Cães e gatos vivem mais do que em qualquer geração
anterior. Uma revisão publicada em outubro de 2025 no Journal of Veterinary
Science observa que animais que antes raramente passavam do início da
adolescência hoje alcançam com frequência o fim dela, e parte deles chega aos
vinte anos. A HealthforAnimals, entidade que reúne a indústria global de saúde
animal, enquadra essa evolução em um intervalo mais amplo. Segundo a entidade,
a expectativa de vida dos pets praticamente dobrou nas últimas quatro décadas, impulsionada
por vacinação, melhor nutrição, diagnósticos mais precisos e tratamentos mais
eficazes. Com a maior longevidade, cresce também a presença das doenças
crônicas, que passam a ocupar parte importante da rotina veterinária.
Assim como acontece com as pessoas, o envelhecimento dos animais
aumenta a incidência de enfermidades que exigem acompanhamento contínuo. A
própria HealthforAnimals associa à idade avançada um conjunto de condições como
câncer, doenças hepáticas, diabetes, problemas articulares e declínio
cognitivo. Diferentemente das doenças agudas, essas condições não se resolvem
em uma única consulta. Elas demandam monitoramento frequente, ajustes no
tratamento e uma atuação conjunta entre o médico-veterinário e a família ao
longo de toda a vida do animal.
Esse cenário empurra a medicina veterinária na direção da
prevenção. De acordo com a HealthforAnimals, o setor deixou de apenas tratar as
doenças quando elas aparecem e passou a trabalhar para evitá-las, com o apoio
de planos de saúde para pets e do acompanhamento periódico. A lógica acompanha
a da saúde humana. Quanto mais cedo uma alteração é identificada, maiores são
as chances de controlar a doença e preservar a qualidade de vida do animal.
No Brasil, o tema ganha peso pelo tamanho do mercado. O país tem a
segunda maior população de cães e gatos do mundo, atrás apenas dos Estados
Unidos, de acordo com o Radar Pet, estudo da Comissão de Animais de Companhia
(Comac), do Sindan. O mesmo levantamento aponta uma preocupação crescente dos responsáveis
com o envelhecimento dos pets, ainda descolada da frequência de visitas ao
veterinário. É sobre essa distância entre a intenção e a prática que o cuidado
preventivo precisa avançar.
O sucesso no manejo das doenças crônicas depende diretamente da
adesão ao tratamento. A administração correta dos medicamentos, os retornos
periódicos e o acompanhamento da evolução clínica só funcionam quando há
parceria entre o profissional e quem convive com o animal no dia a dia. Do lado
da indústria, a demanda por tratamentos de uso prolongado orienta o
desenvolvimento de medicamentos mais seguros para administração contínua, de
formulações que facilitam a rotina de cuidado e de ferramentas que apoiam o
monitoramento dos pacientes.
No fim, o crescimento das doenças crônicas reflete uma conquista.
Os pets estão vivendo mais, e o desafio passa a ser assegurar que esse tempo
adicional venha com qualidade de vida, com prevenção, diagnóstico precoce e
acompanhamento contínuo incorporados à rotina veterinária. Clínicas, hospitais,
indústria e responsáveis cuidam do mesmo animal em momentos diferentes, e a
integração entre eles é o que sustenta o bem-estar de uma população que vive
mais a cada ano.
Gabriela Mura - diretora de mercado e assuntos
regulatórios do Sindan
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