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terça-feira, 31 de março de 2026

Estudo revela: entender o que o médico diz pode melhorar o tratamento do hipotireoidismo

Pesquisa identificou associação entre baixo letramento em saúde e pior controle da doença

 

Um estudo orientado pela Dra. Carolina Janovsky, endocrinologista e metabologista da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional São Paulo, reforça um ponto muitas vezes negligenciado na prática clínica: a forma como o médico se comunica com o paciente pode influenciar diretamente os resultados do tratamento.

 

A pesquisa (que você pode ler aqui) identificou que pacientes com menor letramento em saúde — ou seja, com mais dificuldade para compreender orientações médicas e informações sobre a própria doença — apresentaram pior controle bioquímico do hipotireoidismo primário, mesmo em uso contínuo da medicação.

 

Segundo a especialista, a pesquisa nasceu de uma dúvida prática observada no ambulatório: por que alguns pacientes continuam com controle inadequado do hipotireoidismo mesmo usando levotiroxina?

 

“O tratamento do hipotireoidismo parece simples, mas exige uma rotina relativamente complexa. O paciente precisa tomar a medicação em jejum, no horário correto, prestar atenção às interações medicamentosas e fazer acompanhamento laboratorial, especialmente no início. A partir disso, levantamos a hipótese de que o letramento em saúde poderia estar interferindo nesse controle”, explica a médica.

 

O estudo avaliou 274 adultos, entre 18 e 65 anos, com diagnóstico de hipotireoidismo primário, em uso contínuo de levotiroxina e com exames recentes de TSH e T4 livre disponíveis em prontuário. Para medir o letramento em saúde, os pesquisadores utilizaram um questionário validado em português do Brasil, aplicado presencialmente por equipe treinada.

 

Os resultados mostraram uma associação consistente entre menor letramento em saúde e pior controle do TSH, principal parâmetro utilizado no acompanhamento do hipotireoidismo. “Observamos que, quanto menor o letramento, maior era o nível de TSH fora da faixa esperada. Esses pacientes também precisavam de doses maiores de levotiroxina por quilo, sugerindo menor eficiência terapêutica”, afirma Dra. Carolina.

 

De acordo com a pesquisadora, o achado chama atenção porque a associação se manteve mesmo após ajustes para fatores como idade, sexo, duração da doença, comorbidades e escolaridade. “Letramento em saúde e escolaridade não são a mesma coisa. Uma pessoa pode ter mais anos de estudo e, ainda assim, não compreender adequadamente as orientações médicas. São coisas diferentes, e isso ficou muito evidente no estudo”, destaca.

 

Para a especialista, o cenário é especialmente relevante na realidade dos ambulatórios públicos, onde o tempo de consulta costuma ser curto e a comunicação, muitas vezes, não se adapta à realidade do paciente. “Às vezes, o médico fala em uma linguagem que parece muito clara para ele, mas que o paciente não entende. E o próprio profissional nem sempre percebe essa falha de comunicação”, diz.

 

Com base nesses resultados, a equipe já aplica metodologia semelhante em um novo estudo com pacientes com obesidade. A expectativa é avaliar se o impacto do letramento em saúde pode ser ainda mais evidente em uma condição multifatorial, cujo tratamento depende de mudanças comportamentais, compreensão de conceitos nutricionais e adesão prolongada ao acompanhamento.

 

Entre as medidas práticas que podem derivar desses estudos estão o uso de linguagem mais simples na consulta, a adoção da técnica conhecida como teach-back — em que o paciente repete com suas palavras o que entendeu —, além da criação de materiais visuais e educativos que facilitem a compreensão sobre medicamentos, alimentação, atividade física e rotina de cuidados.

 

“A principal ação prática é incorporar o letramento em saúde na rotina assistencial, principalmente em serviços públicos ou em atendimentos muito rápidos. Às vezes, o problema não é falta de tratamento, mas a forma como a informação chega ao paciente”, resume Dra. Carolina.

 

A endocrinologista ressalta que, por se tratar de um estudo transversal, não é possível afirmar relação de causa e efeito. Ainda assim, os dados apontam um sinal importante para a prática clínica. “A gente ainda não pode dizer que o baixo letramento causa diretamente o descontrole do hipotireoidismo, mas já existe uma associação que merece atenção. E o mais importante é que essa é uma variável sobre a qual é possível agir de maneira simples e concreta”, conclui.

 

SBEM-SP - Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia do Estado de São Paulo
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