Se você já comprou, usou ou apoiou o mercado de
produtos piratas, não vai se incomodar se nós te chamarmos de pirata, vai?
Provavelmente não, mas deveria... Afinal, quando te chamamos de pirata, estamos
comparando você a um membro do crime organizado. Aquele mesmo que se beneficia
com todos os esquemas ilegais que a gente condena e acaba dizendo: “eu pago
meus impostos para conviver com esse nível de corrupção do país?!”.
Sim, infelizmente quando você é conivente com a
indústria de produtos ilegais você deveria conviver com toda a violência,
insegurança de forma natural e sem reclamar, nem quando você ficar sabendo que
pessoas foram prejudicadas por tomarem remédios falsificados, nem quando souber
que uma senhora teve a saúde prejudicada pois usou uma prótese pirata, ou que
um avião caiu porque a peça pirata usada nas turbinas falhou.
Todas essas tragédias acontecem porque você acha
que não tem problema comprar um DVD pirata, um filme, uma camisa de futebol ou
um tênis falsificado. Aquele que compra produtos ilegais é responsável por
capitalizar e fortalecer a indústria do crime.
E quando você acha que compra pirata para “ajudar o
tiozinho do camelô”, é como se você tivesse, a longo prazo, jogando esse
trabalhador num buraco social ainda mais profundo. Daí não adianta falar em
políticas sociais, direitos do trabalhador, igualdade, etc...
Porque quando você é conivente com a indústria
pirata você também apoia práticas trabalhistas ilícitas, irregulares, ilegais.
Automaticamente você coloca uma porção de trabalhadores em condições péssimas
de trabalho, porque você apoia atos criminosos...
Para se safar de um autoexame de consciência, você
pode até dizer que o crime de pirataria não causa tanto impacto quanto o
narcotráfico. Errado! Justamente porque muitas pessoas acreditam que a
pirataria é um crime sem maiores efeitos, é que o estrago é grande. Segundo a
Interpol, um estudo realizado mostrou que o mercado pirata movimenta um volume
maior de dinheiro sujo se comparado ao narcotráfico. Já parou para pensar
nisso?
Para deixar o cenário bem real, números recentes
mostram que a pirataria gera um rombo de mais de R$ 100 bilhões ao ano para os
cofres públicos. Por exemplo, com R$ 1,5 bilhão daria para construir um
hospital capaz de atender 450 pessoas por dia, 10 mil consultas especializadas
e 1.300 cirurgias, por mês. Ao todo, seriam mais 2.700 atendimentos diários no
Estado, 60 mil novas consultas e até 7.800 procedimentos cirúrgicos. Já parou
para pensar nisso?
Então veja que o impacto social negativo da
pirataria é imenso. Pense você mesmo em tudo o que a sociedade (quando dizemos
sociedade, pensamos em você e na sua família) poderia ganhar com esse rio de
dinheiro que vai para o crime, e que cria condições de emprego somente fora do
nosso país.
Atualmente formou-se na América Latina uma aliança
contra o mercado ilícito que se fortalece nos países membros. É uma iniciativa
relevante e que merece atenção. E o País espera alcançar ótimos resultados a
partir das discussões ali estabelecidas.
Mas as pessoas admitem que consomem pirataria sem o
menor constrangimento e esse é o maior vilão do combate ao comercio ilegal: a
banalização da prática criminosa.
É preciso ampliar o debate. Nada será tão eficiente
em termos de combate à pirataria do que fortalecer a prática da legalidade,
temos certeza. Deixar clara a noção de que consumir produtos ilegais e tão
absurdo quanto cometer um furto. Conscientizar o cidadão de que pirataria é
crime e que ao praticá-lo ele se iguala aos piores entre nós. Abordar o valor
da legalidade, como pauta positiva, parece um acertado caminho, tanto do ponto
de vista individual quanto coletivo.
Para nós, essa nova percepção pode fazer a
diferença. Mudar uma cultura de banalização do crime não é tarefa fácil e
também não somos ingênuos de achar que será de uma hora para a outra. Mas o
impossível sempre existe até que alguém se disponha a realizar. Vamos nessa?
Vamos juntos transformar? Nós acreditamos, e o mundo precisa e agradece.
Marici Ferreira -
presidente da ABRAL (Associação Brasileira de Licenciamento) e
diretora-presidente da Editora EP Grupo, especializada no segmento infantil.
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