Com taxa de mortalidade que pode chegar a 82%, vírus provoca encefalite grave e ainda não tem tratamento específico; transmissão entre humanos é considerada baixa
O
vírus Nipah, uma das infecções emergentes mais letais já identificadas, segue
no radar de autoridades sanitárias e especialistas em saúde pública. Capaz de
provocar encefalite grave e levar rapidamente à morte, o vírus chama atenção
pelo alto potencial de letalidade, embora apresente, até o momento, baixo risco
de disseminação em larga escala.
Segundo
o infectologista Pedro Martins, professor da pós-graduação em infectologia da
Afya Educação Médica, a infecção costuma se manifestar entre sete e 14 dias
após o contato com a fonte de contaminação. Os primeiros sintomas incluem
febre, dor de cabeça, tontura e vômitos, mas o quadro pode evoluir rapidamente
para comprometimento neurológico. “O vírus tem predileção pelo sistema nervoso
central e pode causar encefalite, com redução do nível de consciência,
sonolência intensa e até coma”, explica o especialista.
Dependendo
da área do cérebro afetada, o paciente pode apresentar espasmos musculares,
perda de coordenação motora, alterações de reflexos e disfunções na regulação
da pressão arterial e dos batimentos cardíacos. A gravidade do quadro se reflete
nos números: em um surto registrado em 2014, 11 dos 17 casos evoluíram para
encefalite, e nove pacientes morreram.
Zoonose,
transmissão e fatores de risco
O
vírus Nipah é uma zoonose, ou seja, uma doença transmitida de animais para
humanos. Seus principais reservatórios naturais são morcegos frugívoros de
grande porte, comuns no Sudeste Asiático. A transmissão ocorre, principalmente,
pelo contato direto com animais infectados ou com suas secreções.
Um dos
vetores mais relevantes é o consumo de seiva de palmeiras, utilizada fresca ou
fermentada na produção do chamado vinho de palma. “Quando o morcego se alimenta
dos frutos ou entra em contato com a seiva coletada em tonéis, pode contaminar
o líquido com saliva ou urina”, explica Martins. Em algumas regiões, medidas
simples, como a instalação de barreiras físicas para impedir o acesso dos
morcegos às árvores, já mostraram impacto positivo na prevenção.
Em
surtos anteriores, porcos e cavalos também atuaram como hospedeiros intermediários,
com maior incidência de casos entre pecuaristas, trabalhadores de abatedouros e
profissionais que lidavam diretamente com esses animais.
Transmissão
entre humanos é rara, mas possível
Do
ponto de vista epidemiológico, o vírus Nipah apresenta um número básico de
reprodução (R0) estimado entre 0,3 e 1,0, bem inferior ao de doenças altamente
transmissíveis, como sarampo ou catapora. “Isso indica uma chance menor de
transmissão sustentada entre humanos”, afirma o infectologista.
Ainda
assim, há registros raros de eventos de superpropagação, em que um único
paciente infectou até 20 pessoas, geralmente em ambientes com aglomeração,
falhas de higiene ou ausência de equipamentos de proteção individual.
Profissionais de saúde também já foram contaminados em contextos de assistência
com recursos limitados.
Vacinas
e tratamentos: avanços ainda em fase experimental
Atualmente,
não há vacina aprovada nem tratamento específico para o vírus Nipah. O manejo
dos pacientes é baseado em suporte clínico intensivo. Entre os antivirais já
testados, a cloroquina não demonstrou eficácia, e os estudos com ribavirina
apresentaram resultados inconclusivos.
Pesquisas
recentes, no entanto, apontam caminhos promissores. Um estudo de Fase 1
publicado em 2025 avaliou uma vacina originalmente desenvolvida contra o vírus
Hendra, capaz de gerar proteção cruzada após duas doses. Outras abordagens
incluem vacinas de vírus vivo atenuado e de mRNA, que mostraram bons resultados
em modelos animais, mas ainda sem testes clínicos avançados em humanos.
No
campo terapêutico, o remdesivir apresentou eficácia em macacos, enquanto o
favipiravir protegeu hamsters em estudos pré-clínicos. Ambos já têm histórico
de uso em humanos para outras doenças, o que pode acelerar futuras pesquisas.
Um anticorpo monoclonal experimental também demonstrou capacidade de prevenir a
infecção em animais, mas ainda está em fases iniciais de avaliação em pessoas.
Risco
para o Brasil é considerado baixo
Questionado
sobre a possibilidade de circulação do vírus no Brasil, Martins afirma que o
risco é extremamente reduzido. “O principal reservatório natural do vírus não
existe no país, o que torna essa via de transmissão improvável”, diz.
O
especialista pondera, no entanto, que a globalização e o alto fluxo de viagens
internacionais exigem vigilância. “Um paciente pode viajar durante o período de
incubação, antes do surgimento dos sintomas. Por isso, protocolos de
monitoramento em aeroportos seguem sendo importantes”, ressalta. Apesar disso,
a baixa transmissibilidade entre humanos observada até hoje indica um baixo
potencial pandêmico.
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