Existe um equívoco persistente no varejo pet brasileiro centrado em acreditar que vender bem produtos é suficiente para sustentar crescimento. Não é mais, e o próprio tamanho e maturidade do setor deixam isso claro. O mercado pet devia movimentar cerca de R$ 77,2 bilhões em 2025, segundo projeções divulgadas com base em dados da Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet) e do Instituto Pet Brasil (IPB). Esse número impressiona, mas o que realmente importa é como esse dinheiro está sendo distribuído e por que alguns negócios crescem mais do que outros. Nesse contexto, banho e tosa deixou de ser um serviço complementar e passou a ser uma engrenagem central para geração de fluxo, relacionamento e valor dentro do pet shop.
O
Brasil convive hoje com uma base gigantesca de consumo recorrente. Estima-se
que o país tenha aproximadamente 160 milhões de animais de estimação, com média
de 2,2 pets por domicílio, de acordo com dados divulgados por entidades do
setor. Isso significa milhões de lares que precisam cuidar de higiene,
bem-estar e aparência dos animais de forma contínua, não esporádica, e é
justamente aí que mora a diferença entre quem apenas vende produto e quem constrói
rotina com o cliente.
Quando o cliente cria hábito, o negócio ganha
previsibilidade
Produto
gera visita pontual. Serviço gera hábito. Hábito gera previsibilidade. E
previsibilidade, no varejo, é ouro. O tutor que entra no pet shop para comprar
ração pode escolher hoje uma loja e amanhã outra. Já aquele que leva o animal
toda semana ou a cada quinze dias para banho começa a construir um vínculo com
o espaço, com a equipe e com a experiência, passando a resolver mais coisas ali
de forma natural.
É
verdade que categorias como ração, antiparasitários, tapetes higiênicos e areia
também têm alto potencial de recorrência e podem gerar previsibilidade de
receita. No entanto, para que isso aconteça, o pet shop precisa investir em
gestão estruturada, ERP eficiente, controle de estoque, política de preço
competitiva e, muitas vezes, estratégias como programas de fidelidade ou
assinatura para enfrentar a concorrência dos grandes players e marketplaces.
Isso
ajuda a entender por que, mesmo com os alimentos ainda representando cerca de
metade do faturamento do setor pet, segundo estimativas das próprias entidades
de mercado, os serviços ganham importância estratégica. Produtos são cada vez
mais pressionados por preço, marketplace e guerra promocional. Serviços não: eles
são experiência, confiança e relação, além de difíceis de substituir por um
clique.
Quando
um pet shop oferece banho e tosa de forma estruturada, ele deixa de ser apenas
ponto de venda e passa a ocupar um lugar na rotina do cliente, e essa mudança é
profunda, pois o negócio deixa de depender exclusivamente de campanhas,
descontos ou datas sazonais para girar.
O problema não é o serviço, é a falta de método
De
fato, investir em banho e tosa é algo complexo, pois exige equipe, espaço,
treinamento e processos, e tudo isso é verdade. Mas esse não é um argumento
contra o serviço. É um argumento contra improviso. Negócios que tentam operar
banho e tosa como “puxadinho” normalmente sofrem. Negócios que tratam banho e
tosa como unidade estratégica, com padrão, indicadores e gestão, colhem
resultado. A diferença não está no serviço em si, mas na forma como ele é
encarado dentro do modelo de negócio.
Ignorar
esse movimento tem custo. Em um mercado que deve seguir em expansão em 2026,
como mostram as projeções da Abinpet e do IPB para 2025, pet shops que
permanecem restritos à venda de produtos tendem a perder relevância para
operações que entregam conveniência e solução completa. O futuro do pet shop
não é ser apenas uma boa loja, mas um bom ponto de relacionamento com o tutor,
e relacionamento se constrói muito mais por meio de serviços do que por
prateleiras.
Por isso, vale ressaltar que banho e tosa não é mais diferencial. Diferencial hoje é como o serviço é executado. Ter ou não ter deixou de ser escolha estratégica. Virou condição mínima para quem quer crescer, fidelizar e permanecer competitivo no varejo pet brasileiro.
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