"Com a
popularização dos medicamentos para perda de peso, especialistas chamam atenção
para uma etapa que costuma ficar em segundo plano: preservar massa muscular,
qualidade da pele e contorno corporal durante a transformação"
A balança comemora primeiro. O espelho, nem
sempre.
O emagrecimento acelerado se transformou em um dos
assuntos mais comentados da saúde nos últimos anos, impulsionado pela
popularização dos medicamentos agonistas do receptor de GLP-1 e de outras
estratégias para controle do peso. Mas, à medida que os quilos desaparecem, surge
uma questão menos discutida: o que acontece com o corpo que fica depois deles?
Para algumas pessoas, a resposta aparece na forma
de flacidez, perda de volume, alterações no contorno corporal e mudanças na
qualidade da pele. Em outras, o impacto é menos perceptível. A diferença está
em uma combinação de fatores que começa muito antes de a pessoa atingir o peso
desejado.
A lógica, segundo especialistas, é simples:
emagrecer não significa apenas perder gordura.
“O processo de transformação corporal precisa ser
acompanhado de maneira ampla. Quando olhamos somente para o número da balança,
podemos deixar de observar composição corporal, massa muscular, qualidade da
pele, hidratação, medidas e distribuição de gordura. O objetivo deveria ser
acompanhar como o corpo está mudando, e não apenas quanto ele está pesando”,
afirma Dra. Daniela da Silveira, biomédica responsável técnica nacional da Gio
Estética Avançada.
O peso diminui, mas o corpo não encolhe de maneira uniforme
Quando uma pessoa perde uma quantidade significativa
de peso, o organismo não elimina apenas gordura. A perda de massa corporal pode
envolver diferentes tecidos, incluindo gordura e massa magra. A proporção varia
de acordo com alimentação, atividade física, idade, composição corporal
inicial, velocidade do emagrecimento e outros fatores individuais.
É aí que aparece uma diferença importante entre
peso corporal e composição corporal.
Duas pessoas podem perder exatamente 10 quilos e
apresentar resultados visuais completamente diferentes. Uma pode preservar mais
massa muscular e manter um contorno corporal mais definido. Outra pode
apresentar maior redução de massa magra e perceber mais flacidez ou perda de
sustentação.
Um estudo publicado em 2024 no periódico Diabetes,
Obesity and Metabolism, que analisou dados de diferentes ensaios
clínicos com medicamentos agonistas de GLP-1, mostrou que a redução de peso
promovida por essas terapias ocorre predominantemente pela diminuição da massa
gorda, mas também pode envolver perda de massa magra.
Isso não significa que os medicamentos sejam
responsáveis, isoladamente, pela flacidez. Significa que a composição do peso
perdido importa.
“O que interessa não é apenas perder peso. É
entender de onde esse peso está vindo e o que queremos preservar ao longo do
processo. Massa muscular, por exemplo, tem relação direta com funcionalidade,
metabolismo e também com a aparência do contorno corporal”, explica a Daniela.
A flacidez não começa
necessariamente quando o peso termina
Um dos equívocos mais comuns é pensar na flacidez
como uma espécie de “efeito colateral” que só precisa ser tratado depois que a
pessoa chega ao peso desejado. Na realidade, a aparência da pele e dos tecidos
é influenciada por fatores que já estavam presentes antes do emagrecimento.
A pele é formada por diferentes camadas e depende
de estruturas como colágeno e elastina para manter resistência e elasticidade.
Com o envelhecimento, a produção e a organização dessas proteínas sofrem
alterações. A exposição solar acumulada também contribui para a degradação das
fibras responsáveis pela sustentação cutânea.
Quando ocorre uma grande redução de volume
corporal, a capacidade da pele de se adaptar ao novo contorno passa a ser uma
variável importante. É por isso que idade, genética, quantidade de peso
perdido, tempo em que a pessoa permaneceu acima do peso, exposição solar e
características individuais da pele podem influenciar o resultado final.
Não existe, portanto, uma fórmula segundo a qual
determinada quantidade de quilos perdida necessariamente produzirá determinado
grau de flacidez.
O que poderia ter sido feito durante?
É justamente nessa pergunta que especialistas
identificam uma mudança de paradigma.
Em vez de esperar que o processo de emagrecimento
termine para então avaliar o que precisa ser corrigido, a proposta é acompanhar
o corpo durante a transformação.
Isso pode incluir avaliações periódicas de
composição corporal, medidas, circunferências, evolução do contorno, estado da
pele e outros parâmetros definidos pelo profissional responsável pelo
acompanhamento.
A ideia não é impedir completamente as mudanças
naturais provocadas pela perda de peso, algo que não pode ser garantido, mas
identificar precocemente aquilo que está acontecendo e ajustar o cuidado dentro
das possibilidades de cada pessoa.
“Quando a avaliação acontece somente no final,
perdemos informações importantes sobre todo o caminho. Acompanhamentos
periódicos permitem observar tendências e adaptar as estratégias de cuidado. É
uma abordagem muito mais preventiva do que esperar o resultado final para
decidir o que fazer”, afirma Daniela.
A balança não mostra o que aconteceu com o músculo
A discussão sobre massa muscular ganhou ainda mais importância com a expansão das terapias para controle do peso. Emagrecer pode ser metabolicamente benéfico para pessoas com sobrepeso ou obesidade, especialmente quando há indicação clínica e acompanhamento médico. Mas a preservação da massa magra precisa fazer parte da estratégia.
