16% da população terá mais de 60 anos em 2026 – como projetos públicos voltados ao envelhecimento são uma forma inteligente de investir e não representam aumento de gasto, mas sim economia no futuro
Em
2026, o Brasil deve ter cerca de 35 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, o
que representa cerca de 16 % da população total do país — percentual que vem
crescendo ao longo da última década. Esse aumento da expectativa de vida é uma
conquista da saúde pública, resultado de avanços médicos, vacinação, controle
de doenças crônicas e melhores condições sanitárias. Mas esse avanço
demográfico traz um novo desafio: não basta viver mais, é preciso viver com
qualidade de vida — especialmente do ponto de vista cerebral.
A
discussão ganhou força nos últimos dias após o governador de São Paulo,
Tarcísio de Freitas, vetar um projeto que criava um programa estadual de apoio
a pessoas com Alzheimer e seus familiares. O episódio reacendeu um debate
essencial: como o Brasil está se preparando para lidar com o envelhecimento da
população e o aumento das doenças neurodegenerativas?
Para
o neurocirurgião, neurocientista e professor livre-docente da USP, Dr. Fernando
Gomes, essa não é apenas uma pauta política — é um tema urgente de saúde
pública.
O
envelhecimento cerebral é um processo natural. Com o passar dos anos, podem
ocorrer mudanças como redução de volume em determinadas regiões, lentificação
no processamento de informações e maior vulnerabilidade a doenças como
Alzheimer e outras demências.
Mas
o cérebro possui uma característica fundamental: plasticidade — a capacidade de
se adaptar, criar novas conexões e compensar perdas.
“Envelhecer
não significa necessariamente perder autonomia mental. O cérebro mantém
capacidade de adaptação ao longo da vida, e políticas de prevenção podem
preservar cognição e independência por muito mais tempo”, explica o Dr.
Fernando Gomes.
Por que é urgente cuidar do envelhecimento do Brasil?
O
Brasil caminha para ter uma das maiores populações idosas do mundo nas próximas
décadas. Com isso, cresce também o número de pessoas que viverão com algum grau
de comprometimento cognitivo.
O
debate sobre programas de apoio a pacientes com Alzheimer evidencia um ponto
central: o envelhecimento saudável não acontece apenas dentro do consultório —
ele depende de políticas públicas estruturadas.
Para
Dr. Fernando, entre as medidas consideradas fundamentais estão o diagnóstico
precoce de declínio cognitivo, o acompanhamento multidisciplinar, o apoio
psicológico e social a familiares e cuidadores, programas de estimulação
cognitiva e atividade física. “É essa união de forças que vai ajudar a
população a envelhecer melhor, cuidar de todos os pilares que envolvem o
envelhecimento não é custo em saúde pública, pelo contrário: é economia de gastos
no final da vida dos brasileiros”, afirma.
Para
o médico especialista em envelhecimento, fatores associados a neuroplasticidade
– capacidade que o cérebro tem se moldar ao longo da vida – é uma proteção ao
cérebro que incluem uma vida social ativa, o estímulo mental constante e a
prática de atividade física regular. “Esses dados mostram que o cérebro
responde ao modo como vivemos. A genética tem papel importante, mas o ambiente
e o estilo de vida influenciam diretamente a saúde cognitiva”, explica Dr.
Fernando.
Longevidade exige planejamento público
O
veto ao programa de apoio a pacientes com Alzheimer trouxe à tona uma questão
maior: o país está estruturando sua rede de saúde para atender uma população
cada vez mais longeva?
Para
o neurocirurgião, investir em prevenção e suporte ao envelhecimento saudável é
também uma estratégia econômica: “Cuidar da saúde cerebral ao longo da vida
reduz internações, dependência funcional e custos com doenças crônicas no
futuro. Envelhecimento saudável é uma pauta social, econômica e humana.”
Se
no passado o grande desafio era reduzir mortalidade infantil e doenças
infecciosas, agora o foco se desloca para qualidade de vida na longevidade. O
cérebro, responsável por memória, autonomia e identidade, está no centro dessa
transição.
O Brasil está vivendo mais. A próxima etapa é garantir que essa longevidade venha acompanhada de saúde cerebral, autonomia e dignidade — e isso depende de ciência, prevenção e políticas públicas bem estruturadas.
Dr. Fernando Gomes - Professor Livre Docente de Neurocirurgia do Hospital das Clínicas de SP com mais de 2 milhões de seguidores. Há 12 anos atua como comunicador, já tendo passado pela TV Globo por seis anos como consultor fixo do programa Encontro com Fátima Bernardes (2013 a 2019), por um ano (2020) na TV Band no programa Aqui na Band como apresentador do quadro de saúde “E Agora Doutor?” e dois anos (2020 a 2022) como Corresponde Médico da TV CNN Brasil. Atualmente comanda seu programa Olho Clínico com Dr. Fernando Gomes semanalmente no Youtube desde 2020. É também autor de 9 livros de neurocirurgia e comportamento humano. Professor Livre Docente de Neurocirurgia, com residência médica em Neurologia e Neurocirurgia no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, é neurocirurgião em hospitais renomados e também coordena a Unidade de Hidrodinâmica Cerebral relacionada ao diagnóstico, tratamento e pesquisa de doenças como Hidrocefalia de Pressão Normal (HPN) e Hipertensão Intracraniana Idiopática (HII ou pseudotumor cerebral) no Hospital das Clínicas.
drfernandoneuro
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