Professor de Psicologia da UMC destaca necessidade de construir uma cultura em que pedir ajuda não seja visto como sinal de fraqueza; escuta, acolhimento e acompanhamento psicológico devem compor rede de cuidado
Campanha nacional
de conscientização e prevenção do suicídio e de valorização da vida, o Setembro
Amarelo tem o objetivo de quebrar tabus, reduzir estigmas e ampliar a
compreensão sobre a importância de cuidar da saúde mental. Apesar de ter o
papel de levar para o espaço público um tema cercado de silêncio, a prevenção
precisa ser compreendida como um trabalho contínuo, presente durante todo o ano
nas famílias, escolas, serviços de saúde, ambientes de trabalho e nas políticas
públicas. Quem faz a análise é Rodolfo Mendonça Pereira, professor do Curso de
Psicologia da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC).
“O suicídio é um
fenômeno complexo e multifatorial, que não acontece por uma única causa e,
portanto, não possui uma só forma de prevenção. Precisamos considerar aspectos
psicológicos, sociais, econômicos, culturais, relacionais e as próprias
condições de acesso ao cuidado. Daí a necessidade de se falar cada vez mais
sobre o assunto, revelando que o reconhecimento do sofrimento não é sinal de
fraqueza, mas o começo do cuidado, o primeiro passo para se pedir ajuda”,
destaca Pereira.
De acordo com o
docente da UMC, que é psicólogo, mestre em Psicogerontologia e tem formação nas
áreas de Filosofia, Teologia, Pedagogia e História, um dos mitos que cercam o
tema é pensar que existe um conjunto claro e universal de sinais que antecedem
uma tentativa ou uma morte por suicídio.
“Nem sempre há
sinais perceptíveis e, por isso, não devemos esperar que uma crise aconteça
para levar o sofrimento a sério, nem nos basear em explicações simplistas.
Falas relacionadas à desesperança, ao isolamento e à perda de interesse por
atividades antes significativas podem indicar sofrimento e devem acender o
alerta. Contudo, esses sinais não constituem, por si só, um instrumento de
diagnóstico. Uma pessoa pode apresentar alguns deles e não estar em risco de
suicídio, assim como alguém em sofrimento grave pode não apresentar sinais
evidentes”, afirma.
Para quem tem um
familiar ou conhecido passando por um momento de sofrimento intenso, a
aproximação é um primeiro passo importante, mostrando que aquela pessoa não
precisa enfrentar o momento sozinha. O acompanhamento psicológico e de outros
profissionais da saúde também deve ser buscado, inclusive antes de uma situação
de crise, como forma de prevenção e promoção da saúde.
“Prevenção não
precisa começar somente quando a pessoa está em uma situação de crise. Cuidar
da saúde mental, fortalecer vínculos, ampliar as possibilidades de pedir ajuda
e construir redes de apoio também são formas de prevenção. Sofrimento faz parte
da existência humana, mas isso não significa que precisamos enfrentá-lo
sozinhos quando ele se torna intenso, persistente ou começa a comprometer nossa
vida. Na psicoterapia, o psicólogo pode ajudar a pessoa a compreender melhor
sua experiência, identificar fatores que intensificam o sofrimento, reconhecer
fatores de risco e de proteção, desenvolver recursos para lidar com situações
difíceis e fortalecer vínculos e redes de apoio”, explica Pereira.
A depender das
necessidades de cada pessoa, pode ser necessário articular o acompanhamento
psicológico com outros profissionais e serviços de saúde, construindo uma rede
de cuidado capaz de oferecer o suporte necessário.
Ajuda
A busca por ajuda pode começar pela Unidade Básica de Saúde (UBS), importante
porta de entrada para o cuidado. Em emergências ou risco imediato, deve-se
procurar atendimento de urgência ou acionar o Serviço de Atendimento Móvel de
Urgência (Samu), pelo telefone 192. O Centro de Valorização da Vida (CVV),
acionado pelo 188, oferece escuta e apoio emocional gratuito, 24 horas por dia.
“Falar sobre prevenção do suicídio é falar, antes de tudo, sobre cuidado com a vida, algo que se constrói cotidianamente. Por isso, talvez uma das possíveis contribuições da campanha seja ajudar a transformar a pergunta ‘Como evitar o suicídio?’ em ‘Como podemos construir uma sociedade em que as pessoas tenham mais condições de viver, pertencer, pedir ajuda e serem cuidadas?’, ressalta o docente da UMC.

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