Novo levantamento com mais de 1.000 mulheres reforça desafios de empregabilidade e acirra debate sobre desigualdade de gênero nas carreiras
O mês das mulheres
chega com o holofote em um dado assustador: 54% das mulheres brasileiras não
estão trabalhando atualmente. O desemprego é ainda mais intenso entre as
profissionais com 45 anos ou mais, faixa que representa 37% da amostra e na
qual 60% estão fora do mercado, conforme a Pesquisa Panorama da Mulher no
Trabalho 2026, realizada pelo Infojobs com 1.022 respondentes.
Para muitas mulheres, esses números refletem situações vividas no dia a dia da carreira. Seja na busca por uma oportunidade, na tentativa de crescer dentro da empresa ou no desafio de equilibrar diferentes fases da vida profissional, a jornada no mercado de trabalho ainda apresenta obstáculos que nem sempre são visíveis à primeira vista.
A pesquisa também
evidencia que a representação feminina em cargos de liderança continua
restrita: apenas 3% das respondentes ocupam posições de diretoria ou liderança
sênior, e 5% atuam em cargos de coordenação ou gestão. A maioria está no início
da carreira (21%) ou em funções de especialista/analista (17%).
Segundo Ana Paula
Prado, CEO do Redarbor Brasil, detentora do Infojobs, os dados mostram que o
acesso a posições estratégicas ainda enfrentam obstáculos. “Os dados mostram
que ampliar a presença feminina, inclusive na liderança, não depende apenas de
abrir vagas. É necessário criar condições estruturais para que as mulheres
avancem, permaneçam e se desenvolvam nessas posições ao longo da carreira”,
afirma Prado.
A pesquisa ainda
aponta que apenas 45% das entrevistadas percebem igualdade de gênero em cargos
de liderança dentro de suas empresas, enquanto 27% afirmam que a desigualdade é
explícita e 19% identificam diferenças mais sutis. “Muitas organizações
acreditam promover igualdade, mas a prática diária revela barreiras invisíveis
que limitam a ascensão feminina”, completa a executiva.
O estudo evidencia
um teto de crescimento, especialmente na transição do nível técnico para
gestão, sentido por 49% das mulheres, e na chegada à diretoria/C-Level,
relatado por 20%. Prado alerta: “Não é coincidência que essas etapas coincidam
com maior visibilidade e responsabilidade. As mulheres sentem que errar tem um
custo maior, enquanto o ambiente ainda não oferece a mesma margem de
aprendizado que existe para os homens.”
A análise também
destaca que grupos minorizados — mulheres pretas, LGBTQIAPN+ e pessoas com
deficiência — enfrentam oportunidades ainda mais limitadas, com 62% relatando
que a ascensão não é igualitária. “A inclusão precisa ser interseccional.
Políticas que consideram apenas gênero não resolvem barreiras estruturais que
afetam mulheres maduras ou de grupos minoritários”, observa Prado.
Além do desemprego
e da desigualdade estrutural, a pesquisa evidencia autocensura e insegurança
psicológica. Apenas 33% das mulheres sentem-se à vontade para se posicionar,
errar ou negociar novos desafios, enquanto 45% dizem precisar de cautela e 22%
sentem que o ambiente não favorece discordâncias ou erros. “O erro faz parte do
desenvolvimento profissional, mas para muitas mulheres ele ainda carrega um
peso maior muitas vezes relacionado ao risco reputacional. Isso impacta
diretamente a visibilidade e o acesso a projetos estratégicos”, afirma Prado.
Por fim, Prado
reforça que a solução não é apenas criar vagas ou programas de capacitação: “É
preciso repensar o ambiente corporativo, garantindo que erros sejam vistos como
aprendizado para todos, e que o talento feminino possa se converter em
liderança real, em qualquer idade ou contexto.”

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