O Dia
Mundial da Saúde Mental, celebrado em 10 de outubro, chama atenção para o
acesso ao diagnóstico e a tratamentos eficazes para os transtornos mentais.
Entre eles, a depressão é um dos mais prevalentes no mundo, e uma parcela
relevante dos pacientes não obtém melhora suficiente com os tratamentos de
primeira linha.
Na
prática clínica, considera-se depressão resistente o quadro de transtorno
depressivo maior em que não houve resposta adequada após o uso sequencial de
dois ou mais antidepressivos, em doses e tempo corretos.
É nesse
grupo que a cetamina tem ganhado espaço na psiquiatria. Para o psiquiatra Dr.
José Giocondo, o principal recado é não postergar a busca por alternativas
quando o tratamento convencional não funciona.
“Tempo é cérebro. Não podemos atrasar o tratamento. Hoje
contamos com intervenções que potencializam os antidepressivos convencionais e
ampliam as chances de resposta nos casos de refratariedade”, afirma o Dr. José
Giocondo.
O que é a cetamina e como ela age
A
cetamina foi desenvolvida como anestésico. Em psiquiatria, é utilizada em doses
subanestésicas, ou seja, bem abaixo das usadas em cirurgias, e sempre em
ambiente controlado. Seu mecanismo de ação é diferente do dos antidepressivos
tradicionais: ela atua bloqueando o receptor NMDA, modulando a transmissão do
glutamato e estimulando a liberação de BDNF, uma proteína associada à
neuroplasticidade, isto é, à capacidade do cérebro de formar e organizar
conexões entre neurônios.
Na
prática, isso se traduz em uma diferença de tempo de resposta. Enquanto os
antidepressivos convencionais costumam levar semanas para mostrar efeito, a
cetamina pode reduzir sintomas depressivos em horas a dias, o que a torna
especialmente relevante em quadros graves e em situações de ideação suicida.
“A cetamina não substitui o antidepressivo. O que a
neurobiologia mostra é uma sinergia: ela favorece a neuroplasticidade e cria
condições para que o tratamento de base, a psicoterapia e as mudanças de estilo
de vida funcionem melhor”, explica o psiquiatra.
No
Brasil, a escetamina em spray nasal, uma das formas da molécula, tem registro
na Anvisa para depressão resistente. A cetamina por via endovenosa ou
subcutânea é utilizada de forma off-label, ou seja, fora das indicações
previstas em bula, mas com respostas muito acima, quando comparadas com o spray
nasal, chegando até em 70-80% de remissão dos sintomas depressivos em poucas
aplicações. É importante ressaltar que o seu uso exige indicação
individualizada, consentimento informado e estrutura adequada.
Para quem o tratamento é indicado
“A cetamina não é para todos. Mas, para quem tem indicação, pode mudar o curso do tratamento da depressão”, resume o Dr. José Giocondo.
Segundo
o especialista, os principais perfis de pacientes avaliados para o tratamento
são:
- Pessoas com
depressão resistente a dois ou mais antidepressivos.
- Pacientes com
episódios depressivos graves ou em situação de urgência clínica.
- Pacientes com
ideação suicida, em que a rapidez de resposta é decisiva, sempre com
monitoramento rigoroso.
- Pacientes com
transtorno bipolar em fase depressiva refratária, com cautela e em
associação a estabilizadores de humor.
- Pessoas que não toleram os efeitos colaterais dos antidepressivos convencionais.
Há
também estudos em andamento sobre o uso em transtorno de estresse
pós-traumático, transtorno obsessivo-compulsivo e ansiedade refratários, mas,
nesses casos, as evidências ainda não são consideradas suficientes para uso
rotineiro.
Como funciona o protocolo
Antes
de qualquer sessão, o paciente passa por uma avaliação de elegibilidade, com
histórico clínico, revisão das medicações em uso, exames laboratoriais e,
quando necessário, pareceres de outros especialistas. A decisão pela inclusão
no protocolo considera segurança e indicação técnica caso a caso.
A aplicação
pode ser feita por via endovenosa ou subcutânea e dura, em média, de 40 a 60
minutos, com acompanhamento contínuo de médico anestesiologista ou psiquiatra e
monitoramento dos sinais vitais. É exigido jejum prévio, e o paciente deve
estar acompanhado na ida e na volta. Após a sessão, permanece em repouso por
cerca de 30 minutos e não pode dirigir nem operar máquinas nas 24 horas
seguintes.
“Não existe receita genérica. Dose, via de
administração, número de sessões e intervalo entre elas são definidos a partir
da resposta de cada paciente, e essa resposta é acompanhada de perto desde a
primeira aplicação”, diz o psiquiatra.
Riscos, contraindicações e dependência
Durante
a aplicação, podem ocorrer alterações temporárias de percepção, sensação de dissociação,
náusea e elevação da pressão arterial, efeitos que costumam ser transitórios e
são controlados pela equipe. O tratamento é contraindicado em pacientes com
histórico de transtornos psicóticos, episódios maníacos recentes, doenças
cardiovasculares graves, hipertensão não controlada, gestação e lactação, abuso
atual de substâncias e hipertireoidismo descompensado, entre outras condições.
Uma das
dúvidas mais frequentes nos consultórios é sobre o risco de dependência. De
acordo com o especialista, é preciso diferenciar o uso clínico do uso
recreativo.
“No contexto médico, com dose controlada, ambiente
monitorado e indicação correta, o risco de dependência é muito baixo. Situações
como histórico de abuso de substâncias exigem uma avaliação mais cuidadosa
antes da indicação”, esclarece o Dr. José Giocondo.
Tratamento complementar, não solução isolada
O
crescimento do interesse pela cetamina também trouxe preocupação com seu uso
indiscriminado, para queixas sem respaldo científico. Para o psiquiatra, a
substância deve ser vista como parte de uma estratégia terapêutica ampla, nunca
como tratamento de primeira linha ou isolado, sempre integrada ao acompanhamento
psiquiátrico, à psicoterapia e ao suporte social.
“A cetamina carrega muitos estigmas, e também muitas
promessas exageradas. O caminho é informação de qualidade e indicação
criteriosa. Psiquiatria séria se faz com evidência, sem atalhos”, conclui.
José Giocondo Guerra - médico psiquiatra, CRM-SP 175925, RQE 92858, especialista em Psiquiatria (adulto e infância/adolescência). Formado em Medicina pela Unicamp, com residência em Psiquiatria pela Unifesp, especialização em Psiquiatria da Infância e Adolescência (Einstein), mestrado em Neurociências pelas universidades do Minho e de Coimbra (Portugal) e doutorado em andamento pela USP. É fundador da Clínica Minerva e integra o corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein.
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