Tratamentos para infertilidade avançaram nas últimas décadas, mas ainda são cercados por dúvidas sobre chances de sucesso, idade, congelamento de óvulos e riscos para o bebê
A reprodução assistida deixou de ser um recurso restrito a
situações muito específicas e passou a fazer parte da realidade de muitas
pessoas que desejam ter filhos. Fertilização in vitro (FIV), inseminação
intrauterina, congelamento de óvulos e embriões e outras técnicas ampliaram as
possibilidades de formação de uma família, mas também fizeram crescer o número
de dúvidas sobre o que realmente funciona, quais são as limitações dos
tratamentos e quais expectativas podem ser consideradas realistas.
Para Dra. Andrea Greico, especialista em Reprodução Humana do
Grupo Santa Joana, um dos principais desafios é justamente separar informação
científica de expectativas criadas por relatos pessoais ou promessas
encontradas nas redes sociais. “A reprodução assistida oferece possibilidades
importantes, mas não existe uma técnica capaz de garantir uma gravidez. O
tratamento precisa ser individualizado, porque idade, reserva ovariana,
qualidade dos gametas, condições do útero, fatores masculinos e histórico
reprodutivo interferem diretamente nos resultados”, explica.
Fertilização
in vitro sempre funciona?
Mito.
A FIV aumenta as possibilidades de gravidez para
determinados casos de infertilidade, mas não oferece garantia de sucesso.
Durante o processo, nem todos os óvulos coletados serão fertilizados e, entre
os embriões formados, apenas parte continuará seu desenvolvimento até o estágio
adequado para transferência. Mesmo após a transferência, a implantação e a
evolução da gestação dependem de diferentes fatores. Dados da American Society
for Reproductive Medicine mostram que, em um ciclo de FIV, há perdas sucessivas
entre a quantidade de óvulos coletados, os que são fertilizados, os que chegam
ao estágio de blastocisto e aqueles que efetivamente resultam em gestação.
Quem
faz reprodução assistida pode escolher o sexo do bebê?
Depende da situação e não deve ser tratado como uma simples
escolha.
As técnicas de reprodução assistida permitem, em contextos
específicos, a análise genética de embriões antes da transferência, mas os
testes genéticos têm indicações médicas próprias. A utilização de técnicas de
reprodução assistida não transforma a escolha de características do bebê em um
procedimento disponível de forma irrestrita.
A FIV aumenta muito o risco de o bebê nascer com problemas de
saúde?
Mito.
A FIV é considerada uma técnica estabelecida e, de
forma geral, a maioria dos bebês concebidos por esse método nasce saudável.
Existem riscos associados ao tratamento e à própria infertilidade, além de
fatores como idade e condições clínicas da paciente, que também influenciam os
resultados obstétricos. Por isso, não é correto atribuir automaticamente
eventuais complicações à técnica de reprodução assistida.
“É importante diferenciar os riscos relacionados ao tratamento dos
riscos relacionados às características da própria paciente. Muitas mulheres que
chegam à reprodução assistida já têm uma idade mais avançada ou condições que
dificultam a gravidez, e esses fatores precisam ser considerados quando
avaliamos os resultados”, afirma Dra. Andrea.
Congelar óvulos garante uma gravidez no futuro?
Mito.
A vitrificação de óvulos ampliou as possibilidades de
preservação da fertilidade, mas não funciona como um seguro-garantia de
maternidade. A idade em que os óvulos são congelados é um dos fatores que
influenciam as chances futuras, assim como a quantidade de óvulos obtidos e sua
utilização posterior. A técnica é considerada uma alternativa estabelecida de
preservação da fertilidade, mas as pacientes precisam ser informadas sobre suas
limitações e sobre a possibilidade de que nem todos os óvulos congelados
resultem em uma gestação.
Quanto mais óvulos forem coletados, maior será a garantia de
gravidez?
Mito.
Ter mais óvulos disponíveis pode ampliar as
possibilidades de obtenção de embriões, mas quantidade não significa
necessariamente qualidade. O envelhecimento reprodutivo, especialmente
feminino, está relacionado à redução da qualidade dos óvulos e ao aumento da
ocorrência de alterações cromossômicas. Por isso, a estratégia de tratamento
precisa considerar o perfil de cada paciente, e não apenas a quantidade de
óvulos recuperados.
Reprodução assistida é indicada apenas para mulheres?
Mito.
A infertilidade pode estar relacionada a fatores
femininos, masculinos ou a uma combinação dos dois. Alterações na produção ou
qualidade dos espermatozoides, por exemplo, também podem interferir na
capacidade de engravidar. A avaliação do casal ou dos indivíduos envolvidos no
projeto parental é importante para identificar a causa e escolher a estratégia
mais adequada.
A idade deixa de ser importante quando se faz uma FIV?
Mito.
A reprodução assistida pode contornar algumas
dificuldades relacionadas à concepção, mas não elimina os efeitos do
envelhecimento dos óvulos. A idade continua sendo um dos fatores mais
importantes para os resultados reprodutivos. Por isso, a FIV não deve ser
encarada como uma forma de “parar o relógio biológico”.
“Uma das maiores expectativas que precisamos alinhar com os
pacientes é a ideia de que a tecnologia consegue neutralizar completamente os
efeitos da idade. Ela amplia as possibilidades, mas não elimina a biologia.
Quanto mais cedo identificamos uma dificuldade ou discutimos o planejamento
reprodutivo, maior é a possibilidade de tomar decisões de maneira
individualizada”, explica a especialista.
A inseminação artificial e a fertilização in vitro são a mesma
coisa?
Mito.
Embora façam parte da reprodução assistida, são
tratamentos diferentes. Na inseminação intrauterina, os espermatozoides preparados
são introduzidos no útero no período próximo à ovulação, enquanto na FIV a
fecundação ocorre em laboratório e o embrião posteriormente é transferido para
o útero. A escolha entre as técnicas depende da causa da infertilidade, idade,
exames e histórico de cada paciente.
Toda FIV precisa utilizar intracitoplasmática de espermatozoide
(ICSI)?
Mito.
A injeção intracitoplasmática de espermatozoide
(ICSI) consiste na introdução de um único espermatozoide diretamente no óvulo.
Apesar de ser uma ferramenta importante em situações específicas, seu uso não é
necessariamente indicado para todos os pacientes. Recomendações recentes da
ASRM apontam que a utilização rotineira da ICSI em situações sem fator
masculino ou histórico de falha de fertilização não demonstrou melhorar as
taxas de nascimento em comparação com a fertilização convencional.
Quem
faz reprodução assistida precisa passar por vários ciclos?
Não necessariamente.
Algumas pessoas conseguem uma gestação no primeiro
tratamento, enquanto outras precisam de mais de uma tentativa. A resposta varia
conforme idade, diagnóstico, reserva ovariana, qualidade dos gametas, número e
qualidade dos embriões e outros fatores. Por isso, não é possível estabelecer
previamente quantos ciclos serão necessários para cada paciente.
Mais do que escolher uma técnica, o acompanhamento especializado
permite estabelecer expectativas realistas e avaliar quando determinado
tratamento faz sentido. A reprodução assistida não deve ser encarada como uma
promessa de resultado, mas como um conjunto de ferramentas que pode ampliar as
possibilidades de gravidez diante de diferentes situações.
“Cada paciente chega com uma história e uma expectativa. Nosso
papel é explicar o que a medicina consegue oferecer naquele cenário, quais são
as possibilidades e também quais são os limites. Informação de qualidade é
parte fundamental do tratamento”, conclui Dra. Andrea Greico.
Hospital e Maternidade Santa Joana
www.santajoana.com.br
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