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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Tontura, confusão e quedas podem estar relacionadas ao uso de vários medicamentos por idosos

 

Polifarmácia exige acompanhamento, sobretudo quando há prescrições de diferentes especialistas, automedicação e uso de suplementos e fitoterápicos

 

Quedas recorrentes, tontura que surgiu de repente ou episódios de confusão mental podem ser interpretados pela família como consequências naturais do envelhecimento. Nem sempre são. Em pessoas idosas, sintomas como esses também podem estar relacionados aos medicamentos utilizados diariamente, principalmente quando vários tratamentos são combinados. 

O uso contínuo de cinco ou mais medicamentos é geralmente definido como polifarmácia. A condição é frequente entre idosos que convivem com diferentes doenças crônicas e não significa, necessariamente, que haja excesso ou erro no tratamento. O alerta está no aumento do risco de interações medicamentosas, efeitos adversos, duplicidade de prescrições e dificuldades para seguir corretamente os horários e doses. 

No Brasil, cerca de 18% das pessoas idosas utilizam cinco ou mais medicamentos, segundo publicação do Ministério da Saúde sobre o uso racional de medicamentos. 

O cuidado deve ser ainda maior nessa fase da vida porque o envelhecimento provoca alterações na forma como o organismo reage aos medicamentos. Mudanças nas funções dos rins e do fígado, por exemplo, podem interferir na metabolização e eliminação das substâncias. “Embora a polifarmácia possa ser necessária para o tratamento de diversas doenças crônicas, ela aumenta o risco de interações medicamentosas, reações adversas, duplicidade de tratamentos e dificuldades para seguir corretamente as prescrições”, explica a geriatra cooperada da Unimed-BH Bárbara Correa. 

Segundo a médica, sinais como sonolência excessiva, confusão mental, tontura, desmaios, fraqueza, perda de equilíbrio, quedas, náuseas, vômitos, diarreia e perda de apetite merecem atenção e devem ser investigados, considerando principalmente quando essas alterações começaram. O surgimento de um sintoma logo após a introdução de um medicamento, uma mudança de dose ou a inclusão de um novo tratamento pode ser uma pista importante. 

Bárbara conta que uma situação relativamente frequente no consultório são idosos que chegam com histórico de quedas e apresentam hipotensão ortostática, queda da pressão arterial que ocorre ao se levantar. “É muito frequente atendermos idosos com quadro de quedas devido à hipotensão ortostática cuja causa é o excesso de anti-hipertensivos”, exemplifica. 

O caso mostra por que nem todo sintoma deve ser atribuído automaticamente à idade. A Organização Mundial da Saúde inclui os efeitos colaterais de medicamentos entre os fatores que podem aumentar o risco de quedas, problema que atinge especialmente a população mais velha.

 

Diferentes especialistas, uma única pessoa

O risco também pode aumentar quando o idoso é acompanhado por vários especialistas. Cardiologista, endocrinologista, neurologista, ortopedista e outros profissionais podem participar do tratamento de uma mesma pessoa. Por isso, é importante que haja uma visão integrada de todas as prescrições. “Na prática, é preciso reunir todos os medicamentos utilizados e avaliar se cada um ainda é necessário, se a dose está adequada, se existe alguma duplicidade ou interação e se determinados sintomas podem estar relacionados a efeitos adversos”, explica Bárbara. 

Nesse processo, segundo a geriatra, o médico também deve considerar a funcionalidade, a memória, o risco de quedas, a qualidade de vida e as funções renal e hepática do paciente. 

A orientação é que o idoso ou a família mantenha uma lista atualizada com nome, dose e horário de todos os medicamentos e a apresente nas consultas, principalmente quando houver acompanhamento com diferentes profissionais. E a lista não deve incluir apenas os remédios prescritos. Vitaminas, suplementos, fitoterápicos, chás e medicamentos comprados sem receita também precisam ser informados. “O fato de um produto ser ‘natural’ não garante que seja seguro. Esses produtos também podem provocar efeitos adversos e interagir com medicamentos de uso contínuo”, alerta. 

O Ministério da Saúde também orienta que produtos como chás, xaropes, vitaminas e outras preparações sejam informados aos profissionais de saúde, já que podem interferir no efeito de determinados medicamentos.

 

Remédio comum também pode representar risco

A automedicação é outro ponto de atenção. Um medicamento considerado simples ou que já tenha sido usado anteriormente pode provocar efeitos diferentes em uma pessoa idosa, principalmente quando associado a outros tratamentos. “Um remédio aparentemente simples pode causar sonolência, confusão, queda da pressão, retenção urinária, sangramento ou lesão renal, sobretudo em uma pessoa idosa que já utiliza vários outros medicamentos”, afirma Bárbara. 

Por isso, a recomendação é não iniciar, suspender ou modificar doses por conta própria. A revisão dos medicamentos deve ocorrer periodicamente e merece atenção especial sempre que houver a inclusão de um novo tratamento, após uma internação ou diante do surgimento de sintomas como tontura, sonolência, confusão, quedas, sangramentos ou perda de apetite. 

Isso não significa buscar simplesmente a redução do número de medicamentos. Em muitos casos, vários deles são necessários para controlar doenças e preservar a saúde. O objetivo da revisão é verificar se cada tratamento continua adequado àquele paciente e se os benefícios permanecem superiores aos riscos. 

Para famílias e cuidadores, a simples atitude de levar a lista completa de medicamentos a cada consulta e comunicar mudanças recentes no comportamento ou na saúde do idoso faz muita diferença. “Mais do que contar quantos comprimidos existem na caixa, o cuidado com a polifarmácia exige olhar para a pessoa que está por trás das prescrições, suas doenças, sua rotina, sua autonomia e, principalmente, a forma como ela está reagindo ao tratamento”, corrobora a geriatra.

 


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