Especialista
alerta para narrativas internas que tentam aliviar a dor da perda, mas acabam
prolongando o sofrimento ou trazendo consequências físicas, emocionais e
comportamentais
No dia 1º de abril, conhecido como o Dia da
Mentira, uma reflexão necessária ganha espaço: e quando as mentiras não são
contadas aos outros, mas a nós mesmos? No contexto do luto pet, esse tipo de
comportamento é mais comum (e mais prejudicial) do que se imagina.
A perda de um animal de estimação ainda é, em muitos contextos, tratada como uma dor menor. E é justamente nesse cenário que surgem algumas das narrativas mais prejudiciais para quem está vivendo o luto: tentativas de minimizar o vínculo, acelerar a superação ou fingir uma força que não se sustenta.
Para a psicóloga e doutora em Ciências pela
Universidade de São Paulo, Natália Nigro de Sá, diretora da Laika Funeral Pet,
essas “mentiras” funcionam como anestesias emocionais. “Elas não são
mal-intencionadas. São formas de autoengano para suportar uma realidade que,
naquele momento, parece insuportável. Mas o que anestesia também pode impedir a
cicatrização”, explica.
Entre as mais comuns está a chamada “mentira da
força”. A ideia de que é preciso seguir em frente rapidamente, não chorar ou
não demonstrar sofrimento é, segundo a especialista, socialmente validada e
profundamente solitária. “Tentar ser forte o tempo todo é, talvez, a mentira
mais aceitável. Quando a pessoa sustenta essa narrativa, ela envia ao mundo o
sinal de que não precisa de ajuda. E acaba presa dentro de uma espécie de
fortaleza emocional, sofrendo no escuro, enquanto por fora sustenta uma calma
que é exaustiva”, afirma.
Esse esforço contínuo para não sentir cobra um
preço alto. A psicóloga compara o processo a tentar manter uma bola de praia
submersa: por um tempo, é possível, mas o desgaste é inevitável: você consegue
por um tempo, mas seus músculos (e sua mente) acabam entrando em exaustão. O
enlutado começa a apresentar cansaço mental crônico, falta de concentração e
irritabilidade. Ele não está cansado do trabalho ou da rotina; ele está cansado
do esforço para não sentir.
Outra narrativa frequente é a da minimização, ou
seja, quando o tutor tenta convencer a si mesmo de que “era só um animal” ou
que “já sabia que ia acontecer”. Para Natália, esse tipo de pensamento costuma
surgir como uma tentativa de se proteger do julgamento externo, mas acaba
invalidando a própria experiência. “A dor do luto é proporcional ao vínculo,
não à espécie. O relacionamento com um pet envolve afeto, rotina, presença.
Quando a pessoa tenta reduzir isso, ela não diminui a dor; apenas perde a
oportunidade de elaborá-la de forma saudável”, pontua.
Há ainda a chamada “mentira do controle”, que
aparece principalmente na forma de culpa. “O cérebro muitas vezes prefere se
sentir culpado do que impotente. Criar cenários de ‘e se eu tivesse feito
diferente’ dá a falsa sensação de que era possível evitar a perda, quando, na
realidade, estamos lidando com a finitude da vida”, explica.
Segundo a especialista, o problema dessas
narrativas não está apenas no que elas escondem, mas nos efeitos que produzem
ao longo do tempo. O luto que não encontra espaço para ser vivido pode se
manifestar de outras formas, sejam físicas, emocionais ou comportamentais.
“O corpo acaba desmentindo a mente. Surgem sintomas como insônia, cansaço
persistente, dores musculares, irritabilidade ou até uma dificuldade de se
conectar com outras pessoas e com a própria rotina”, diz.
Outro sinal de alerta é a necessidade constante de
evitar o silêncio. “Quando a pessoa não consegue ficar sozinha com os próprios
pensamentos, mantendo-se ocupada o tempo todo, isso pode indicar que há um luto
que está sendo evitado. A dor não desaparece; ela apenas encontra outras formas
de se manifestar”.
A especialista reforça ainda que o caminho mais
saudável para vier o luto pet passa justamente pelo oposto dessas “mentiras”: o
reconhecimento da dor. “O oposto da mentira no luto não é apenas a verdade, é a
coragem de ser vulnerável. Ser saudável no luto pet não significa não sofrer;
significa não precisar fingir que não dói”, conclui.
Nenhum comentário:
Postar um comentário