Análise de dados de mais de 5
mil territórios e 1.924 espécies de sapos, rãs e pererecas mostra que duas das
principais teorias sobre biodiversidade de plantas, aves e mamíferos nesses
hábitats não explicam sozinhas a riqueza de anfíbios anuros
Espécie brasileira, perereca-araponga (Boana albomarginata)
ocorre tanto no continente quanto em ilhas, mas as insulares
são muito maiores do que as continentais
(foto: Raoni Rebouças/IB-Unicamp)
Um estudo brasileiro publicado na revista Ecography aponta
que a biodiversidade de anfíbios anuros (sapos, rãs e pererecas) em ilhas é
determinada por uma série de fatores contemplados em duas teorias até então
tidas como opostas.
“Os modelos para biodiversidade
que consideram tamanho da ilha, distância para o continente e produtividade [de
matéria orgânica por área] foram confirmados com relativo sucesso para plantas,
aves e mamíferos, mas até hoje não haviam sido testados com anfíbios anuros,
que não suportam salinidade e, por isso, têm no mar uma barreira
intransponível”, conta Raoni Rebouças,
primeiro autor do estudo, realizado como parte de pós-doutorado no Instituto de
Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB-Unicamp) com bolsa da FAPESP.
Para verificar se, mesmo assim,
os modelos se aplicavam aos anfíbios anuros, os pesquisadores compilaram dados
de mais de 5 mil ilhas marinhas do mundo. Tamanho, distância do continente e
clima foram alguns dos fatores levados em conta. O banco de dados contou ainda
com informações sobre características ecológicas de 1.924 espécies de anfíbios
anuros que ocorrem em ilhas marinhas.
Os pesquisadores analisaram não
apenas o número de espécies em cada ilha, mas outras medidas de diversidade,
como diversidade funcional ou de nichos ecológicos (se a espécie é terrestre,
aquática, arborícola ou fossorial, quando vive embaixo da terra) e diversidade
filogenética, que é a medida de quantas linhagens evolutivas existem no local.
“Se há 200 espécies numa ilha,
mas todas pertencem a uma mesma família e são todas aquáticas, há uma alta
riqueza de espécies, mas baixas diversidades filogenética e funcional”,
explica Matheus Moroti, coautor do artigo, que também realiza pós-doutorado no IB-Unicamp
com bolsa da FAPESP.
Além da análise global, com
todas as ilhas e espécies, os pesquisadores analisaram a biodiversidade de
anfíbios anuros segundo o clima, separando as regiões tropicais das temperadas.
“Nossos resultados demonstram que distância do continente, tamanho e produtividade são importantes para explicar a diversidade de anfíbios anuros em ilhas, mas sua relevância difere em relação ao regime climático [tropical ou temperado] e da diversidade de que estamos falando, se é quantidade de espécies, diversidade funcional ou filogenética”, diz Moroti.
![]() |
| Mantella baroni é uma das mais de 300 espécies de anfíbios anuros de Madagascar, grande ilha na costa sudeste da África (foto: Leslie Poulson/licença Creative Commons via Raoni Rebouças) |
Teorias
complementares
Segundo a Teoria do Equilíbrio
da Biogeografia de Ilhas, cunhada a partir de um trabalho de 1963 e outro de 1967 de Robert MacArthur e Edward O.
Wilson, quanto maior a ilha e menor a distância para o continente, maior a
riqueza de espécies, uma vez que estas poderiam migrar de um para o outro com
facilidade e ilhas maiores teriam mais espaço para abrigar muitos indivíduos.
Em ilhas pequenas e distantes
do continente, as taxas de migração seriam menores e as de extinção maiores, o
que ocasionaria uma diversidade menor. Posteriormente, a teoria foi testada e
confirmada para diversos grupos.
“Mas para quem não tolera sal,
qualquer ilha marinha é distante. Por isso, tínhamos de testar essa teoria com
os anfíbios anuros”, lembra Rebouças.
Outra teoria importante sobre a
biodiversidade em ilhas contempla um fator ignorado por MacArthur e Wilson: a
energia disponível para as espécies viverem e evoluírem numa ilha,
independentemente do tamanho dela.
Proposta por David Wright em
1983, a teoria espécies-energia sugere que a disponibilidade de
energia, na forma de produtividade de matéria orgânica por área, determina por
si só a diversidade em ilhas.
Ilhas vistas de Ubatuba, litoral de
São Paulo: ambientes insulares influenciam biodiversidade de anfíbios de forma
diferente quando comparados a outros animais e a plantas (foto: Raoni
Rebouças/IB-Unicamp)
Dessa forma, ilhas com a mesma
área podem ter diferentes riquezas de espécies se têm produtividade diferente.
Quanto maior a energia produzida, maior a capacidade de abrigar um número
grande de indivíduos.
“Um bom exemplo é a maior ilha
do mundo, a Groenlândia. Coberta de gelo boa parte do ano, não tem nenhuma
espécie de sapo. Enquanto a segunda maior, Bornéu, tem mais de 400”, ilustra
Rebouças.
A partir do cruzamento dos
dados disponíveis, os pesquisadores concluem que nenhuma das duas teorias,
sozinha, explica a diversidade de anfíbios anuros em ilhas. Ambas seriam
complementares, cada uma dando uma resposta melhor a depender do tipo de
biodiversidade medida (de espécies, funcional ou filogenética) e do regime
climático (tropical ou temperado).
Ao considerar as riquezas de espécies
e de linhagens, por exemplo, os dados globais e de áreas tropicais apontam uma
forte correlação com o tamanho da ilha. Mas, em regiões de clima temperado,
essa mesma relação é muito pequena, haja vista o exemplo da Groenlândia.
Quando se trata de diversidade
funcional, aquela de nichos ecológicos como terrestres, aquáticos, arborícolas
e fossoriais, estes estão bastante interligados ao clima quando se consideram o
mundo todo e as regiões temperadas, mas a relação é fraca em regiões tropicais,
que não dependem tanto do clima para ter diferentes nichos.
Futuros estudos devem agora
testar os fatores históricos que influenciam a diversidade em ilhas. Além
disso, pode ser feita uma escala mais fina de análise, incluindo ilhas fluviais
e considerando a extensão dos corpos d’água presentes nas ilhas, por exemplo.
O trabalho teve ainda apoio da
FAPESP por meio de três projetos (16/25358-3, 19/18335-5 e 20/12658-4), dois deles no âmbito do Programa BIOTA.
O artigo Environmental
and geomorphological drivers of frog diversity on islands worldwide pode
ser lido em: nsojournals.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/ecog.07818.
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/estudo-elucida-condicoes-para-a-riqueza-de-especies-de-anfibios-em-ilhas-marinhas/57463

Nenhum comentário:
Postar um comentário