Redes sociais
estão transformando características que antes não incomodavam em novos motivos
de comparação e insatisfação com o próprio corpo
Filtros, imagens editadas e conteúdos produzidos
por inteligência artificial estão ampliando a exposição a padrões estéticos
difíceis de reproduzir fora das telas e reacendendo o debate sobre os efeitos
da comparação na percepção do próprio corpo. A discussão ganhou força nos
últimos dias após novos comentários sobre a aparência de Ariana Grande
circularem nas redes sociais, episódio que trouxe novamente à tona os limites
entre preocupação, julgamento e body shaming.
Marco Dallegrave é médico, cirurgião plástico,
pós graduado em Psiquiatria e membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia
Plástica. À frente da clínica Marco Dallegrave Cirurgia Plástica, atua com
procedimentos estéticos, especialmente cirurgias de contorno corporal, mamas e
mini lipoaspiração de recuperação rápida. Para o especialista, compreender de
onde nasce uma insatisfação pode ser tão importante quanto avaliar aquilo que o
paciente deseja modificar.
“Hoje não existe apenas a comparação com outra
pessoa. Existe a comparação com fotografias selecionadas, ângulos calculados,
filtros e imagens modificadas. Quando essa referência passa a determinar como
alguém acredita que deveria ser, a imagem corporal nas redes sociais pode
interferir diretamente na expectativa levada para dentro do consultório”,
explica Dallegrave.
Comparar também pode gerar
gatilhos
A repercussão em torno da aparência da cantora
também expôs outro efeito da comparação nas redes sociais. Em meio aos
comentários sobre seu corpo, pessoas que convivem ou já conviveram com
transtornos alimentares relataram que a circulação das imagens e a discussão
sobre magreza funcionam como gatilho para pensamentos e comportamentos
relacionados à própria imagem corporal. O episódio mostra como uma publicação
sobre a aparência de outra pessoa pode atingir quem apenas acompanha a
discussão, mesmo sem participar diretamente dela.
Para o cirurgião plástico, esse mecanismo merece
atenção porque a referência deixa de ser apenas externa e passa a interferir na
maneira como a própria pessoa se enxerga. “Nem sempre alguém olha uma imagem e
pensa conscientemente que gostaria de ter aquele corpo. A comparação pode ser
mais sutil. A pessoa começa a questionar medidas, proporções ou características
que antes não eram um problema. Quando essa insatisfação passa a orientar
decisões sobre procedimentos estéticos, é importante entender o que está por
trás desse desejo antes de indicar uma cirurgia”, ressalta.
Quando a imagem digital vira
referência
A facilidade de modificar fotografias acrescentou
uma nova camada à relação com a aparência. Filtros capazes de alterar pele,
nariz, mandíbula, olhos e proporções faciais convivem agora com ferramentas de
inteligência artificial que produzem imagens cada vez mais realistas. Com isso,
a comparação pode ocorrer não apenas com outras pessoas, mas também com uma
versão digitalmente modificada de si próprio.
Um estudo publicado em 2025 na revista científica
Body Image, com 397 universitários usuários do TikTok, encontrou associação
entre o uso de filtros faciais voltados a melhorar a aparência e maior
insatisfação facial e preocupação com a imagem corporal. Os pesquisadores
ressaltam que os resultados demonstram associação e não estabelecem uma relação
direta de causa e efeito.
“Uma imagem modificada pode funcionar como
referência visual, mas não como promessa de resultado. Anatomia, estrutura
óssea, pele, distribuição de gordura e proporções são individuais. Quando
alguém chega querendo reproduzir exatamente aquilo que viu em um filtro, cabe
ao cirurgião explicar os limites e avaliar se existe uma expectativa possível”,
aponta o especialista.
O limite entre desejo e
expectativa irreal
Querer modificar uma característica física não
significa, por si só, que exista uma relação problemática com a própria
aparência. Segundo Dallegrave, o alerta aumenta quando a insatisfação muda
constantemente, diferentes partes do corpo passam sucessivamente a ser
percebidas como defeitos ou o paciente acredita que alcançar determinada
aparência resolverá questões afetivas, profissionais ou sociais.
Por isso, a avaliação antes da cirurgia não deve se
limitar à possibilidade técnica de realizar o procedimento. Entender há quanto
tempo existe o incômodo, qual resultado é esperado e quais referências
influenciaram a decisão também ajuda a determinar se a cirurgia plástica é
indicada.
“Existe uma diferença entre querer melhorar algo
que incomoda de forma consistente e tentar acompanhar um padrão que muda a cada
tendência. Se hoje a referência é um corpo e amanhã surge outro, nenhuma
cirurgia conseguirá resolver essa comparação permanente”, afirma o cirurgião
plástico.
Por que o cirurgião também
precisa dizer não
Expectativas incompatíveis com a anatomia, busca
recorrente por procedimentos sem satisfação duradoura, intenção de alcançar um
resultado idêntico ao de outra pessoa e a crença de que uma transformação
física solucionará outros aspectos da vida são situações que exigem cautela.
Para o especialista, nem todo desejo por uma
mudança precisa resultar em procedimento. A avaliação médica também envolve
reconhecer quando a expectativa ultrapassa aquilo que uma cirurgia pode
oferecer.
“O cirurgião também precisa saber dizer não. Quando
percebo que a expectativa não corresponde ao que a cirurgia consegue entregar
ou que o sofrimento apresentado vai além de uma característica física, operar
pode não ser a melhor escolha. Em alguns casos, a conduta mais responsável é
não indicar o procedimento”, destaca Dallegrave.
A cirurgia plástica pode contribuir para o bem
estar quando existe uma queixa consistente, indicação médica e expectativa
compatível com as possibilidades do procedimento. Para Marco Dallegrave,
preservar a individualidade ganhou ainda mais importância diante de uma rotina
digital marcada por filtros, inteligência artificial, padrões de beleza e
comparação constante.
“O objetivo não deveria ser sair de uma cirurgia
parecido com aquilo que aparece repetidamente na tela. Eu costumo dizer que a
beleza vem de dentro, e isso significa entender o próprio valor, respeitar a
própria individualidade e não depender da aprovação dos outros para se sentir
bem. A cirurgia pode modificar características físicas, mas não deve carregar a
responsabilidade pela autoestima ou pela felicidade de uma pessoa”, afirma o
cirurgião plástico.
“Quando a pessoa consegue separar aquilo que
realmente deseja da pressão externa e da comparação, a decisão de operar se
torna mais consciente. A mudança pode acontecer por fora, mas a forma como cada
um se enxerga precisa ser construída de dentro para fora”, conclui Dallegrave.
Fontes de Pesquisa:
Preocupação ou body shaming Caso de Ariana Grande expõe limites dos comentários sobre o corpo — g1
https://g1.globo.com/saude/noticia/2026/08/04/preocupacao-ou-body-shaming-caso-de-ariana-grande-expoe-limites-dos-comentarios-sobre-o-corpo.ghtml
Críticas a Ariana Grande reacendem debate sobre transtornos entenda sinais — CNN Brasil
https://www.cnnbrasil.com.br/saude/criticas-a-ariana-grande-reacendem-debate-sobre-transtornos-entenda-sinais/
Ariana Grande não está só O perigo da obsessão coletiva pela magreza extrema — Veja
https://veja.abril.com.br/cultura/ariana-grande-nao-esta-so-o-perigo-da-obsessao-coletiva-pela-magreza-extrema/
Facial filter use on TikTok and associations with facial dissatisfaction and body image concerns — Body Image / PubMed
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40233665/
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