Uma revisão publicada no Journal of
Cachexia, Sarcopenia and Muscle em 2024 chamou atenção para a
necessidade de monitorar a composição corporal durante tratamentos com
agonistas de GLP-1, especialmente porque a perda de massa magra pode
representar uma parcela do peso perdido.
Isso ajuda a explicar por que a avaliação corporal
é diferente de simplesmente subir em uma balança. A bioimpedância, por exemplo,
pode ser utilizada em determinados contextos para estimar composição corporal,
enquanto medidas antropométricas e avaliações físicas complementam a leitura.
Nenhum desses recursos, isoladamente, conta toda a história, mas juntos podem
oferecer uma visão mais ampla da transformação.
Para preservar massa muscular, a literatura
científica aponta especialmente para a combinação entre ingestão adequada de
proteínas e exercício físico, particularmente treinamento de resistência,
sempre respeitando as condições clínicas e a orientação de profissionais
habilitados. O ponto central é que a estratégia estética não deveria caminhar
separada da saúde.
A pele também entra na
equação
Se o músculo ajuda a formar o contorno corporal, a
pele precisa se adaptar à redução de volume.
É nesse momento que qualidade cutânea passa a ser
uma variável importante.
Hidratação, proteção solar, alimentação adequada e
hábitos de vida são componentes básicos do cuidado. Procedimentos e tecnologias
estéticas podem ser considerados em situações específicas, mas a indicação
depende da avaliação individual e não deve ser apresentada como garantia de
prevenção ou eliminação da flacidez.
“O cuidado com a pele precisa começar antes de a
pessoa olhar no espelho e identificar um problema. Isso não quer dizer que
exista um procedimento capaz de impedir toda flacidez. Significa acompanhar a
qualidade da pele e entender quais estratégias fazem sentido em cada fase”, diz
a biomédica da Gio Estética Avançada.
A abordagem também muda a conversa sobre
tratamentos estéticos. Em vez de escolher uma tecnologia porque ela está em
alta, a avaliação deveria partir da pergunta: qual alteração estamos tentando
tratar?
Qualidade da pele, gordura localizada, flacidez,
perda de volume e alteração de contorno são problemas diferentes e podem
demandar estratégias diferentes.
O mercado cresceu e a
expectativa também
O fenômeno das chamadas “canetas emagrecedoras”
transformou não apenas o debate médico, mas também o mercado de saúde, beleza e
bem-estar. Medicamentos como semaglutida e tirzepatida passaram a ocupar espaço
importante nas discussões sobre obesidade e controle de peso. Projeções de
mercado para medicamentos voltados ao tratamento da obesidade e diabetes também
mostram um setor em forte expansão.
No Brasil, o movimento vem acompanhado de uma
mudança no comportamento do consumidor: o emagrecimento deixou de ser apenas
uma questão relacionada à balança e passou a envolver uma expectativa mais
ampla sobre aparência, disposição, autoestima e qualidade de vida. É justamente
por isso que especialistas defendem cautela.
A busca por um resultado estético rápido pode
criar expectativas irreais sobre o que acontece depois da perda de peso. O
corpo não necessariamente acompanha a velocidade desejada pelo paciente e não
existe procedimento estético capaz de reproduzir instantaneamente o resultado
de uma cirurgia plástica ou garantir que uma determinada quantidade de peso
perdida não resulte em excesso de pele.
E quando sobra pele?
Existe uma diferença importante entre flacidez
cutânea e excesso significativo de pele.
Em casos de grandes perdas de peso, pode haver
sobra de pele que não responde da mesma maneira a tratamentos não cirúrgicos.
Nessas situações, a avaliação de um cirurgião plástico pode ser necessária para
discutir alternativas, incluindo procedimentos cirúrgicos.
Isso reforça outro princípio: nem toda
consequência estética do emagrecimento pode ou deve ser tratada em uma clínica
de estética.
O acompanhamento precisa reconhecer os limites de
cada área e encaminhar o paciente quando necessário.
A caneta não é o começo e
também não é o fim
Apesar de o debate público frequentemente
concentrar-se nos medicamentos, a transformação corporal é muito maior do que a
prescrição de uma substância.
Medicamentos para tratamento da obesidade e do
sobrepeso são recursos médicos e devem ser prescritos e acompanhados por
profissionais habilitados. A escolha da terapia, a dose, a duração e a
avaliação de riscos e benefícios pertencem ao campo da medicina.
O que acontece paralelamente ao tratamento, porém,
pode influenciar a experiência do paciente durante a transformação.
Alimentação, atividade física, sono, saúde mental, composição corpora,
frequência de tratamentos estéticos em clínicas especializadas, e cuidado diário
com a pele fazem parte de uma jornada mais ampla de mudança de hábitos.
“Não existe uma solução única para o corpo
inteiro. O mais importante é que o paciente seja acompanhado de acordo com o
momento em que está. O emagrecimento é uma jornada, e a manutenção da saúde, da
funcionalidade e da qualidade do tecido também deveria ser”, afirma Daniela.
No fim, a pergunta mais interessante talvez não
seja quantos quilos faltam para atingir a meta, mas como chegar lá. Porque a
transformação corporal não termina quando a balança estaciona. Para quem perde
uma quantidade significativa de peso, o resultado também está naquilo que não
aparece no visor: a massa muscular preservada, a qualidade da pele, o contorno
corporal, a energia para manter uma rotina ativa e, principalmente, a
capacidade de sustentar a mudança ao longo do tempo.
A conta que chega depois da balança, portanto, não
precisa ser uma surpresa.
Ela pode e, para os especialistas, deveria começar
a ser calculada muito antes com a ajuda de múltiplos profissionais.
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