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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Robôs já ajudam em cirurgias de coluna, mas quem toma as decisões ainda é o médico

Cirurgião brasileiro que participou de treinamento em San Diego explica como robótica, neuronavegação e endoscopia estão mudando procedimentos na coluna e por que a tecnologia não significa substituir o especialista


Robôs capazes de ajudar a definir trajetórias de instrumentos, sistemas que mostram ao cirurgião onde ele está dentro da anatomia do paciente e câmeras que permitem operar a coluna por acessos cada vez menores. O que até poucos anos atrás parecia cenário de ficção científica começa a fazer parte da rotina de centros especializados em cirurgia da coluna.

Mas isso não significa que um robô esteja prestes a assumir o lugar do médico na sala de cirurgia.

A nova geração de tecnologias funciona principalmente como uma extensão da capacidade do cirurgião: ajuda a planejar o procedimento, localizar estruturas anatômicas e reproduzir com maior precisão aquilo que foi definido antes e durante a operação.

Essa integração entre robótica, neuronavegação e cirurgia endoscópica foi um dos focos de uma masterclass realizada nos dias 14 e 15 de agosto, em San Diego, nos Estados Unidos. O cirurgião Dr. Álynson Larocca, especialista em cirurgia da coluna e em técnicas minimamente invasivas para o tratamento de doenças da coluna vertebral, participou do treinamento.

Segundo ele, a evolução observada nos últimos anos mostra que a robótica deixou de ser apenas uma promessa tecnológica.

“Hoje, a robótica passa a ser uma ferramenta cada vez mais integrada ao ato cirúrgico, especialmente quando associada à neuronavegação e às técnicas minimamente invasivas. O mais importante é entender que o robô não substitui o cirurgião. A decisão continua sendo exclusivamente médica”, afirma o especialista.


Mas o que o robô faz, afinal?

Em uma cirurgia convencional, o médico utiliza exames de imagem, referências anatômicas e sua experiência para determinar, por exemplo, a trajetória de um implante.

Com sistemas de neuronavegação, esse processo passa a contar com uma espécie de “GPS cirúrgico”. Imagens da anatomia do paciente são utilizadas para orientar, em tempo real, a posição e o caminho dos instrumentos.

A robótica acrescenta outra camada a esse processo. Depois que o cirurgião define onde pretende chegar e qual será a trajetória, o sistema pode ajudá-lo a manter o instrumental dentro desse planejamento.

A ideia não é delegar decisões à máquina, mas diminuir variações durante a execução.

“O que a tecnologia faz é ampliar nossa capacidade de executar o planejamento com mais precisão. Isso pode aumentar a segurança, melhorar o posicionamento dos implantes e trazer mais previsibilidade ao procedimento”, explica Larocca.

A precisão é particularmente importante em cirurgias da coluna porque o médico trabalha próximo a estruturas delicadas, como raízes nervosas, medula, vasos sanguíneos e outros tecidos que precisam ser preservados.


Cirurgias por acessos cada vez menores

Outro avanço ocorre quando essas tecnologias são combinadas com a cirurgia endoscópica da coluna.

Em determinados procedimentos, em vez de realizar grandes incisões e afastamentos musculares extensos, o cirurgião utiliza pequenos acessos e uma câmera endoscópica para visualizar diretamente a região tratada.

O objetivo das técnicas minimamente invasivas é reduzir o trauma necessário para chegar até o problema.

“Quando conseguimos associar precisão tecnológica a acessos menores, buscamos preservar mais musculatura e tecidos durante o procedimento. É uma evolução importante porque não estamos olhando apenas para o que precisa ser corrigido, mas também para a forma menos agressiva de chegar até lá”, afirma Larocca.

Isso não significa, entretanto, que todo problema de coluna deva ser tratado por robótica ou endoscopia. A escolha depende da doença, da anatomia, da complexidade do caso e da indicação médica.


Mais tecnologia também exige mais treinamento

A chegada de robôs às salas cirúrgicas pode transmitir a impressão de que os procedimentos ficaram mais simples. Na prática, ocorre o contrário. Quanto mais sofisticados os equipamentos, maior é a necessidade de o médico compreender suas possibilidades, seus limites e a forma correta de utilizá-los.

É por isso que treinamentos especializados, inclusive com simulações e práticas cirúrgicas, tornaram-se parte importante da formação de profissionais que trabalham com essas tecnologias.

Para Larocca, acompanhar essas mudanças diretamente nos centros onde elas estão sendo desenvolvidas e aplicadas ajuda a separar inovação real de simples novidade tecnológica.

“A cirurgia da coluna vive um momento de transformação. Precisamos acompanhar essa evolução de perto, conhecer as evidências, entender as limitações e trazer para o Brasil aquilo que realmente agrega valor ao tratamento dos pacientes”, destaca.


O cirurgião continua no comando

Embora inteligência artificial e robótica sejam frequentemente associadas à substituição de atividades humanas, a realidade atual da cirurgia é bastante diferente.

O médico continua responsável pelo diagnóstico, pela indicação da cirurgia, pelo planejamento, pelas decisões tomadas durante o procedimento e pela avaliação do resultado. O robô executa funções previamente determinadas dentro de parâmetros controlados.

Na prática, portanto, a pergunta mais adequada talvez não seja quando os robôs irão substituir os cirurgiões, mas até onde a combinação entre experiência médica e máquinas cada vez mais precisas poderá levar a cirurgia.

Para o especialista, esse deve ser também o critério para decidir quando incorporar uma nova tecnologia. “Nosso objetivo não é utilizar tecnologia simplesmente porque ela existe. É incorporar novas ferramentas com responsabilidade, baseadas em evidência científica e com foco naquilo que realmente importa: oferecer tratamentos mais seguros, mais precisos e com melhores resultados para os pacientes”, conclui.


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