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sábado, 29 de agosto de 2026

Não é pelo dinheiro: curiosidade é o que mais leva adolescentes a apostar online, aponta pesquisa

Levantamento da Unifesp mostra que mais de 1 milhão de jovens de 14 a 18 anos já apostaram no Brasil; psicólogo lista sinais que merecem atenção dos pais e responsáveis

 

A curiosidade, não a expectativa de lucro, é o que mais leva adolescentes brasileiros a apostar online, segundo o III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III), feito pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em parceria com o Ministério da Justiça e Segurança Pública. O estudo mostra que 10,9% dos jovens de 14 a 18 anos já apostaram, o equivalente a mais de 1 milhão de adolescentes no país, e que 2,2% desse grupo já apresenta sinais de comportamento problemático ligado ao hábito.

Entre os motivos declarados, a curiosidade lidera com 37% das menções, seguida da influência do grupo de amigos, com 28%. A expectativa de ganhar dinheiro aparece só em terceiro lugar, citada por 25% dos jovens, o que ajuda a explicar por que o primeiro contato com o jogo costuma vir pela porta social, e não pela promessa financeira.

Para
Daiane Fernandes Viana, psicóloga disponível na plataforma Doctoralia, esse padrão reforça a importância de os pais e responsáveis observarem mudanças de comportamento e manterem o diálogo aberto com os filhos. “Muitas vezes, o contato com as apostas começa como uma experiência de curiosidade ou como uma forma de acompanhar o grupo de amigos. O problema pode surgir quando esse comportamento passa a ocupar um espaço cada vez maior na rotina e começa a gerar prejuízos”, explica.

Embora a Lei 14.790/2023 proíba menores de 18 anos de participar desse tipo de aposta, o acesso de adolescentes às plataformas ainda acontece na prática. Por isso, além da fiscalização e dos mecanismos de proteção adotados pelos próprios sites, o olhar atento da família pode ser decisivo para identificar cedo mudanças que mereçam acompanhamento.



Quais sinais podem indicar uma relação problemática com as apostas?

Preocupação constante com o jogo: o adolescente passa a falar, pesquisar ou planejar apostas com frequência, inclusive fora dos momentos em que está jogando. Conversas sobre futebol, por exemplo, podem começar a estar frequentemente associadas a resultados e apostas.

Aumento do tempo ou dos valores apostados: o adolescente passa a dedicar cada vez mais tempo às apostas ou aumenta os valores envolvidos em busca da mesma sensação de emoção.

Queda no rendimento e isolamento: piora no desempenho escolar, abandono de atividades que antes despertavam interesse e redução do convívio presencial podem ser sinais de alerta quando aparecem associados a outras mudanças.

Sigilo ou mentiras relacionadas a dinheiro: esconder notificações no celular, omitir o uso de aplicativos, pedir dinheiro emprestado sem explicar claramente o motivo ou negar que esteja apostando podem indicar que existe algo a ser investigado.

Mudanças de humor ligadas ao jogo: irritação, ansiedade ou agitação quando não consegue apostar ou após uma perda, assim como euforia desproporcional depois de uma vitória, também merecem atenção.

Como os pais e responsáveis podem agir?

A identificação desses sinais não significa, isoladamente, que o adolescente tenha um transtorno. O mais importante é observar a frequência e a intensidade dos comportamentos e, principalmente, se eles estão provocando impactos na vida escolar, familiar, social ou emocional.

“É importante que os pais e responsáveis não abordem o assunto apenas a partir da punição. Perguntar sobre o contato com as apostas, entender como o adolescente conheceu as plataformas e conversar sobre os riscos pode abrir espaço para que ele fale sobre o que está acontecendo”, orienta a especialista.

Quando houver perda de controle, prejuízos na rotina, conflitos familiares ou sofrimento emocional relacionados às apostas, a recomendação é buscar avaliação de um profissional de saúde mental.

Buscar esse tipo de apoio tende a ser mais natural para essa geração do que foi para as anteriores. Segundo o
Perfil do Paciente Digital, levantamento feito pela Doctoralia com usuários da plataforma no Brasil mostra que o público mais jovem, faixa que inclui os adolescentes de hoje, usa serviços de psicologia e psiquiatria de 2 a 3 vezes mais do que adultos com mais de 60 anos, e que o estigma em torno da terapia vem caindo, principalmente entre a Geração Z e os millennials.

Para os pais, isso é um sinal de que abrir essa conversa com o filho tende a encontrar menos resistência do que encontraria há uma geração.

 

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