Rastreamento, sintomas e escolhas terapêuticas
devem considerar condições de saúde, funcionalidade e expectativa de vida,
destaca especialista da SBGG
Com
o avanço da idade, alterações urinárias podem se tornar mais frequentes, mas
nem sempre devem ser encaradas como parte natural do envelhecimento.
Dificuldade para urinar, jato fraco, aumento da frequência e necessidade de
levantar à noite para ir ao banheiro são alguns dos sinais que merecem
investigação. Neste Novembro Azul, a Sociedade Brasileira de Geriatria e
Gerontologia (SBGG) destaca a importância de reconhecer essas mudanças e considerar
as condições individuais de cada homem na avaliação da saúde da próstata.
Segundo
a geriatra Theodora Karnakis, presidente da Comissão de Oncogeriatria da SBGG,
esses sintomas podem estar relacionados a diferentes condições, como
hiperplasia prostática benigna, infecções, disfunções da bexiga e efeitos de
medicamentos, além de eventualmente indicarem neoplasias urológicas. Retenção
urinária, incontinência de início recente, sangue na urina e infecções
recorrentes também precisam ser investigados. Dor óssea persistente,
especialmente na coluna, pelve e quadris, perda de peso sem explicação e
declínio funcional merecem atenção, sobretudo quando associados a outros
sinais.
A
especialista observa que muitos homens consideram essas mudanças naturais da
idade ou sentem constrangimento em relatá-las. Por isso, recomenda que os
profissionais de saúde incluam a investigação dos sintomas urinários na
avaliação habitual da pessoa idosa, sem esperar que o próprio paciente os
mencione espontaneamente.
A
decisão sobre o rastreamento do câncer de próstata também não deve se basear
exclusivamente na idade cronológica. É preciso considerar a expectativa de
vida, o estado funcional, comorbidades, a presença de fragilidade e os fatores
individuais de risco, como histórico familiar da doença, especialmente em
parentes de primeiro grau, ancestralidade africana e variantes genéticas
associadas a maior risco, como BRCA2.
A
geriatra pondera que o rastreamento nem sempre traz benefícios e pode levar a
intervenções desnecessárias. “O PSA pode identificar tumores indolentes, que
nunca causariam sintomas ou comprometeriam a sobrevida do indivíduo, levando a
investigações e tratamentos potencialmente desnecessários, com riscos de
incontinência urinária, disfunção sexual e prejuízo da qualidade de vida”,
explica.
No
Brasil, não se recomenda o rastreamento populacional sistemático do câncer de
próstata. A abordagem deve ser individualizada, com decisão compartilhada entre
médico e paciente, após discussão dos potenciais benefícios e danos. Nos homens
idosos, a expectativa de vida e a possibilidade real de se beneficiar de um
diagnóstico precoce são particularmente importantes.
Avaliação geriátrica ajuda a orientar o cuidado
Quando
há diagnóstico de câncer, a Avaliação Geriátrica Ampla (AGA) é um dos pilares
da Oncogeriatria e deve fazer parte do planejamento terapêutico. Ela permite
identificar vulnerabilidades que podem passar despercebidas na avaliação
oncológica convencional e influenciar a tolerância ao tratamento, o risco de
toxicidades e os resultados clínicos.
A
avaliação considera aspectos como funcionalidade, mobilidade, risco de quedas,
cognição, saúde emocional, estado nutricional, comorbidades, uso de múltiplos
medicamentos, fragilidade e suporte social. Seus resultados devem orientar as
decisões e as intervenções. Um paciente com sarcopenia, desnutrição ou
limitações funcionais, por exemplo, pode se beneficiar de acompanhamento
nutricional, exercícios resistidos e fisioterapia antes do início do
tratamento. Já alguém com comprometimento cognitivo pode precisar de
estratégias específicas de comunicação, participação do cuidador e maior
monitoramento da adesão e dos efeitos adversos.
A
identificação dessas vulnerabilidades também pode levar à adaptação da intensidade
terapêutica e à escolha de esquemas menos tóxicos. A geriatra ressalta: “O
conceito central é que a AGA não deve ser utilizada para excluir pacientes do
tratamento, mas para identificar vulnerabilidades modificáveis, orientar
intervenções e tornar o tratamento mais seguro e individualizado”.
Tratamento deve preservar a funcionalidade e a autonomia
A
escolha entre estratégias como vigilância ativa, observação, cirurgia,
radioterapia e terapia hormonal deve considerar o risco oncológico, a expectativa
de vida, a reserva funcional, as comorbidades e as preferências do paciente. Os
tratamentos apresentam impactos distintos e podem provocar efeitos como perda
de massa muscular, osteoporose, fadiga, alterações metabólicas, quedas e
declínio funcional, especialmente no caso da terapia de privação androgênica.
Para
Theodora, o sucesso do tratamento não deve ser avaliado exclusivamente pela
resposta tumoral ou pelo aumento da sobrevida. É preciso compreender o que
importa para cada homem: prolongar a vida, preservar a independência, continuar
morando sozinho, manter a capacidade de caminhar ou evitar hospitalizações. A
atuação interdisciplinar, envolvendo geriatria, oncologia, urologia,
fisioterapia, terapia ocupacional, nutrição, enfermagem e psicologia, é
essencial para alcançar esse objetivo.
A
família e os cuidadores também podem contribuir para identificar mudanças no
comportamento, na funcionalidade, na alimentação e nos hábitos urinários, além
de auxiliar no acompanhamento do tratamento. Essa participação, porém, deve
respeitar a autonomia do paciente. A equipe de saúde também precisa identificar
e acolher a sobrecarga física e emocional de quem cuida.
Ampliar
o acesso à Oncogeriatria exige investir na formação dos profissionais de saúde
e incorporar a avaliação geriátrica aos protocolos dos serviços de oncologia.
Embora nem todos os pacientes precisem passar inicialmente por uma avaliação
com geriatra, é fundamental que suas principais vulnerabilidades sejam
identificadas e que haja encaminhamento especializado sempre que necessário. A
especialista também destaca a importância de fortalecer o cuidado
interdisciplinar e de implementar políticas que assegurem acesso equitativo ao
diagnóstico, ao tratamento e à reabilitação.“A Oncogeriatria não deve ser um
privilégio de centros de excelência. Precisamos transformar seus princípios em
práticas assistenciais acessíveis em diferentes níveis de atenção à saúde no
Brasil”, afirma.
Neste
Novembro Azul, a SBGG reforça que homens da mesma idade podem apresentar
condições funcionais, cognitivas e clínicas muito diferentes e, portanto,
necessitar de estratégias de cuidado distintas. Como resume a especialista: “Minha
principal mensagem é: não basta acrescentar anos à vida; precisamos preservar a
vida que existe nesses anos. O cuidado oncológico do homem idoso deve ter como
objetivos não apenas controlar o câncer e prolongar a sobrevida, mas também
preservar sua funcionalidade, autonomia, dignidade e qualidade de vida.”
Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia – SBGG
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