Cirurgião brasileiro que participou de treinamento em San Diego explica como robótica, neuronavegação e endoscopia estão mudando procedimentos na coluna e por que a tecnologia não significa substituir o especialista
Robôs capazes de ajudar a definir trajetórias de
instrumentos, sistemas que mostram ao cirurgião onde ele está dentro da
anatomia do paciente e câmeras que permitem operar a coluna por acessos cada
vez menores. O que até poucos anos atrás parecia cenário de ficção científica
começa a fazer parte da rotina de centros especializados em cirurgia da coluna.
Mas isso não significa que um robô esteja prestes a
assumir o lugar do médico na sala de cirurgia.
A nova geração de tecnologias funciona principalmente
como uma extensão da capacidade do cirurgião: ajuda a planejar o procedimento,
localizar estruturas anatômicas e reproduzir com maior precisão aquilo que foi
definido antes e durante a operação.
Essa integração entre robótica, neuronavegação e cirurgia endoscópica foi
um dos focos de uma masterclass realizada nos dias 14 e 15 de agosto, em San
Diego, nos Estados Unidos. O cirurgião Dr.
Álynson Larocca, especialista em cirurgia da coluna e em técnicas
minimamente invasivas para o tratamento de doenças da coluna vertebral,
participou do treinamento.
Segundo ele, a evolução observada nos últimos anos mostra
que a robótica deixou de ser apenas uma promessa tecnológica.
“Hoje, a robótica passa a ser uma ferramenta cada vez
mais integrada ao ato cirúrgico, especialmente quando associada à
neuronavegação e às técnicas minimamente invasivas. O mais importante é
entender que o robô não substitui o cirurgião. A decisão continua sendo
exclusivamente médica”, afirma o especialista.
Mas o que o robô faz, afinal?
Em uma cirurgia convencional, o médico utiliza exames de
imagem, referências anatômicas e sua experiência para determinar, por exemplo,
a trajetória de um implante.
Com sistemas de neuronavegação, esse processo passa a
contar com uma espécie de “GPS cirúrgico”. Imagens da anatomia do paciente são
utilizadas para orientar, em tempo real, a posição e o caminho dos
instrumentos.
A robótica acrescenta outra camada a esse processo.
Depois que o cirurgião define onde pretende chegar e qual será a trajetória, o
sistema pode ajudá-lo a manter o instrumental dentro desse planejamento.
A ideia não é delegar decisões à máquina, mas diminuir
variações durante a execução.
“O que a tecnologia faz é ampliar nossa capacidade de
executar o planejamento com mais precisão. Isso pode aumentar a segurança,
melhorar o posicionamento dos implantes e trazer mais previsibilidade ao
procedimento”, explica Larocca.
A precisão é particularmente importante em cirurgias da
coluna porque o médico trabalha próximo a estruturas delicadas, como raízes
nervosas, medula, vasos sanguíneos e outros tecidos que precisam ser
preservados.
Cirurgias por acessos cada vez menores
Outro avanço ocorre quando essas tecnologias são
combinadas com a cirurgia endoscópica da coluna.
Em determinados procedimentos, em vez de realizar grandes
incisões e afastamentos musculares extensos, o cirurgião utiliza pequenos
acessos e uma câmera endoscópica para visualizar diretamente a região tratada.
O objetivo das técnicas minimamente invasivas é reduzir o
trauma necessário para chegar até o problema.
“Quando conseguimos associar precisão tecnológica a
acessos menores, buscamos preservar mais musculatura e tecidos durante o
procedimento. É uma evolução importante porque não estamos olhando apenas para
o que precisa ser corrigido, mas também para a forma menos agressiva de chegar
até lá”, afirma Larocca.
Isso não significa, entretanto, que todo problema de
coluna deva ser tratado por robótica ou endoscopia. A escolha depende da
doença, da anatomia, da complexidade do caso e da indicação médica.
Mais tecnologia também exige mais treinamento
A chegada de robôs às salas cirúrgicas pode transmitir a
impressão de que os procedimentos ficaram mais simples. Na prática, ocorre o contrário.
Quanto mais sofisticados os equipamentos, maior é a necessidade de o médico
compreender suas possibilidades, seus limites e a forma correta de utilizá-los.
É por isso que treinamentos especializados, inclusive com
simulações e práticas cirúrgicas, tornaram-se parte importante da formação de
profissionais que trabalham com essas tecnologias.
Para Larocca, acompanhar essas mudanças diretamente nos
centros onde elas estão sendo desenvolvidas e aplicadas ajuda a separar
inovação real de simples novidade tecnológica.
“A cirurgia da coluna vive um momento de transformação.
Precisamos acompanhar essa evolução de perto, conhecer as evidências, entender
as limitações e trazer para o Brasil aquilo que realmente agrega valor ao
tratamento dos pacientes”, destaca.
O cirurgião continua no comando
Embora inteligência artificial e robótica sejam
frequentemente associadas à substituição de atividades humanas, a realidade
atual da cirurgia é bastante diferente.
O médico continua responsável pelo diagnóstico, pela indicação
da cirurgia, pelo planejamento, pelas decisões tomadas durante o procedimento e
pela avaliação do resultado. O robô executa funções previamente determinadas
dentro de parâmetros controlados.
Na prática, portanto, a pergunta mais adequada talvez não
seja quando os robôs irão substituir os cirurgiões, mas até onde a combinação entre experiência médica
e máquinas cada vez mais precisas poderá levar a cirurgia.
Para o especialista, esse deve ser também o critério para
decidir quando incorporar uma nova tecnologia. “Nosso objetivo não é utilizar
tecnologia simplesmente porque ela existe. É incorporar novas ferramentas com
responsabilidade, baseadas em evidência científica e com foco naquilo que
realmente importa: oferecer tratamentos mais seguros, mais precisos e com
melhores resultados para os pacientes”, conclui.

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