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sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Câncer de próstata: o que muda na avaliação e no tratamento dos homens 60+?

Rastreamento, sintomas e escolhas terapêuticas devem considerar condições de saúde, funcionalidade e expectativa de vida, destaca especialista da SBGG
 

Com o avanço da idade, alterações urinárias podem se tornar mais frequentes, mas nem sempre devem ser encaradas como parte natural do envelhecimento. Dificuldade para urinar, jato fraco, aumento da frequência e necessidade de levantar à noite para ir ao banheiro são alguns dos sinais que merecem investigação. Neste Novembro Azul, a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) destaca a importância de reconhecer essas mudanças e considerar as condições individuais de cada homem na avaliação da saúde da próstata. 

Segundo a geriatra Theodora Karnakis, presidente da Comissão de Oncogeriatria da SBGG, esses sintomas podem estar relacionados a diferentes condições, como hiperplasia prostática benigna, infecções, disfunções da bexiga e efeitos de medicamentos, além de eventualmente indicarem neoplasias urológicas. Retenção urinária, incontinência de início recente, sangue na urina e infecções recorrentes também precisam ser investigados. Dor óssea persistente, especialmente na coluna, pelve e quadris, perda de peso sem explicação e declínio funcional merecem atenção, sobretudo quando associados a outros sinais. 

A especialista observa que muitos homens consideram essas mudanças naturais da idade ou sentem constrangimento em relatá-las. Por isso, recomenda que os profissionais de saúde incluam a investigação dos sintomas urinários na avaliação habitual da pessoa idosa, sem esperar que o próprio paciente os mencione espontaneamente. 

A decisão sobre o rastreamento do câncer de próstata também não deve se basear exclusivamente na idade cronológica. É preciso considerar a expectativa de vida, o estado funcional, comorbidades, a presença de fragilidade e os fatores individuais de risco, como histórico familiar da doença, especialmente em parentes de primeiro grau, ancestralidade africana e variantes genéticas associadas a maior risco, como BRCA2. 

A geriatra pondera que o rastreamento nem sempre traz benefícios e pode levar a intervenções desnecessárias. “O PSA pode identificar tumores indolentes, que nunca causariam sintomas ou comprometeriam a sobrevida do indivíduo, levando a investigações e tratamentos potencialmente desnecessários, com riscos de incontinência urinária, disfunção sexual e prejuízo da qualidade de vida”, explica. 

No Brasil, não se recomenda o rastreamento populacional sistemático do câncer de próstata. A abordagem deve ser individualizada, com decisão compartilhada entre médico e paciente, após discussão dos potenciais benefícios e danos. Nos homens idosos, a expectativa de vida e a possibilidade real de se beneficiar de um diagnóstico precoce são particularmente importantes.
 

Avaliação geriátrica ajuda a orientar o cuidado 

Quando há diagnóstico de câncer, a Avaliação Geriátrica Ampla (AGA) é um dos pilares da Oncogeriatria e deve fazer parte do planejamento terapêutico. Ela permite identificar vulnerabilidades que podem passar despercebidas na avaliação oncológica convencional e influenciar a tolerância ao tratamento, o risco de toxicidades e os resultados clínicos. 

A avaliação considera aspectos como funcionalidade, mobilidade, risco de quedas, cognição, saúde emocional, estado nutricional, comorbidades, uso de múltiplos medicamentos, fragilidade e suporte social. Seus resultados devem orientar as decisões e as intervenções. Um paciente com sarcopenia, desnutrição ou limitações funcionais, por exemplo, pode se beneficiar de acompanhamento nutricional, exercícios resistidos e fisioterapia antes do início do tratamento. Já alguém com comprometimento cognitivo pode precisar de estratégias específicas de comunicação, participação do cuidador e maior monitoramento da adesão e dos efeitos adversos. 

A identificação dessas vulnerabilidades também pode levar à adaptação da intensidade terapêutica e à escolha de esquemas menos tóxicos. A geriatra ressalta: “O conceito central é que a AGA não deve ser utilizada para excluir pacientes do tratamento, mas para identificar vulnerabilidades modificáveis, orientar intervenções e tornar o tratamento mais seguro e individualizado”.
 

Tratamento deve preservar a funcionalidade e a autonomia 

A escolha entre estratégias como vigilância ativa, observação, cirurgia, radioterapia e terapia hormonal deve considerar o risco oncológico, a expectativa de vida, a reserva funcional, as comorbidades e as preferências do paciente. Os tratamentos apresentam impactos distintos e podem provocar efeitos como perda de massa muscular, osteoporose, fadiga, alterações metabólicas, quedas e declínio funcional, especialmente no caso da terapia de privação androgênica. 

Para Theodora, o sucesso do tratamento não deve ser avaliado exclusivamente pela resposta tumoral ou pelo aumento da sobrevida. É preciso compreender o que importa para cada homem: prolongar a vida, preservar a independência, continuar morando sozinho, manter a capacidade de caminhar ou evitar hospitalizações. A atuação interdisciplinar, envolvendo geriatria, oncologia, urologia, fisioterapia, terapia ocupacional, nutrição, enfermagem e psicologia, é essencial para alcançar esse objetivo. 

A família e os cuidadores também podem contribuir para identificar mudanças no comportamento, na funcionalidade, na alimentação e nos hábitos urinários, além de auxiliar no acompanhamento do tratamento. Essa participação, porém, deve respeitar a autonomia do paciente. A equipe de saúde também precisa identificar e acolher a sobrecarga física e emocional de quem cuida. 

Ampliar o acesso à Oncogeriatria exige investir na formação dos profissionais de saúde e incorporar a avaliação geriátrica aos protocolos dos serviços de oncologia. Embora nem todos os pacientes precisem passar inicialmente por uma avaliação com geriatra, é fundamental que suas principais vulnerabilidades sejam identificadas e que haja encaminhamento especializado sempre que necessário. A especialista também destaca a importância de fortalecer o cuidado interdisciplinar e de implementar políticas que assegurem acesso equitativo ao diagnóstico, ao tratamento e à reabilitação.“A Oncogeriatria não deve ser um privilégio de centros de excelência. Precisamos transformar seus princípios em práticas assistenciais acessíveis em diferentes níveis de atenção à saúde no Brasil”, afirma. 

Neste Novembro Azul, a SBGG reforça que homens da mesma idade podem apresentar condições funcionais, cognitivas e clínicas muito diferentes e, portanto, necessitar de estratégias de cuidado distintas. Como resume a especialista: “Minha principal mensagem é: não basta acrescentar anos à vida; precisamos preservar a vida que existe nesses anos. O cuidado oncológico do homem idoso deve ter como objetivos não apenas controlar o câncer e prolongar a sobrevida, mas também preservar sua funcionalidade, autonomia, dignidade e qualidade de vida.”
 

Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia – SBGG


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