No Dia Mundial Contra o Câncer (4 de fevereiro) e no Dia Nacional da Mamografia (5 de fevereiro), especialistas de saúde reforçam a importância dos exames de rastreamento, mas também chamam atenção para situações nas quais a investigação diagnóstica precisa ir além da mamografia, especialmente diante de tumores raros, como o sarcoma mamário.
A
mamografia segue sendo a principal ferramenta para o rastreamento populacional
do câncer de mama. Seu foco está na identificação de alterações nos ductos e
lóbulos mamários, como microcalcificações e lesões típicas dos tumores mais
prevalentes. No entanto, nem todos os tumores que surgem na região têm essa
mesma origem.
“A
mamografia continua sendo indispensável, mas foi desenhada para identificar
tumores epiteliais da mama. Os sarcomas têm outra origem biológica, mas na
maioria das vezes também podem ser detectáveis por esse exame”, explica
Cristovam Scapulatempo, médico patologista e diretor médico da Dasa Genômica.
Os
sarcomas fazem parte de um grupo distinto de tumores sólidos, que se
desenvolvem nos tecidos conjuntivos — como músculos, gordura, vasos sanguíneos
e tecido fibroso. Mesmo a mamografia tendo a finalidade de detectar
lesões irregulares e com microcalcificações agrupadas, típicas dos
carcinomas, também pode detectar sarcomas, que são lesões ovaladas geralmente
de crescimento rápido, cujo diagnóstico sempre deve ser feito através de
biópsia com posterior testes moleculares para melhor subtipar o tumor.
Essa
diferença ajuda a entender por que, em alguns casos, os sintomas aparecem antes
de qualquer achado nos exames de rotina. Dor persistente, crescimento rápido de
nódulos e alterações clínicas sem causa aparente costumam ser os principais
alertas.
Quando a dor antecede o diagnóstico
Foi
o que aconteceu com Regina Bertin, mãe da jornalista Fernanda Quinta. Mesmo
realizando mamografias anuais e mantendo acompanhamento regular por histórico
de nódulos mamários, ela passou a sentir dores intensas na lombar e na lateral
da costela esquerda.
Inicialmente,
os sintomas foram atribuídos a osteoporose e ao desgaste natural da idade. A
dor, no entanto, persistiu e se intensificou. Após uma fratura na costela
durante uma atividade física, uma ressonância magnética revelou múltiplas
lesões ósseas secundárias, associadas a um quadro de hipercalcemia maligna —
condição provocada pela destruição acelerada dos ossos.
A
investigação inicial levantou a hipótese de mieloma múltiplo, um câncer
hematológico, mas os exames permaneceram inconclusivos. Somente nos últimos
dias de vida foi identificado um nódulo de crescimento rápido na mama, que
havia surgido em cerca de um mês. O diagnóstico final foi de sarcoma mamário.
Segundo
Scapulatempo, compreender a diferença entre os tipos de câncer é essencial
nesse processo. “Os tumores sólidos se originam em órgãos e tecidos, como mama,
ossos e músculos. Já os cânceres hematológicos têm origem no sangue ou na
medula óssea. Essa distinção muda completamente a forma de investigação”,
afirma.
O
caso evidencia que nem sempre o câncer se manifesta de forma silenciosa ou
previsível. Em tumores raros, o crescimento pode ser acelerado e os sinais
clínicos podem surgir fora do padrão mais conhecido da doença.
Exames complementares ampliam a investigação
Diante
de quadros atípicos, a investigação costuma envolver uma combinação de exames
de imagem, análises patológicas e testes genéticos. A ultrassonografia é
frequentemente utilizada como complemento à mamografia, permitindo avaliar
massas sólidas, características do tecido e padrão de vascularização. Na Dasa,
o exame é realizado em unidades como Delboni e Salomão Zoppi, com apoio de
inteligência artificial para maior precisão na interpretação dos laudos.
A ressonância
magnética tem papel central na avaliação de tumores de tecidos moles.
Com equipamentos de alta resolução e uso de contraste, o exame permite
detalhamento anatômico mais profundo, sendo decisivo quando há dor persistente
ou suspeita clínica sem correlação nos exames iniciais.
A tomografia
computadorizada é indicada principalmente para o estadiamento tumoral,
auxiliando no mapeamento da extensão da doença. Modelos avançados, como o
Aquilion One Vision, permitem avaliação detalhada de diferentes regiões do
corpo.
A
confirmação diagnóstica depende da biópsia, com análise
anatomopatológica especializada. Esse processo pode incluir telepatologia e
digitalização de lâminas, facilitando a avaliação por equipes experientes em
tumores raros. A imuno-histoquímica complementa a análise ao identificar
marcadores celulares específicos, sendo fundamental para diferenciar tipos
tumorais semelhantes.
Em
situações mais complexas, exames genéticos também podem ser indicados. A
análise do perfil de metilação do DNA avalia padrões químicos que
regulam a expressão dos genes e funciona como uma assinatura molecular do
tumor.
“Em
casos raros ou inconclusivos, a metilação ajuda a identificar a origem da
doença e a reduzir o risco de erros diagnósticos, orientando decisões clínicas
mais precisas”, explica Scapulatempo.
Para
o especialista, o objetivo não é substituir a mamografia, mas ampliar o
entendimento sobre seus limites. “O rastreamento é fundamental, mas ele não
encerra a investigação. Quando os sintomas persistem, é preciso integrar
clínica, imagem, patologia e genética”, conclui.

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