Um homem, alegando traição, matou os dois próprios filhos e depois tirou a própria vida. Deixou uma carta. Pediu perdão. Tentou explicar. Tentou justificar o injustificável.
Eu
li sobre o caso. Li trechos da carta. Li comentários que se espalharam nas
redes como se fossem sentenças. E, como mulher, como mãe de dois filhos e como
fundadora do Movimento Mulheres Cuidando de Mulheres, eu não consigo, e não
vou, ficar em silêncio.
Não
foi uma fatalidade.
Não foi uma tragédia inexplicável.
Não foi excesso de amor.
Foi
um crime brutal. Foi uma decisão. Foi um ato de violência com intenção.
O
que mais me atravessa, além da dor do fato em si, é o tribunal digital que se
instala logo depois. Sempre há uma plateia pronta para julgar a mulher. Sempre
há alguém perguntando por que ela não saiu antes. Como se a responsabilidade
pela violência masculina fosse, de alguma forma, compartilhada.
Enquanto
essa mãe segurava a alça de dois caixões, dois seres que ela gerou, amou profundamente
e colocou no mundo, havia gente discutindo sua vida íntima. Enquanto ela
enterrava os próprios filhos, havia quem tentasse encontrar nela a origem do
crime.
Essa
lógica é cruel.
Quando
um homem não aceita o fim de um relacionamento e transforma frustração em
violência, eu não vejo amor. Eu vejo necessidade de domínio. Vejo incapacidade
de lidar com a autonomia feminina. Vejo a recusa em aceitar que uma mulher pode
escolher ir embora.
O
feminicídio não começa no último ato. Ele começa no controle. Começa quando a
autonomia da mulher passa a ser vista como ameaça.
A
violência contra a mulher não termina no ato físico. Ela se manifesta em
manipulações emocionais, em chantagens, em tentativas de desmoralização pública
e, nos cenários mais perversos, no uso dos próprios filhos como instrumento
para atingir e punir.
Quando
um homem utiliza uma criança como arma emocional, quando a coloca no centro de
um conflito para ferir a mãe, ele ultrapassa qualquer limite moral. Crianças
não são extensão do ego masculino. Não são propriedade. Não são escudo. Não são
instrumento de vingança.
Neste
caso, o que vemos é ainda mais brutal: diante da frustração e da perda de
controle, ele utilizou aquilo que sabia ser mais valioso para ela, os filhos,
como forma de punição definitiva. Não é sobre desespero. É sobre poder. É sobre
causar uma dor que ele sabia que seria eterna.
Quando
alguém transforma dor em violência, isso não é ausência de razão. É escolha. E
quando envolve outras vidas, não é descontrole… é responsabilidade.
A
carta deixada por ele não pode ser lida como um gesto romântico ou desesperado.
É uma tentativa de controlar a narrativa. É uma estratégia para deslocar a
culpa do próprio ato. É a tentativa de transformar sua violência em
consequência da ação dela.
Mas
não há explicação legítima.
E eu
faço questão de afirmar, com toda a clareza que esse momento exige:
"A
mãe não é causa, gatilho ou corresponsável.
Ela não provocou o crime.
Ela perdeu seus filhos. Ela é vítima.
Nomear essa crueldade é um dever ético.
Silenciá-la é conivência.
O que ocorreu foi violência extrema com finalidade punitiva, expressão de
narcisismo patológico e profundo desequilíbrio emocional.
A responsabilidade é única, exclusiva e intransferível."
Eu
sou mãe de dois filhos. Dois tesouros que sustentam meu mundo. E é impossível
não fazer o paralelo. É impossível não imaginar, ainda que por um segundo, o
vazio absoluto que seria viver sem eles. Nenhuma mãe deveria conhecer essa dor.
Nenhuma.
Essa
mulher não apertou o gatilho.
Ela não escreveu a carta.
Ela não tirou a vida dos filhos.
O
que ela fez foi sobreviver ao inimaginável. O que ela fez foi sepultar dois
pedaços do próprio coração.
E,
ainda assim, há quem aponte o dedo.
Se
toda mulher traída, espancada, humilhada resolvesse matar os filhos como
resposta à dor, não ia ficar quase ninguém na Terra. A dor não é privilégio
masculino. O que diferencia não é intensidade de sofrimento, é escolha diante
dele.
Sofrimento
não é autorização para destruir.
Que
a gente nunca confunda sofrimento com permissão para ferir.
Quando
a sociedade minimiza sinais de controle, quando naturaliza o ciúme excessivo,
quando relativiza ameaças sob o argumento de “ele ama demais”, ela participa da
construção de tragédias anunciadas. Cada vez que alguém diz que a mulher deveria
ter saído antes, mas não pergunta por que o agressor não respeitou limites,
reforça-se o ciclo.
Nenhuma
mulher deve ser punida por existir. Nenhuma mulher deve pagar com a própria
vida, ou com a vida dos filhos, por exercer sua autonomia. E nenhuma criança
deve ser arrastada para guerras que não são suas.
Eu
termino reafirmando, porque isso precisa ficar registrado sem ambiguidade:
Usar
os filhos como último ato de controle sobre uma mulher não é prova de amor, é
prova de posse. E crueldade. É machismo. É a face mais brutal do feminicídio.
Não culpem a mulher.
A responsabilidade é de quem escolheu ferir, dominar e destruir.
Isso não era amor. Era controle. Era violência!
A
essa mãe, que agora carrega uma ausência irreparável, eu ofereço minha solidariedade
mais profunda. Como ativista. Como mulher. Como mãe.
O
Movimento Mulheres Cuidando de Mulheres está ao lado dela. Para que ela não
carregue, além do luto, a culpa que não lhe pertence. Para que o julgamento não
se some à dor.
Ela
já carrega o peso mais devastador que alguém pode suportar.
Ela
não precisa carregar também a crueldade da sociedade.
Danda Coelho - bacharel em Direito, professora, doutora, jornalista, palestrante, dedicada a estudar vínculos, emoções, estruturas sociais que atravessam os relacionamentos e caminhos de superação, inclusive após rupturas afetivas. Seu projeto @mulherescuidandodemulheres surgiu da necessidade de criar um espaço seguro onde mulheres pudessem dividir suas dores sem julgamento e, a partir disso, receber orientação baseada em pesquisa, prática e empatia. Em casos de violência, mulheres podem buscar ajuda pelo Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher), pelo 190 em situações de emergência, pelas Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) e pela rede de proteção social e de saúde.
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