo demoraram para dormir, quão restaurador foi o
sono, se houve muito movimento à noite ou não. E as perguntas feitas quando
esse aspecto mais subjetivo é avaliado envolvem entender como a pessoa se
sentiu ao acordar e se o sono foi percebido como relaxante.
Um estudo de 2024
publicado na Scientific Reports mostra um dado interessante, que é confirmado
em outros estudos. Muitas vezes, os responsáveis por seus pets descrevem que o
sono foi muito relaxante, mas, quando medidas como o número de vezes que
acordaram à noite, movimentos durante a noite, são medidas com parâmetros mais
concretos, observa-se algo diferente.
O que comumente se
observa é uma associação entre mais perturbações do sono e maior possibilidade
de desenvolver distúrbios do sono, como, por exemplo, a insônia quando as
pessoas dormem com o pet.
Isso pode
acontecer por vários motivos. Um deles é que existe uma sincronia entre os pets
e seus tutores. Isso não acontece só durante o dia, quando existe uma sincronia
de emoções, de comportamentos, mas também à noite. Quando o pet se movimenta, o
responsável pelo pet tende a se movimentar mais também. E isso interfere na
qualidade do sono. O mesmo acontece com o pet. Ele tende a se movimentar mais
quando o tutor se movimenta. Então, há um impacto no sono dos dois, na
qualidade objetiva do sono dos dois.
Por
que dormimos com os pets?
Resta a pergunta:
por que, então, as pessoas continuam dormindo com seus pets, ainda que essas
medidas mais objetivas apontem que o sono pode ter, na verdade, uma qualidade
pior quando o pet está presente?
Aqui é importante
entender que, quando dormimos, nos sentimos em um estado mais vulnerável, e a
presença do pet pode ajudar, às vezes, a relaxar. Ela pode ajudar a trazer
conforto emocional. E é essa experiência que fica marcada na memória. Nem
sempre a gente consegue observar esses impactos no corpo que vão se acumulando
ao longo do tempo. Ter uma qualidade de sono ruim ao longo do tempo pode, sim,
ter impactos negativos para a saúde, mas isso não é imediatamente percebido.
Então, muitas
vezes, as pessoas demoram para associar que uma dificuldade de regular emoções
ou mesmo sintomas físicos, como fadiga, falta de concentração, dificuldade para
manejar frustrações no dia a dia, podem estar relacionadas com a qualidade ruim
do sono.
Ao acordar o que
fica é a sensação de que o pet está ali e que é uma sensação prazerosa tê-lo ao
lado. Ainda que muitas pessoas digam, brincando, “meu pet ocupa mais a cama do
que eu” ou “ele me acorda várias vezes à noite”. Então, até existe essa
percepção de que o sono pode ser mais interrompido quando o pet está presente.
Mas, frequentemente, não existe uma percepção das reais consequências sobre o
corpo.
E aqui não é uma
questão de dizer se isso é bom ou ruim, se as pessoas devem dormir com seus
pets ou não. No entanto, é importante ter essa visão mais ampla dos impactos
imediatos e dos impactos ao longo do tempo, porque isso pode ajudar as pessoas
a tomarem decisões mais conscientes, de acordo com aquilo que faz mais sentido
para a realidade delas e para as necessidades que elas têm.
Renata Roma -psicoterapeuta e
pesquisadora na University of Saskatchewan (Canadá). Ela é especialista na
relação entre saúde emocional, infância e vínculos com animais e desenvolve
pesquisas há mais de 10 anos sobre os benefícios (e desafios) das interações
entre humanos e animais e host do podcast Mais que um Pet.
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