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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

De Sinal de Alerta a Condição Crônica

A Dor pode ser Necessária ou Desnecessária

 

A dor é uma das experiências fundamentais para a sobrevivência do ser humano. Do ponto de vista da neurologia, a dor é muito mais complexa do que um simples sinal de que algo está errado. A dor aguda pode ser um sinal de alerta, mas também pode se transformar em uma doença. 

Como explica o neurocirurgião Dr. Kleber Duarte, existem dois tipos de dor: “uma que é necessária e outra que é completamente desnecessária.” A dor necessária tem uma função fundamental: avisar que alguma coisa está errada no organismo para que a pessoa procure ajuda e corrija o problema. Já a dor desnecessária é aquela que permanece por mais de 3 meses sem uma causa que justifique sua continuidade e que deixa de cumprir qualquer função útil. “Ela não tem serventia, então pode e deve ser aplacada.” 

Essa distinção é fundamental para compreender a chamada dor crônica. Quando sofremos uma lesão, por exemplo, as terminações nervosas especializadas em detectar estímulos potencialmente lesivos, enviam sinais ao sistema nervoso. O cérebro interpreta essas informações e produz a experiência que chamamos de dor. Nesse contexto, a dor funciona como um verdadeiro sistema de alarme. 

O problema surge quando esse alarme continua disparando mesmo depois que o perigo passou. É o que acontece na dor crônica. Mudanças podem ocorrer no funcionamento do sistema nervoso. Os circuitos envolvidos no processamento da dor podem ficar mais sensíveis e responsivos. É o fenômeno conhecido como sensibilização, no qual estímulos que antes provocavam pouca ou nenhuma dor podem passar a ser percebidos como dolorosos, ou uma dor já existente pode se tornar desproporcional ao estímulo. 

Por isso, dor não é necessariamente sinônimo de lesão. A intensidade da dor também não precisa corresponder à dimensão de uma alteração encontrada em um exame. A experiência dolorosa envolve uma complexa interação entre nervos, medula espinhal e cérebro, além de fatores como memória, atenção, emoções e contexto. É justamente aí que a dor deixa de ser apenas um aviso e pode passar a constituir uma doença própria. 

Uma fratura, uma cirurgia ou uma inflamação podem ter uma causa concreta e uma finalidade biológica para a dor. Quando a causa é tratada e o sistema nervoso permanece produzindo dor, o sofrimento deixa de funcionar como um mecanismo protetor. O alarme perdeu sua utilidade, mas continua tocando. É por isso que a dor crônica não deve ser encarada como algo que a pessoa simplesmente precisa suportar. 

A dor crônica merece investigação, tratamento e, sobretudo, compreensão. A dor é real. Tratar uma dor que já não tem função de proteção não significa mascarar o problema, significa tratar uma doença. Como ela afeta profundamente o bem-estar físico, psicológico e social do indivíduo, a recuperação raramente depende de um único remédio. O tratamento eficaz combina terapias médicas, atividade física adaptada, suporte psicológico e ajustes no estilo de vida, focando não apenas na redução dos sintomas, mas na reabilitação da qualidade de vida. 



Dr. Kleber Duarte - Neurocirurgião: Dr. Kleber Duarte é médico neurocirurgião com quase 30 anos de experiência na área de neurocirurgia funcional e dor. Atualmente é coordenador do Serviço de Neurocirurgia para Saúde Suplementar e Neurocirurgia em Dor do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Tem amplo conhecimento e alta qualificação em técnicas cirúrgicas e de estereotaxia para tratamento de doenças que comprometem o sistema motor e em dores crônicas.
@drkleberduarte


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