Um imprevisto em
pleno voo coloca à prova as escolhas feitas muito antes da decolagem
Mesmo com manutenção, seguros e rotas previamente
estudadas, duas panes sobre o mar marcaram uma volta ao mundo realizada por um
brasileiro sozinho em um avião monomotor, aeronave com apenas um motor.
Uma das ocorrências aconteceu nas proximidades do
Estreito de Ormuz. Concluída em setembro de 2026, a expedição iniciada em
Fortaleza mostra por que a preparação precisa considerar tanto a prevenção de
falhas quanto os recursos disponíveis para responder a elas.
Alex Frota, piloto e gestor de recursos conhecido como Alex
Bacana, é administrador de empresas e administrador de carteiras credenciado
pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Aos 53 anos, está à frente do Frotas Pelo
Mundo, projeto que documentou a jornada por cinco
continentes. Segundo o balanço da iniciativa, foram 77 mil quilômetros, 297
horas de voo e pousos em 33 países ao longo de 182 dias.
O percurso também incluiu temperaturas de 22 graus
negativos na Groenlândia e calor próximo de 50 graus no Oriente Médio. As
diferenças entre as etapas exigiam considerar as condições meteorológicas, o
abastecimento, a disponibilidade de manutenção e a estrutura de atendimento em
cada local.
A experiência aproxima a aviação de uma questão
recorrente nas empresas: conhecer as dependências de uma operação e preparar
alternativas para possíveis interrupções. “Gestão de risco exige entender o que
sustenta o projeto e o que acontece quando uma dessas condições deixa de
existir. Se a viagem depende de combustível, manutenção e apoio em diferentes
países, cada ponto precisa ser estudado. Em uma empresa, isso envolve
fornecedores, recebimentos e sistemas. O planejamento deve identificar essas
dependências e os recursos necessários para lidar com uma falha”, afirma o
gestor.
O aeroporto existe mas oferece
o que o piloto precisa?
Uma travessia internacional começa com perguntas
que raramente aparecem nas imagens da viagem. Onde será possível abastecer?
Haverá estrutura de manutenção? Como conseguir assistência técnica em outro
país? Quais aeroportos poderão ser considerados se o destino previsto ficar
indisponível?
No Brasil, a versão do Regulamento Brasileiro da
Aviação Civil nº 91 emitida em janeiro de 2026 estabelece que o piloto deve
conhecer, antes da partida, as informações necessárias ao planejamento. Isso
inclui dimensões das pistas e dados de desempenho de pouso e decolagem,
conforme a aeronave. O documento também prevê requisitos de combustível que
consideram o vento e as condições meteorológicas conhecidas.
Na organização do percurso, esses elementos
precisam ser avaliados em conjunto. A proximidade de um aeroporto no mapa não
assegura sua adequação à operação. Da mesma forma, a existência de uma pista
não garante combustível apropriado, assistência técnica ou os serviços
necessários para seguir viagem.
O piloto destaca que a viabilidade de cada trecho
depende dessa combinação. “Não basta escolher o destino e depois procurar como
viabilizar a chegada. É preciso conhecer o abastecimento, a estrutura de
atendimento e as alternativas de continuidade. Um problema em terra também pode
interromper a viagem. Você pode chegar ao aeroporto e não encontrar o serviço
necessário para seguir, mesmo tendo recursos financeiros para pagar por ele”,
explica.
A manutenção e o suporte técnico também cumprem
funções complementares. Enquanto a primeira busca manter a aeronave em
condições de operação, o segundo organiza o acesso a profissionais e serviços
durante a jornada. Seguros e reservas financeiras acrescentam outras formas de
proteção, conforme as coberturas contratadas e as despesas que possam surgir.
Uma pane não significa que o
motor parou
Uma pane pode envolver diferentes sistemas da
aeronave, com consequências distintas para o voo. Identificar o que falhou é
essencial para avaliar seus efeitos. Por isso, ocorrências aparentemente
semelhantes não devem ser tratadas como se exigissem a mesma resposta.
A conduta depende da natureza do problema, das
condições encontradas, do treinamento do piloto e dos procedimentos previstos
para aquele modelo de avião. A regulamentação da Agência Nacional de Aviação
Civil (Anac) atribui ao piloto a responsabilidade de verificar as condições da
aeronave quanto à segurança e determina a interrupção do voo, assim que
possível, quando problemas mecânicos, elétricos ou estruturais comprometerem
suas condições de operação segura.
O piloto relaciona essa responsabilidade à
combinação entre prevenção e capacidade de resposta. “A manutenção busca
reduzir a possibilidade de uma falha, mas o planejamento precisa considerar que
uma ocorrência ainda pode acontecer. Quando surge um problema, o treinamento,
os procedimentos da aeronave e as informações disponíveis orientam a avaliação.
