O mercado brasileiro de canetas emagrecedoras deve
movimentar R$ 20 bilhões em 2026, e quase dobrar em um ano, segundo uma
estimativa da InfoPrice. A patente da semaglutida caiu em março, a primeira versão nacional chegou às farmácias em junho e o primeiro genérico foi aprovado em agosto. Nunca foi tão fácil começar um tratamento. Continuar, no entanto, é outra história.
Em um estudo com mais de 125 mil adultos nos
Estados Unidos, 64,8% dos pacientes sem diabetes abandonaram o GLP-1 em até 12 meses. Uma
meta-análise publicada em 2026 no British Medical Journal projetou que, após a
suspensão de semaglutida ou tirzepatida, o peso volta ao patamar inicial em
cerca de 18 meses. Para o gestor, é dinheiro que sai sem o desfecho que
justificou o gasto. Para o médico, é uma prescrição correta que não chega ao
resultado. Para o paciente, é tempo e dinheiro perdidos.
Durante anos, o problema dessas terapias foi
acesso: preço,
estoque, cobertura. O mercado está resolvendo isso. Sobra o que nenhuma queda
de patente resolve: o paciente que esquece de repor, que abandona na primeira
semana de náusea, que ninguém percebe que sumiu. Os programas de adesão
lançados com as canetas ajudam, mas ninguém liga para o paciente no dia em que
a medicação acaba.
Há boas notícias nos dados. Um estudo da Cleveland Clinic
acompanhou 7.938 pacientes que interromperam a semaglutida ou a tirzepatida.
Entre os que tratavam obesidade, a perda média antes da interrupção foi de 8,4%
do peso corporal; um ano depois, eles haviam recuperado, em média, apenas 0,5%.
Muitos retomaram o medicamento ou migraram para outro tratamento. A interrupção
não precisa ser o fim, mas, para apoiar essa retomada, alguém precisa perceber
que o paciente parou.
Perceber a tempo não exige tecnologia sofisticada.
Exige saber quem está
em tratamento, quando deveria voltar e agir quando não volta. Portugal
transformou esse básico em regra: nas Unidades de Saúde Familiar, o paciente
crônico sai com a próxima consulta agendada e, desde 2008, as equipes recebem
incentivos ligados a indicadores de acompanhamento. O engajamento virou
métrica, e a métrica virou remuneração. O modelo funciona, mas depende de
gente: em maio de 2026, 1,67 milhão de portugueses estavam sem médico de
família. O básico não escala se depender apenas de pessoas.
Escalar, porém, não é repetir o mesmo roteiro para todos.
O diagnóstico diz o que o paciente tem, não se ele vai seguir o tratamento.
Duas pessoas com obesidade usando a mesma caneta podem precisar de coisas diferentes:
uma, de manejo precoce da náusea; outra, apenas de um lembrete no horário em
que costuma aplicar a medicação. Personalizar é combinar três camadas: o
protocolo de referência, baseado nas melhores evidências; o perfil clínico, que
ajusta metas e riscos; e o comportamento real do indivíduo, incluindo seu
contexto social, que define momento, canal e frequência das interações.
Padroniza-se o protocolo e personaliza-se a execução.
Fazer isso para milhares de pacientes exige dados
estruturados, interoperabilidade em padrões como o HL7 FHIR, adotado pelo
Ministério
da Saúde na Rede Nacional de Dados em Saúde, monitoramento contínuo e
privacidade por arquitetura. Sobre essa base, a tecnologia deixa de apenas
apontar quem precisa de atenção e passa a agir: lembra, facilita a reposição e
notifica o profissional quando algo foge do esperado. O julgamento clínico
continua sendo de quem cuida.
Antes de qualquer investimento, proponho três perguntas ao
gestor, válidas para GLP-1, hipertensão, diabetes ou qualquer condição crônica.
Você mede quem começa ou quem continua? Se a proporção de pacientes em
tratamento após 6 ou 12 meses não está no seu painel, você gerencia a entrada,
não o cuidado. Seu sistema sabe quando o medicamento de cada paciente vai
acabar? O fim de uma caneta é previsível; se ninguém age antes, a falha é de
processo, não do paciente. Suas linhas de cuidado performam de forma similar?
Se, na mesma população, uma engaja 50% e outra 5%, o problema raramente é a
condição: é a lógica de construção do programa.
A próxima década da saúde não será definida pela
terapia mais avançada, mas pela capacidade de garantir que a próxima ação
aconteça no momento certo. Cuidar bem não é fazer o extraordinário uma única
vez. É transformar o básico em uma capacidade permanente do sistema, e não em
um esforço eventual das equipes.
Thiago Bonfim - CEO e fundador da Caren, uma health tech
brasileira que utiliza inteligência artificial e gamificação para transformar
dados clínicos em ações práticas.
Caren
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