Mesmo com os mesmos pais e a mesma história
familiar, cada filho recebe uma combinação única de DNA, o que pode trazer
surpresas em um teste de ancestralidade
Um
sobrenome italiano, histórias sobre um bisavô português ou lembranças de
parentes que vieram de outros lugares. Muitas famílias guardam pistas sobre
suas origens em documentos, fotografias ou relatos que atravessam gerações. Mas
existe uma parte dessa história que está no DNA. E uma delas surge quando
irmãos fazem testes de ancestralidade.
Mesmo
sendo filhos do mesmo pai e da mesma mãe, os resultados de um teste de ancestralidade
não precisam ser iguais. Um pode apresentar uma proporção maior de determinada
ancestralidade do que o outro.
Essa
diversidade genética ganha contornos ainda mais interessantes em um país
marcado pela miscigenação. Um estudo publicado em 2026 na revista científica Scientific
Reports, por exemplo, analisou marcadores genéticos de 302 indígenas de
populações do Norte e Centro-Oeste do Brasil e encontrou diferenças expressivas
entre os grupos estudados. A ancestralidade ameríndia estimada variou de 47,1%
entre Jaguapiru e Bororó a 74,1% entre os Tiriyó, além de diferentes proporções
de ancestralidade europeia e africana.1
Dentro
de uma mesma família, porém, outro mecanismo entra em cena. A explicação está
na maneira como herdamos nosso material genético: cada filho recebe
aproximadamente 50% do DNA da mãe e 50% do pai, mas as partes transmitidas não
são necessariamente as mesmas. Durante a formação dos óvulos e espermatozoides,
segmentos dos cromossomos são reorganizados. A cada gestação, surge uma nova
composição.
“Quando
falamos que dois irmãos recebem metade do DNA da mãe e metade do pai, é fácil
imaginar que essa divisão seja igual para todos os filhos, mas não é assim que
acontece. Cada um recebe uma combinação própria e, por isso, um irmão pode
carregar mais segmentos associados a determinada ancestralidade do que o
outro”, explica Ricardo Di Lazzaro, médico doutor em genética e fundador de
Genera, marca da Dasa.
Carga
genética não está somente na aparência
A
recombinação genética também ajuda a entender por que irmãos podem ter
predisposições diferentes para algumas condições de saúde presentes na família.
Cada filho herda uma combinação própria de variantes dos pais. Em doenças
comuns e multifatoriais, como diabetes tipo 2 e hipertensão, essa herança
genética é apenas uma parte do risco, que também sofre influência de hábitos,
ambiente e outros fatores.
A
ancestralidade pode trazer outras pistas. Algumas variantes associadas a
doenças são mais frequentes em determinadas populações. A fibrose cística, por
exemplo, tem maior frequência em populações de ancestralidade europeia,
enquanto a doença falciforme é mais frequente em pessoas com ancestralidade
africana. Isso não significa que essas condições sejam exclusivas desses
grupos, nem que a ancestralidade, sozinha, determine quem desenvolverá uma
doença.
“A
aparência também não revela todas as nossas origens. Cor da pele, textura do
cabelo, formato dos olhos e outras características correspondem a uma parcela
das informações presentes no genoma. Irmãos podem herdar combinações diferentes
de variantes genéticas, inclusive algumas relacionadas à saúde. Por isso,
compartilhar os mesmos pais não significa ter exatamente as mesmas
predisposições genéticas”, afirma Di Lazzaro.
O que o teste
pode mostrar?
Segundo
a Dra. Fernanda Soardi, consultora em genética e genômica do Lustosa, marca
Dasa em Minas Gerais, os testes de ancestralidade analisam milhares de
marcadores distribuídos pelo DNA e os comparam com bancos genéticos de
populações de diferentes regiões do mundo. O resultado pode apontar, em
percentuais, componentes de ancestralidade que nem sempre aparecem nos relatos
familiares ou são percebidos pela aparência. Esses percentuais são estimativas
e podem variar de acordo com as populações utilizadas como referência na
análise.
“No
Brasil, essa investigação pode trazer resultados especialmente diversos. A
formação da população brasileira reúne séculos de encontros entre povos
indígenas, africanos, europeus e grupos que chegaram ao país em diferentes
movimentos migratórios”, conclui a geneticista.
Referência:
Nenhum comentário:
Postar um comentário