Pesquisa identificou associação entre baixo letramento em saúde e pior controle da doença
Um estudo
orientado pela Dra. Carolina Janovsky, endocrinologista
e metabologista da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e
Metabologia Regional São Paulo,
reforça um ponto muitas vezes negligenciado na prática clínica: a forma como o
médico se comunica com o paciente pode influenciar diretamente os resultados do
tratamento.
A pesquisa (que
você pode ler aqui)
identificou que pacientes com menor letramento em saúde — ou seja, com mais
dificuldade para compreender orientações médicas e informações sobre a própria
doença — apresentaram pior controle bioquímico do hipotireoidismo primário,
mesmo em uso contínuo da medicação.
Segundo a especialista,
a pesquisa nasceu de uma dúvida prática observada no ambulatório: por que
alguns pacientes continuam com controle inadequado do hipotireoidismo mesmo
usando levotiroxina?
“O tratamento do
hipotireoidismo parece simples, mas exige uma rotina relativamente complexa. O
paciente precisa tomar a medicação em jejum, no horário correto, prestar
atenção às interações medicamentosas e fazer acompanhamento laboratorial,
especialmente no início. A partir disso, levantamos a hipótese de que o
letramento em saúde poderia estar interferindo nesse controle”, explica a
médica.
O estudo avaliou
274 adultos, entre 18 e 65 anos, com diagnóstico de hipotireoidismo primário,
em uso contínuo de levotiroxina e com exames recentes de TSH e T4 livre
disponíveis em prontuário. Para medir o letramento em saúde, os pesquisadores
utilizaram um questionário validado em português do Brasil, aplicado
presencialmente por equipe treinada.
Os resultados
mostraram uma associação consistente entre menor letramento em saúde e pior
controle do TSH, principal parâmetro utilizado no acompanhamento do
hipotireoidismo. “Observamos que, quanto menor o letramento, maior era o nível
de TSH fora da faixa esperada. Esses pacientes também precisavam de doses
maiores de levotiroxina por quilo, sugerindo menor eficiência terapêutica”,
afirma Dra. Carolina.
De acordo com a
pesquisadora, o achado chama atenção porque a associação se manteve mesmo após
ajustes para fatores como idade, sexo, duração da doença, comorbidades e
escolaridade. “Letramento em saúde e escolaridade não são a mesma coisa. Uma
pessoa pode ter mais anos de estudo e, ainda assim, não compreender
adequadamente as orientações médicas. São coisas diferentes, e isso ficou muito
evidente no estudo”, destaca.
Para a
especialista, o cenário é especialmente relevante na realidade dos ambulatórios
públicos, onde o tempo de consulta costuma ser curto e a comunicação, muitas
vezes, não se adapta à realidade do paciente. “Às vezes, o médico fala em uma
linguagem que parece muito clara para ele, mas que o paciente não entende. E o
próprio profissional nem sempre percebe essa falha de comunicação”, diz.
Com base nesses
resultados, a equipe já aplica metodologia semelhante em um novo estudo com
pacientes com obesidade. A expectativa é avaliar se o impacto do letramento em
saúde pode ser ainda mais evidente em uma condição multifatorial, cujo
tratamento depende de mudanças comportamentais, compreensão de conceitos
nutricionais e adesão prolongada ao acompanhamento.
Entre as medidas
práticas que podem derivar desses estudos estão o uso de linguagem mais simples
na consulta, a adoção da técnica conhecida como teach-back —
em que o paciente repete com suas palavras o que entendeu —, além da criação de
materiais visuais e educativos que facilitem a compreensão sobre medicamentos,
alimentação, atividade física e rotina de cuidados.
“A principal ação
prática é incorporar o letramento em saúde na rotina assistencial,
principalmente em serviços públicos ou em atendimentos muito rápidos. Às vezes,
o problema não é falta de tratamento, mas a forma como a informação chega ao
paciente”, resume Dra. Carolina.
A endocrinologista
ressalta que, por se tratar de um estudo transversal, não é possível afirmar
relação de causa e efeito. Ainda assim, os dados apontam um sinal importante
para a prática clínica. “A gente ainda não pode dizer que o baixo letramento
causa diretamente o descontrole do hipotireoidismo, mas já existe uma
associação que merece atenção. E o mais importante é que essa é uma variável
sobre a qual é possível agir de maneira simples e concreta”, conclui.
SBEM-SP - Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia do Estado de São Paulo
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