Da primeira mesada à primeira conta,
educação financeira desde cedo pode ajudar jovens a desenvolver autonomia e
tomar decisões mais conscientes sobre o dinheiro
Às vésperas do Dia das Crianças, o aumento do consumo voltado ao público infantil também chama atenção para uma mudança na forma como crianças e adolescentes entram em contato com o dinheiro. Se para as gerações anteriores lidar com dinheiro significava, muitas vezes, acompanhar o saldo da conta, contar cédulas e pensar duas vezes antes de uma compra, hoje o consumo está a poucos cliques de distância. Pix, cartões, aplicativos e pagamentos instantâneos tornaram as transações mais simples, mas também podem tornar os gastos menos perceptíveis.
Nesse cenário, a educação financeira precisa começar antes mesmo
da adolescência. Para Daiane Alves, educadora financeira da Neon,
o contato com o universo financeiro e a noção sobre o valor do dinheiro podem
ser introduzidos ainda na infância, a partir das escolhas e experiências do
cotidiano e, principalmente, do exemplo dado pelos adultos.
“É desde cedo que as crianças começam a construir sua relação com o dinheiro. Na adolescência, quando passam a ter mais autonomia e começam a perceber que suas escolhas financeiras têm consequências, esse aprendizado pode ser aprofundado”, explica.
Segundo a especialista, entre 12 e 14 anos pode ser um momento
adequado para começar a utilizar uma conta supervisionada e ampliar
gradualmente a autonomia financeira. A ideia é permitir que o jovem faça
escolhas, inclusive erre, mas ainda conte com o acompanhamento da família para
transformar essas experiências em aprendizado.
Confira cinco orientações para ajudar crianças e adolescentes a
desenvolver uma relação mais consciente com o dinheiro:
- Comece antes da primeira conta
A educação financeira não precisa esperar a chegada da mesada ou
da primeira conta bancária. A criança já pode começar a entender o valor do
dinheiro a partir de situações cotidianas: escolhas de consumo, comparação
entre produtos e percepção de que os recursos são limitados.
Na adolescência, uma conta supervisionada pode ser uma ferramenta
para ampliar essa autonomia. Entre 12 e 14 anos, o jovem começa a compreender
melhor que suas decisões financeiras podem gerar consequências positivas ou
negativas, criando uma oportunidade para aprender a administrar o próprio
dinheiro antes de chegar à vida adulta.
- Ensine a diferença entre querer e precisar
A facilidade dos pagamentos digitais trouxe um novo desafio para as famílias: o dinheiro pode ser gasto sem que o jovem sequer tenha a sensação de que está deixando de ter aquele recurso.
“Os pagamentos instantâneos e as compras com um clique tornaram o consumo mais invisível. Como não vemos o dinheiro saindo da carteira, o gasto pode parecer menos real e favorecer compras por impulso”, afirma Daiane.
Uma estratégia simples é adotar a regra das 24 horas: diante de uma compra não planejada, esperar um dia antes de decidir. O intervalo pode ajudar a diferenciar uma necessidade de uma vontade momentânea.
Outra possibilidade é ensinar o chamado “cálculo do esforço”:
transformar o preço de um produto em horas de trabalho, no caso de um bico, ou
em semanas de mesada. Perceber quanto esforço é necessário para pagar por
determinado item pode ajudar o jovem a avaliar melhor se aquela compra
realmente vale a pena.
- Dê um destino para o dinheiro
Receber uma mesada ou ganhar dinheiro com pequenos trabalhos não
significa que o jovem precise gastar tudo de uma vez. Uma maneira simples de
ensinar organização é estabelecer metas e separar o dinheiro de acordo com
diferentes objetivos.
Uma divisão sugerida pela especialista é a das “três caixinhas”:
- 50% para os gastos do mês ou da semana;
- 30% para metas, como um curso, uma viagem ou a compra de um
produto de maior valor;
- 20% para o futuro, que pode ser destinado a uma reserva ou a
um investimento de longo prazo.
As proporções podem ser adaptadas à realidade e aos objetivos de
cada jovem. O mais importante é criar o hábito de dar uma finalidade ao
dinheiro antes de gastá-lo.
A reserva também pode ensinar que nem todo recurso guardado
precisa estar relacionado a uma emergência grave. Um dinheiro separado pode ser
utilizado para situações não planejadas, como uma oportunidade de fazer um
curso ou comprar algo desejado em uma promoção.
- Troque a fiscalização pela conversa
Dar autonomia não significa deixar o jovem sozinho. Para Daiane,
uma das formas mais eficientes de acompanhar a vida financeira dos filhos é
estabelecer previamente os limites e permitir que eles experimentem as
consequências de suas próprias escolhas.
Se existe um valor definido para a semana ou para o mês e o
dinheiro acaba antes do prazo, por exemplo, os pais podem evitar fazer um novo
aporte imediatamente. A experiência de ficar sem recursos até o próximo ciclo
pode ensinar mais do que uma repreensão.
Nesse processo, o diálogo é fundamental. Em vez de fiscalizar cada
gasto, os pais podem conversar ao final do mês sobre o que funcionou, o que
poderia ter sido diferente e quais são os objetivos para o período seguinte.
“É nessa fase, enquanto ainda contam com o apoio dos pais, que os
jovens podem errar e aprender com os próprios erros sem pagar um preço tão alto
por isso na vida adulta”, destaca
a educadora financeira.
- Educação financeira também é segurança digital
A relação dos jovens com o dinheiro acontece cada vez mais no
ambiente digital. E, junto com a evolução dos meios de pagamento, também surgem
novas formas de golpes e fraudes.
Embora sejam altamente conectados, adolescentes podem ser mais
vulneráveis a abordagens fraudulentas justamente pela falta de experiência e
conhecimento sobre segurança financeira.
Por isso, alguns cuidados devem fazer parte da educação financeira
desde cedo:
- Desconfiar de promessas de dinheiro rápido ou de jogos que
prometem ganhos fáceis;
- Nunca compartilhar senhas ou códigos de verificação, nem
mesmo com amigos;
- Manter a verificação em duas etapas ativada em redes sociais
e contas de e-mail;
- Conversar abertamente sobre golpes que circulam no ambiente
digital e sobre como eles funcionam.
“Os jovens já nasceram em uma era tecnológica. Para acompanhá-la,
é necessário não apenas conhecer os novos serviços, mas também entender que os
golpes se reinventam junto com eles”, afirma Daiane.
Mais do que ensinar a guardar dinheiro, a especialista afirma que
educação financeira na infância e na adolescência pode ajudar a formar adultos
mais conscientes sobre escolhas, consumo, planejamento e segurança. Em um
cenário em que comprar ficou cada vez mais fácil, aprender quando não comprar
pode ser uma das primeiras grandes lições.
Neon
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