Estudar alternativas antes da partida evita deixar para um momento de pressão
perguntas que poderiam ter sido respondidas com antecedência”, ressalta.
Nos negócios, essa preparação pode ser observada na
escolha de fornecedores substitutos. Ter outra empresa no cadastro é apenas o
início: sua capacidade de atendimento, seus prazos e seus custos precisam ser
conhecidos. A alternativa deve ser viável justamente quando a solução habitual
estiver indisponível.
A pressão para chegar pode
pesar na decisão
Um roteiro estabelece a sequência desejada de uma
viagem, mas as condições encontradas podem exigir sua revisão. A previsão do
tempo, a disponibilidade de serviços e o estado da aeronave precisam continuar
sendo avaliados durante o percurso. O cronograma é um dos elementos dessa
decisão.
A análise de cenários ganha utilidade quando
permite avaliar as consequências de mudanças concretas. Uma etapa atrasada pode
gerar despesas adicionais. Uma parada indisponível pode exigir a reorganização
do percurso. O planejamento precisa considerar quais recursos e alternativas
estarão disponíveis em cada situação.
Na expedição, as reservas financeiras integraram
essa preparação. Nas empresas, a discussão envolve a margem de segurança e o
caixa necessário para pagar compromissos diante de atrasos nos recebimentos ou
de uma interrupção da atividade.
O gestor de recursos relaciona essa disponibilidade
à capacidade de avaliar opções. “Se todo o orçamento depende de cumprir o
roteiro exatamente como foi previsto, uma mudança pode criar pressão financeira
para continuar. A reserva precisa considerar as despesas e os compromissos do
projeto. Quanto custa esperar? O que muda se uma etapa precisa ser
reorganizada? Nos negócios, a pergunta equivalente é por quanto tempo a empresa
consegue cumprir suas obrigações se a receita esperada não entrar”, destaca.
A preocupação com interrupções aparece no Allianz
Risk Barometer 2026, publicado em janeiro pela Allianz Commercial, seguradora
empresarial do grupo Allianz. A interrupção dos negócios, incluindo problemas
nas cadeias de fornecimento, ficou em terceiro lugar entre os riscos globais,
mencionada por 29% dos participantes. A pesquisa ouviu 3.338 especialistas em
97 países e territórios e retrata a percepção desses profissionais sobre as
principais ameaças às empresas, não a frequência de ocorrências.
Para Alex Frota, piloto e gestor de recursos,
revisar o plano exige considerar as informações que surgem durante a execução.
“O tempo e o dinheiro já investidos não podem ser o único argumento para
seguir. A decisão deve considerar as condições atuais e as consequências do
próximo passo. Se uma premissa mudou, é necessário reavaliar o caminho. Esperar
ou reorganizar uma etapa pode preservar a possibilidade de concluir o projeto,
porque as condições que justificaram a decisão inicial também podem mudar”,
aponta.
Alex Frota - conhecido como Alex bacana, é administrador de empresas formado pela Universidade de Fortaleza, com MBA em Investimentos e Private Banking pelo IBMEC. É gestor de recursos e administrador de carteiras credenciado pela CVM, com certificações CGA, CFP® e CEA. Apaixonado por aviação desde a infância, tirou o brevê aos 44 anos. Aos 53, lidera o Projeto Frotas Pelo Mundo, iniciativa com a qual realizou a primeira volta ao mundo solo, em monomotor, feita por um brasileiro cruzando os cinco continentes. Alex Frota é mais conhecido como Alex Bacana, apelido que ganhou em referência ao personagem da série Armação Ilimitada.
Frotas Pelo Mudo
Site | Instagram | YouTube
Fontes de Pesquisa
Agência Nacional de Aviação Civil. Regulamento Brasileiro da Aviação Civil nº 91, Emenda nº 07, emitida em 19 de janeiro de 2026.
https://www.anac.gov.br/assuntos/legislacao/legislacao-1/boletim-de-pessoal/2026/bps-v-21-no-3-19-a-23-01-2026/emd-07-ao-rbac-no-91-2/visualizar_ato_normativo
Allianz Commercial. Allianz Risk Barometer 2026.
https://commercial.allianz.com/news-and-insights/reports/allianz-risk-barometer.html
Allianz Commercial. Allianz Risk Barometer 2026. Business interruption.
https://commercial.allianz.com/news-and-insights/expert-risk-articles/allianz-risk-barometer-2026-business-interruption.html
Nenhum comentário:
Postar um comentário