A curiosidade, não a
expectativa de lucro, é o que mais leva adolescentes brasileiros a apostar
online, segundo o III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas
(Lenad III), feito pela Universidade
Federal de São Paulo (Unifesp) em parceria com o Ministério da Justiça e
Segurança Pública. O estudo mostra que 10,9% dos jovens de 14 a 18 anos já
apostaram, o equivalente a mais de 1 milhão de adolescentes no país, e que 2,2%
desse grupo já apresenta sinais de comportamento problemático ligado ao hábito.
Entre os motivos declarados, a curiosidade lidera com 37% das menções, seguida
da influência do grupo de amigos, com 28%. A expectativa de ganhar dinheiro
aparece só em terceiro lugar, citada por 25% dos jovens, o que ajuda a explicar
por que o primeiro contato com o jogo costuma vir pela porta social, e não pela
promessa financeira.
Para Daiane Fernandes Viana, psicóloga disponível na plataforma Doctoralia, esse padrão reforça a importância de os pais e
responsáveis observarem mudanças de comportamento e manterem o diálogo aberto com
os filhos. “Muitas vezes, o contato com as apostas começa como uma experiência
de curiosidade ou como uma forma de acompanhar o grupo de amigos. O problema
pode surgir quando esse comportamento passa a ocupar um espaço cada vez maior
na rotina e começa a gerar prejuízos”, explica.
Embora a Lei 14.790/2023 proíba menores de 18 anos de participar desse tipo de
aposta, o acesso de adolescentes às plataformas ainda acontece na prática. Por
isso, além da fiscalização e dos mecanismos de proteção adotados pelos próprios
sites, o olhar atento da família pode ser decisivo para identificar cedo
mudanças que mereçam acompanhamento.
Quais sinais podem indicar uma relação problemática com as apostas?
Preocupação constante com o jogo: o adolescente passa a
falar, pesquisar ou planejar apostas com frequência, inclusive fora dos
momentos em que está jogando. Conversas sobre futebol, por exemplo, podem
começar a estar frequentemente associadas a resultados e apostas.
Aumento do tempo ou dos valores apostados: o adolescente
passa a dedicar cada vez mais tempo às apostas ou aumenta os valores envolvidos
em busca da mesma sensação de emoção.
Queda no rendimento e isolamento: piora no desempenho
escolar, abandono de atividades que antes despertavam interesse e redução do convívio
presencial podem ser sinais de alerta quando aparecem associados a outras
mudanças.
Sigilo ou mentiras relacionadas a dinheiro: esconder
notificações no celular, omitir o uso de aplicativos, pedir dinheiro emprestado
sem explicar claramente o motivo ou negar que esteja apostando podem indicar
que existe algo a ser investigado.
Mudanças de humor ligadas ao jogo: irritação, ansiedade
ou agitação quando não consegue apostar ou após uma perda, assim como euforia
desproporcional depois de uma vitória, também merecem atenção.
Como os pais e responsáveis podem agir?
A identificação desses sinais não significa, isoladamente, que o adolescente
tenha um transtorno. O mais importante é observar a frequência e a intensidade
dos comportamentos e, principalmente, se eles estão provocando impactos na vida
escolar, familiar, social ou emocional.
“É importante que os pais e responsáveis não abordem o assunto apenas a partir
da punição. Perguntar sobre o contato com as apostas, entender como o
adolescente conheceu as plataformas e conversar sobre os riscos pode abrir
espaço para que ele fale sobre o que está acontecendo”, orienta a especialista.
Quando houver perda de controle, prejuízos na rotina, conflitos familiares ou
sofrimento emocional relacionados às apostas, a recomendação é buscar avaliação
de um profissional de saúde mental.
Buscar esse tipo de apoio tende a ser mais natural para essa geração do que foi
para as anteriores. Segundo o Perfil do Paciente Digital, levantamento feito pela Doctoralia com usuários
da plataforma no Brasil mostra que o público mais jovem, faixa que inclui os
adolescentes de hoje, usa serviços de psicologia e psiquiatria de 2 a 3 vezes
mais do que adultos com mais de 60 anos, e que o estigma em torno da terapia
vem caindo, principalmente entre a Geração Z e os millennials.
Para os pais, isso é um sinal de que abrir essa conversa com o filho tende a
encontrar menos resistência do que encontraria há uma geração.

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