Fundação Maria Cecilia Souto
Vidigal, Globo e UNESCO lançam Guia de Primeira Infância para cuidadores
durante o Agosto Verde e psicóloga Marcella Araújo explica como família,
comunidade e relações participam do desenvolvimento infantil.
Durante o Agosto Verde, mês dedicado à primeira infância,
a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal lançou o Guia de Primeira Infância, com
apoio da Globo e do Criança Esperança e cooperação da UNESCO. O material é
gratuito e voltado a famílias, cuidadores e pessoas que participam da criação
de crianças de 0 a 6 anos, reunindo orientações práticas baseadas em evidências
sobre cuidado, vínculo e desenvolvimento infantil.
A iniciativa reforça uma discussão que ultrapassa a
ideia de que o desenvolvimento infantil acontece apenas em espaços formais de
educação. Para a psicóloga e pesquisadora Marcella Araújo, compreender a
primeira infância exige observar também as relações, os ambientes e as
experiências que fazem parte do cotidiano da criança. Esse olhar está
diretamente relacionado à sua trajetória acadêmica: em seu mestrado em Psicologia
pela Universidade de São Paulo (USP), Marcella pesquisou o cotidiano de
crianças de 0 a 3 anos em uma comunidade rural assentada, vinculada a
movimentos sociais.
Marcella é psicóloga pela Universidade Federal de
Uberlândia (UFU), mestre em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP) e
tem MBA em Gerenciamento de Projetos pela Fundação Getulio Vargas (FGV). É
especialista em desenvolvimento de crianças e adolescentes, com trajetória que
articula pesquisa, docência, psicologia escolar e atuação institucional.
Atualmente, desenvolve supervisões, formações e produções voltadas a
profissionais que trabalham com crianças e adolescentes, com atuação
fundamentada na Psicologia Histórico-Cultural.
A pesquisa foi realizada a partir da vivência
etnográfica dos espaços ocupados pelas crianças, das atividades das quais
participavam e das relações estabelecidas com familiares e outras pessoas da
comunidade. No primeiro mês de campo, Marcella realizou um levantamento das
famílias que tinham crianças de até 3 anos. Nos meses seguintes, morou na
comunidade e acompanhou de forma mais aprofundada três crianças, com 10 meses,
1 ano e 5 meses e 2 anos e 5 meses, buscando compreender seus universos
relacionais e as experiências que compunham seu cotidiano.
O estudo permitiu observar diferentes configurações de
convivência. Em alguns casos, o universo relacional das crianças envolvia
dezenas de pessoas, mostrando que as experiências da primeira infância não
estão restritas aos pais ou aos cuidadores que vivem diretamente com elas. A
observação do cotidiano também permitiu analisar como os espaços frequentados,
as atividades realizadas e as relações estabelecidas participam das
possibilidades de experiência e aprendizagem das crianças.
A discussão ganha relevância diante dos próprios
desafios de acesso à educação infantil no Brasil. Segundo dados oficiais do
Ministério da Educação, 41,2% das crianças de 0 a 3 anos estavam matriculadas
em creches em 2024. O dado mostra que uma parcela significativa das crianças
dessa faixa etária não estava inserida nesse espaço institucional, tornando
ainda mais importante compreender os demais contextos nos quais elas vivem e se
desenvolvem.
Mesmo fora da creche, porém, essas crianças seguem
vivendo experiências educativas. O Ministério da Saúde define a primeira
infância como o período que vai do nascimento aos 6 anos completos e destaca
que os primeiros anos são fundamentais para o desenvolvimento físico,
cognitivo, emocional e social. A pasta também orienta o acompanhamento do
desenvolvimento infantil e reconhece a importância das interações e
experiências vividas pela criança nessa fase.
"Quando olhamos para uma criança de 0 a 3 anos,
precisamos olhar também para o mundo que está sendo apresentado a ela. Quem são
as pessoas com quem ela convive? Quais espaços frequenta? Quais atividades
realiza? Quais possibilidades de participação são oferecidas? Essas relações
fazem parte do desenvolvimento", explica Marcella.
A ideia de que o cuidado ultrapassa a relação
individual entre criança e cuidador também está presente no novo Guia de
Primeira Infância. O material foi elaborado para apoiar não apenas famílias,
mas toda a rede de pessoas envolvidas na criação de uma criança, reforçando que
cuidado, brincadeira, conversa e demonstrações de afeto podem transformar
situações cotidianas em oportunidades de vínculo e desenvolvimento.
Nesse sentido, a comunidade também pode ocupar um
lugar importante. A experiência observada por Marcella mostra que crianças
pequenas podem estabelecer relações significativas com um conjunto amplo de
pessoas e participar de diferentes atividades ao longo do dia. A família,
portanto, não apresenta o mundo à criança somente por meio de orientações
diretas, mas também pelas relações que estabelece, pelos espaços que frequenta
e pelas oportunidades de convivência que possibilita.
"Uma criança pequena está o tempo inteiro
construindo experiências a partir das relações que estabelece. Isso nos ajuda a
pensar que cuidar da primeira infância não é apenas garantir alimentação, saúde
ou proteção. É também escolher que relações, espaços e lugar social essa
criança vai ocupar", afirma a psicóloga.
A abordagem também dialoga com a mobilização do Agosto
Verde, que destaca a primeira infância como uma fase fundamental do
desenvolvimento humano e defende o envolvimento da sociedade e do Estado na
garantia de condições adequadas para as crianças. A campanha de 2026 reúne
materiais sobre desenvolvimento infantil, primeira infância antirracista,
políticas públicas, proteção e outros temas relacionados aos primeiros anos de
vida.
Para além dos espaços formais de educação, a primeira
infância acontece no cotidiano. Casa, comunidade, serviços públicos, espaços de
convivência e relações familiares compõem o ambiente no qual bebês e crianças
pequenas constroem suas primeiras experiências sociais. Por isso, a discussão
proposta pelo Agosto Verde amplia a pergunta sobre quem cuida de uma criança
para outra questão: que mundo os adultos estão apresentando a ela?

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