Médica explica como o excesso de estímulos digitais dificulta a concentração, prejudica a memória e faz atividades simples competirem com as notificações do celular
O celular acompanha praticamente todos os momentos do
dia de uma pessoa, está ao lado durante o trabalho, interrompe refeições,
aparece no meio de conversas e, muitas vezes, é a última coisa consultada antes
de dormir. Mensagens, notificações, vídeos curtos e atualizações nas redes
sociais disputam continuamente a atenção, criando uma rotina em que ficar
alguns minutos sem verificar a tela pode parecer difícil.
Segundo um levantamento da NordVPN, o brasileiro passa 52 anos, 9
meses e 16 dias de sua vida conectado à internet. Somada ao tempo expressivo, a
forma como o cérebro é constantemente interrompido também pode influenciar a
capacidade de se concentrar. Uma pesquisa publicada em 2026 na revista
acadêmica Computer in Human Behavior, observou que notificações de redes
sociais provocam uma desaceleração temporária do processamento cognitivo durante
uma tarefa que exige atenção.
Isso pode ajudar a explicar uma sensação cada vez mais comum: o
indivíduo passa o dia ocupado, mas tem dificuldade para terminar o que começou,
ler um texto até o fim ou permanecer em uma atividade sem buscar algum estímulo
no celular.
De acordo com Cláudia Ortiz, médica da área de neurologia do
AmorSaúde, rede de clínicas parceiras do Cartão de TODOS, o cérebro não realiza
todas essas atividades simultaneamente como muitas vezes imaginamos. “Nosso
cérebro não foi feito para processar vários estímulos importantes ao mesmo
tempo. Quando passamos o dia alternando entre notificações, mensagens, vídeos,
redes sociais e outras tarefas, estamos constantemente direcionando a atenção
de um estímulo para outro”, explica.
Multitarefa ou atenção fragmentada?
É comum chamar de multitarefa a capacidade de responder uma
mensagem enquanto se assiste a um vídeo, trabalhar com várias abas abertas ou
interromper uma leitura sempre que chega uma notificação. No entanto, Cláudia
explica que, “na maioria dessas situações, não estamos realmente fazendo várias
coisas ao mesmo tempo. Estamos alternando rapidamente a atenção entre
diferentes tarefas”.
Essa alternância exige que a pessoa interrompa o processamento de uma demanda, direcione a atenção para outra e, depois, tente recuperar o ponto em que estava. Quanto mais frequentes forem essas mudanças, maior pode ser o esforço necessário para retomar uma linha de raciocínio. Segundo a médica, alguns sinais de que a atenção pode estar sendo excessivamente fragmentada incluem:
- Começar várias tarefas e ter dificuldade para concluí-las;
- Perder o foco durante conversas ou leituras;
- Precisar reler várias vezes o mesmo texto;
- Sentir dificuldade para assistir a um filme sem mexer no celular;
- Interromper atividades frequentemente para verificar
notificações;
- Ter a sensação de estar sempre ocupado, mas com dificuldade
para manter a produtividade.
Celular pode atrapalhar a memória
A atenção é fundamental para que uma informação seja registrada e
posteriormente recuperada. Quando uma pessoa lê, estuda ou conversa enquanto
verifica constantemente o celular, parte desse processo pode ser prejudicada
porque o foco é desviado antes que a informação seja adequadamente processada.
“A atenção é uma espécie de porta de entrada para a memória. Para que uma informação seja bem registrada e posteriormente lembrada, precisamos prestar atenção nela”, explica Cláudia.
O efeito também aparece na retomada das tarefas. Ao voltar para uma atividade interrompida, "o cérebro precisa recuperar o contexto e entender novamente em que ponto estava. Isso tem um custo mental e pode tornar a atividade mais demorada e cansativa”, afirma a médica.
Por isso, a dificuldade de concentração nem sempre
significa que a pessoa perdeu a capacidade de prestar atenção. Em muitos casos,
o problema pode estar no ambiente cheio de interrupções ao qual ela se
acostumou.
Por que ler um livro ou assistir a um filme pode parecer
mais difícil?
Vídeos curtos e redes sociais são construídos a partir de uma
sucessão rápida de imagens, informações e novidades. Já atividades como ler um
livro, acompanhar um filme ou conversar exigem que a atenção permaneça por mais
tempo na mesma experiência. Para quem está habituado a estímulos frequentes,
essa diferença pode fazer atividades mais longas parecerem monótonas ou exigir
um esforço maior para manter o foco.
“Isso não significa que o cérebro tenha ‘perdido a capacidade’ de
se concentrar. Muitas vezes, ele simplesmente está habituado a um padrão de
estímulo muito intenso e frequente”, esclarece Cláudia. A médica compara esse
processo a um condicionamento da atenção em que quanto mais a pessoa pratica a
interrupção e a busca constante por novidades, mais difícil pode parecer
permanecer em uma única atividade.
Como recuperar a concentração sem abandonar a tecnologia
Para quem percebe dificuldade em permanecer longe do celular, a
recomendação não precisa ser uma mudança radical. Segundo Cláudia, começar com
períodos curtos de atenção exclusiva pode ser mais viável do que tentar
eliminar completamente o uso dos dispositivos.
“Uma pessoa que está acostumada a verificar o celular a cada
poucos minutos provavelmente terá dificuldade em passar horas sem utilizá-lo.
Podemos começar com períodos curtos de atenção exclusiva e aumentar
progressivamente esse tempo”, orienta. Algumas mudanças simples podem ser
incorporadas à rotina:
1. Não conferir o celular a todo momento: em vez de responder mensagens e redes sociais continuamente, é possível estabelecer momentos específicos para verificar as atualizações.
2. Desativar algumas notificações: desativar alertas que não são realmente necessários reduz interrupções durante atividades que exigem concentração.
3. Evitar o uso do celular durante refeições e conversas: deixar o aparelho longe nesses momentos ajuda a manter a atenção na interação e na experiência que está acontecendo.
4. Não assistir à televisão enquanto mexe no celular: escolher uma atividade de cada vez favorece uma atenção mais sustentada.
5. Evitar interromper uma tarefa difícil em busca de estímulos rápidos: quando uma atividade exige esforço, vale tentar permanecer nela por alguns minutos antes de recorrer ao celular.
6. Restringir o uso de telas perto do horário de dormir: criar um período de desaceleração antes do sono pode contribuir para uma rotina de descanso mais adequada.
7. Reservar alguns minutos do dia para leitura: ajuda a manter a atenção em uma única atividade por mais tempo.
8. Evitar realizar várias atividades simultaneamente: concentrar-se em uma tarefa por vez diminui as trocas de atenção e facilita a manutenção do foco.
9. Criar momentos de descanso sem estímulos digitais: ficar alguns períodos sem notificações, vídeos ou redes sociais permite que o cérebro descanse da sequência constante de estímulos e novidades.
10. Fazer atividades ao ar livre sem usar o celular: deixar o aparelho de lado durante pequenas caminhadas, por exemplo, permite exercitar a atenção no ambiente ao redor.
A médica destaca ainda que a concentração não depende apenas da relação com as telas. Sono adequado, atividade física e períodos de descanso também são importantes para o funcionamento cerebral. “Um cérebro cansado tem mais dificuldade para manter atenção, controlar impulsos e formar novas memórias”, afirma.
Cartão de TODOS

Nenhum comentário:
Postar um comentário