Pesquisar no Blog

terça-feira, 31 de março de 2026

Dia da Mentira: Falsas verdades que contamos a nós mesmos sobre o luto pet podem adoecer emocionalmente

Especialista alerta para narrativas internas que tentam aliviar a dor da perda, mas acabam prolongando o sofrimento ou trazendo consequências físicas, emocionais e comportamentais 

 

No dia 1º de abril, conhecido como o Dia da Mentira, uma reflexão necessária ganha espaço: e quando as mentiras não são contadas aos outros, mas a nós mesmos? No contexto do luto pet, esse tipo de comportamento é mais comum (e mais prejudicial) do que se imagina.

A perda de um animal de estimação ainda é, em muitos contextos, tratada como uma dor menor. E é justamente nesse cenário que surgem algumas das narrativas mais prejudiciais para quem está vivendo o luto: tentativas de minimizar o vínculo, acelerar a superação ou fingir uma força que não se sustenta. 

Para a psicóloga e doutora em Ciências pela Universidade de São Paulo, Natália Nigro de Sá, diretora da Laika Funeral Pet, essas “mentiras” funcionam como anestesias emocionais. “Elas não são mal-intencionadas. São formas de autoengano para suportar uma realidade que, naquele momento, parece insuportável. Mas o que anestesia também pode impedir a cicatrização”, explica.

Entre as mais comuns está a chamada “mentira da força”. A ideia de que é preciso seguir em frente rapidamente, não chorar ou não demonstrar sofrimento é, segundo a especialista, socialmente validada e profundamente solitária. “Tentar ser forte o tempo todo é, talvez, a mentira mais aceitável. Quando a pessoa sustenta essa narrativa, ela envia ao mundo o sinal de que não precisa de ajuda. E acaba presa dentro de uma espécie de fortaleza emocional, sofrendo no escuro, enquanto por fora sustenta uma calma que é exaustiva”, afirma.

Esse esforço contínuo para não sentir cobra um preço alto. A psicóloga compara o processo a tentar manter uma bola de praia submersa: por um tempo, é possível, mas o desgaste é inevitável: você consegue por um tempo, mas seus músculos (e sua mente) acabam entrando em exaustão. O enlutado começa a apresentar cansaço mental crônico, falta de concentração e irritabilidade. Ele não está cansado do trabalho ou da rotina; ele está cansado do esforço para não sentir.

Outra narrativa frequente é a da minimização, ou seja, quando o tutor tenta convencer a si mesmo de que “era só um animal” ou que “já sabia que ia acontecer”. Para Natália, esse tipo de pensamento costuma surgir como uma tentativa de se proteger do julgamento externo, mas acaba invalidando a própria experiência. “A dor do luto é proporcional ao vínculo, não à espécie. O relacionamento com um pet envolve afeto, rotina, presença. Quando a pessoa tenta reduzir isso, ela não diminui a dor; apenas perde a oportunidade de elaborá-la de forma saudável”, pontua.

Há ainda a chamada “mentira do controle”, que aparece principalmente na forma de culpa. “O cérebro muitas vezes prefere se sentir culpado do que impotente. Criar cenários de ‘e se eu tivesse feito diferente’ dá a falsa sensação de que era possível evitar a perda, quando, na realidade, estamos lidando com a finitude da vida”, explica.

Segundo a especialista, o problema dessas narrativas não está apenas no que elas escondem, mas nos efeitos que produzem ao longo do tempo. O luto que não encontra espaço para ser vivido pode se manifestar de outras formas, sejam físicas, emocionais ou comportamentais.  “O corpo acaba desmentindo a mente. Surgem sintomas como insônia, cansaço persistente, dores musculares, irritabilidade ou até uma dificuldade de se conectar com outras pessoas e com a própria rotina”, diz.

Outro sinal de alerta é a necessidade constante de evitar o silêncio. “Quando a pessoa não consegue ficar sozinha com os próprios pensamentos, mantendo-se ocupada o tempo todo, isso pode indicar que há um luto que está sendo evitado. A dor não desaparece; ela apenas encontra outras formas de se manifestar”.

A especialista reforça ainda que o caminho mais saudável para vier o luto pet passa justamente pelo oposto dessas “mentiras”: o reconhecimento da dor. “O oposto da mentira no luto não é apenas a verdade, é a coragem de ser vulnerável. Ser saudável no luto pet não significa não sofrer; significa não precisar fingir que não dói”, conclui.



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Posts mais acessados