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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Assédio infantil: vigiar o aplicativo não basta

O crime que mais cresce contra crianças brasileiras na internet depende de algo que não é tecnológico: o silêncio da vítima. Em 2025, a SaferNet registrou 63.214 denúncias de imagens de abuso e exploração sexual infantil, a segunda maior marca de sua série histórica. Cada número desses começou com uma criança que decidiu não contar em casa. 

A Polícia Civil de São Paulo investiga essas redes pelo Noad, criado no fim de 2024, que já mapeou mais de 1.900 alvos e participou de mais de 600 prisões. Segundo a delegada que coordena o núcleo, cerca de 90% dos investigados têm entre 12 e 20 anos, e as vítimas mais frequentes são meninas de 6 a 14 anos. Não se trata apenas do adulto escondido atrás da tela: há adolescentes coagindo outros adolescentes. 

As investigações corrigem outra imagem comum entre pais: a plataforma que aparece nas notícias costuma ser o fim da linha, não o começo. Quando a criança chega ali, foi abordada muito antes, em algum jogo ou conversa que ninguém achou que precisava olhar. Vigiamos a última porta. 

Obtida a imagem, começa a etapa mais longa: transformar aquilo em silêncio. O agressor precisa convencer a vítima de três coisas: que ela é culpada, que não existe conserto e que contar vai piorar tudo. É mentira. Para uma menina de doze anos, parece verdade. 

É aqui que a casa entra. A responsabilidade do crime é sempre de quem alicia e explora, mas a distância entre o medo e o pedido de ajuda é medida dentro de casa. A criança registra o que acontece depois de cada erro, e mede o tamanho da reação, não o da regra. Quando chega a chantagem, ela não pergunta se os pais a amam. Isso ela já sabe. Calcula quanto vai custar contar. 

Existe uma frase que precisa ser dita antes da emergência: se alguém ameaçar você por causa de uma foto ou de algo que você fez, venha até mim, eu fico do seu lado, mesmo que você tenha feito o que não devia, mesmo que tenha mentido antes. A última parte é a que importa. A alavanca da chantagem é justamente aquilo que a criança fez e não quer que ninguém descubra. 

Nada disso é argumento contra punir. Casa sem limite não protege ninguém. O que muda é o alvo da consequência, que responde ao que foi feito e nunca ao fato de ter sido contado. Quem conta por conta própria não pode terminar pior do que quem escondeu. E, na chantagem, não há o que punir: a menina é vítima, ainda que tenha quebrado uma regra para chegar ali. Primeiro interromper o contato, preservar evidências e buscar ajuda; regras vêm depois. 

Falta a parte incômoda daqueles 90%. Algumas famílias terão de admitir que o filho pode estar do outro lado, e "meu filho nunca faria isso" é uma reação compreensível, mas não é uma investigação. Esses meninos encontraram naqueles grupos o pertencimento que não achavam em outro lugar. Isso não os isenta, e indica onde a prevenção começa: no modo como tratam meninas e no tipo de poder que admiram. 

Diante de ameaça ou suspeita, procure a polícia, o Disque 100 ou a SaferNet. Antes disso, há algo que não depende de aplicativo nem de investigação: deixar claro hoje o que seu filho vai encontrar no seu rosto quando chegar com a pior história da vida dele. Naquele dia ele não vai perguntar se pode confiar em você. Vai olhar, e decidir.  

 

Cássio Mori - educador, escritor e consultor em gestão escolar, comunicação e relação entre família e escola. Autor de O filho que chega em casa.


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