Se você der uma olhada nas redes sociais, vai ver um monte de gente batendo cabeça, prevendo o fim do mundo e falando que o setor de transporte vai quebrar. Mas se dermos dois passos para trás e sairmos um pouco desse universo, a visão muda.
Estamos
diante de uma grande transformação, e eu não vejo outra forma de fazer isso
acontecer sem uma crise como esta que estamos vivendo.
Sobre
a reforma, enxergo quatro pontos amplos:
- Regime
tributário das transportadoras
Preste
bastante atenção nisso: mais de 90% das transportadoras hoje são do Simples
Nacional. E está claro na reforma que, ao contratar uma empresa do Simples, o
contratante terá um desconto relevante no crédito. O que isso gera? Perda de
competitividade. E perder competitividade no contexto de hoje é tornar a
operação inviável.
Temos
pouco mais de seis meses para adequar esse aspecto, e não vai dar tempo de
fazer todas essas empresas migrarem para o Lucro Real (como se somente o tempo
fosse o problema).
Isso
vai gerar uma demanda gigante por reprecificação e reorganização, o que fomenta
uma possível consolidação do mercado — empresas maiores absorvendo as menores,
criação de relações em novos formatos, ou até mesmo a organização em
cooperativas, um modelo pouquíssimo explorado no transporte brasileiro.
2.
Ampliação da
necessidade de caixa
Você
já deve ter ouvido falar do split payment, que adianta o pagamento dos
tributos e gera uma necessidade de caixa desproporcional. Enquanto os prazos de
pagamento de frete vão aumentando (60, 90, 120 dias), o transportador vai ter
que pagar parte dos tributos na frente. Girar caixa custa dinheiro, e isso mexe
direto no custo final.
3.
O fim das
bizarrices fiscais
Hoje,
a gente contrata consultorias para desenhar malhas logísticas baseadas em
eficiência fiscal. Aquele negócio de produzir no sul de São Paulo, mandar para
Extrema (MG) para só depois descer para Santos. Tem muita bizarrice logística
que existe apenas por causa dos impostos. Tudo isso vai ser rediscutido. Temos
uma grande oportunidade para tornar a cadeia logística realmente eficiente do
ponto de vista operacional, e não apenas fiscal.
4.
Repricing
(a re-precificação)
Somando
o frete mínimo e a reforma tributária, a conclusão é uma só: o ambiente mudou e
isso tem um fator inflacionário relevante.
Estamos
diante de um grande ponto de inflexão no transporte de cargas, tanto na
execução quanto na contratação. É o momento de embarcadores e transportadores
sentarem e trabalharem juntos para entender esse novo cenário. A base de
formação de preço será totalmente nova; não tem nada a ver com o que aconteceu até
agora.
Ultrapassando
na curva
Olhar
tudo isso de dentro do olho do furacão parece (e é) caótico. Mas quando a
poeira baixar, a tendência é que as relações fiquem mais justas,
independentemente do interesse envolvido. Vamos ganhar eficiência.
E para
encerrar o pensamento: na reta, todo mundo tem capacidade de fazer ultrapassagens,
pois acelerar no plano é fácil. Agora, diferente mesmo é quem ultrapassa na
curva.
O fato é que a gente está correndo em Mônaco. Tem muita curva fechada pela
frente. Então, se eu tenho uma recomendação hoje é: estude e se diferencie. E,
como venho insistindo, não ache que você vai resolver isso sozinho.
Você
pode custar a acreditar, mas essa é uma construção em rede: você, seu
concorrente, seu cliente, seus parceiros... Tudo isso só entra numa linha de
tendência de melhora e solução se trabalharmos em conjunto e colaborarmos. O
efeito da rede, o Transportation Network System que tanto buscamos
construir.
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