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Educadora explica porque mentir faz parte do desenvolvimento infantil e orienta como os adultos devem lidar com a situação
No Dia da Mentira, celebrado em 1º de abril, o tema costuma aparecer em tom de
brincadeira. No cotidiano das famílias, porém, quando uma criança começa a
negar fatos evidentes ou inventar histórias para escapar de uma bronca, o
assunto pode gerar preocupação. Qual pai, mãe ou responsável nunca ouviu de uma
criança frases como “não fui eu”, “eu já fiz a lição” ou “o cachorro comeu o
chocolate”? Mas afinal, mentir é um sinal de problema no comportamento
infantil?
De
acordo com Jacqueline Cappellano, coordenadora pedagógica da Escola
Internacional de Alphaville, de Barueri (SP), as primeiras mentiras
costumam aparecer por volta dos três ou quatro anos de idade, fase em que o
indivíduo começa a desenvolver habilidades como imaginação, linguagem e
compreensão das regras sociais, e percebe que pode manipular informações para
evitar punições ou obter algum benefício.
“Esse
é um passo importante no amadurecimento cognitivo”, explica. “Na maioria das
vezes, a mentira infantil não está ligada à malícia ou à intenção de enganar de
forma grave. Muitas vezes, ela surge por medo de punição, para agradar aos
adultos ou simplesmente como extensão do universo imaginativo da criança.” A
criança muitas vezes mente por receio de perder o amor do adulto, pois não sabe
como será sua reação ao contar a verdade sobre algo “errado” que fez.
Segundo
a especialista, nessa etapa o “faz de conta” é um recurso importante para o
desenvolvimento emocional e criativo. Por isso, nem sempre o que os adultos
interpretam como mentira é uma tentativa deliberada de enganar: a criança não
faz para manipular, até porque nem teria condições cognitivas para isso. Em
determinadas situações, a mentira aparece como forma de autoproteção: a criança
pode negar que quebrou um objeto ou que não fez a tarefa de casa por receio da
reação dos adultos.
“É
importante lembrar que a criança ainda está aprendendo a lidar com regras
sociais e emoções. Mentir pode ser uma tentativa de resolver um problema
imediato, sem que ela compreenda totalmente as consequências”, destaca
Capellano.
Como os adultos devem reagir?
Diante
de uma mentira, a reação dos adultos influencia diretamente a frequência do
comportamento. Castigos severos ou humilhações, por exemplo, tendem a produzir
o efeito contrário ao desejado. “Quando a mentira é descoberta, o ideal é
manter a calma e conversar com a criança. Reações muito duras podem aumentar o
medo e fazer com que ela minta ainda mais para evitar punições”, orienta a
docente.
Em
vez de focar apenas no erro, a recomendação é transformar o episódio em um
momento de aprendizado. Algumas estratégias incluem: explicar por que a verdade
é importante nas relações; reforçar que todos podem cometer erros; e valorizar
quando a criança fala a verdade, mesmo em situações difíceis.
Em
uma situação hipotética em que uma criança diga que foi à Disney no feriado,
por exemplo, ao ouvir a história, o adulto não deve reagir com repreensão
imediata ou constrangimento. O mais adequado é acolher o relato e ajudar a criança
a diferenciar imaginação e realidade. Pode-se dizer à criança algo como: “A
Disney parece um lugar muito divertido mesmo, que muita gente sonha em
conhecer. Mas o que você fez mesmo no final de semana?”.
Essa
abordagem ajuda a criança a refletir sobre o que disse sem se sentir
envergonhada e transforma a situação em aprendizado, mostrando que fantasias
podem fazer parte das brincadeiras, mas que, nas conversas do dia a dia, a
honestidade é fundamental.
Outro
ponto importante é dar o exemplo dentro de casa, como em episódios em que o
adulto mente que não está em casa para não receber uma visita indesejada. “As
crianças observam o comportamento dos adultos o tempo todo. Quando veem pais ou
responsáveis mentindo em situações cotidianas, podem entender que isso é
aceitável”, afirma Capellano.
A
educadora aponta a necessidade de a família refletir sobre o clima da casa, a
forma como os conflitos são resolvidos e a abertura para o diálogo – aspectos
que influenciam diretamente o comportamento das crianças. Ambientes em que os
pequenos se sentem seguros para falar, errar e aprender tendem a reduzir a
necessidade de recorrer à mentira como mecanismo de defesa.
Para
os pais, o episódio de uma mentira pode ser também um convite à reflexão sobre
como anda a dinâmica da família e quais oportunidades existem para fortalecer
vínculos, confiança e escuta dentro de casa. “A criança precisa sentir que pode
dizer a verdade sem medo de humilhação ou punições desproporcionais. Quando o
ambiente familiar é acolhedor, o diálogo acontece com mais naturalidade e os
valores, como a honestidade, são construídos no cotidiano”, afirma Jacqueline
Capellano.
Quando é preciso ficar atento?
Embora
a mentira faça parte do desenvolvimento infantil, existem situações que exigem
mais atenção dos responsáveis. Quando o comportamento se torna frequente e
compulsivo, se prejudica a criança ou um terceiro envolvido, ou envolve
histórias muito elaboradas e distantes da realidade, pode ser um sinal de
alerta.
Em
casos extremos, o comportamento pode estar associado a dificuldades emocionais
ou algum outro problema mais sério. “Se a criança mente de forma persistente,
mesmo sem motivo aparente, ou usa a mentira como principal forma de lidar com
conflitos, é importante buscar orientação de profissional especializado como um
terapeuta infantil que possa orientar a família”, finaliza Cappellano.
Jacqueline Cappellano - pedagoga, pós-graduada em Bilinguismo e Psicopedagogia coordenadora da Educação Infantil da Escola Internacional de Alphaville. É uma grande entusiasta da Educação Bilíngue e fascinada pelo universo da educação infantil. Enxerga no intercâmbio entre ideias e culturas, um caminho para a paz entre os povos.

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