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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Irmãos podem ter ancestralidades diferentes? A genética explica

Mesmo com os mesmos pais e a mesma história familiar, cada filho recebe uma combinação única de DNA, o que pode trazer surpresas em um teste de ancestralidade

 

Um sobrenome italiano, histórias sobre um bisavô português ou lembranças de parentes que vieram de outros lugares. Muitas famílias guardam pistas sobre suas origens em documentos, fotografias ou relatos que atravessam gerações. Mas existe uma parte dessa história que está no DNA. E uma delas surge quando irmãos fazem testes de ancestralidade. 

Mesmo sendo filhos do mesmo pai e da mesma mãe, os resultados de um teste de ancestralidade não precisam ser iguais. Um pode apresentar uma proporção maior de determinada ancestralidade do que o outro.

Essa diversidade genética ganha contornos ainda mais interessantes em um país marcado pela miscigenação. Um estudo publicado em 2026 na revista científica Scientific Reports, por exemplo, analisou marcadores genéticos de 302 indígenas de populações do Norte e Centro-Oeste do Brasil e encontrou diferenças expressivas entre os grupos estudados. A ancestralidade ameríndia estimada variou de 47,1% entre Jaguapiru e Bororó a 74,1% entre os Tiriyó, além de diferentes proporções de ancestralidade europeia e africana.1 

Dentro de uma mesma família, porém, outro mecanismo entra em cena. A explicação está na maneira como herdamos nosso material genético: cada filho recebe aproximadamente 50% do DNA da mãe e 50% do pai, mas as partes transmitidas não são necessariamente as mesmas. Durante a formação dos óvulos e espermatozoides, segmentos dos cromossomos são reorganizados. A cada gestação, surge uma nova composição. 

“Quando falamos que dois irmãos recebem metade do DNA da mãe e metade do pai, é fácil imaginar que essa divisão seja igual para todos os filhos, mas não é assim que acontece. Cada um recebe uma combinação própria e, por isso, um irmão pode carregar mais segmentos associados a determinada ancestralidade do que o outro”, explica Ricardo Di Lazzaro, médico doutor em genética e fundador de Genera, marca da Dasa.
 

Carga genética não está somente na aparência 

A recombinação genética também ajuda a entender por que irmãos podem ter predisposições diferentes para algumas condições de saúde presentes na família. Cada filho herda uma combinação própria de variantes dos pais. Em doenças comuns e multifatoriais, como diabetes tipo 2 e hipertensão, essa herança genética é apenas uma parte do risco, que também sofre influência de hábitos, ambiente e outros fatores. 

A ancestralidade pode trazer outras pistas. Algumas variantes associadas a doenças são mais frequentes em determinadas populações. A fibrose cística, por exemplo, tem maior frequência em populações de ancestralidade europeia, enquanto a doença falciforme é mais frequente em pessoas com ancestralidade africana. Isso não significa que essas condições sejam exclusivas desses grupos, nem que a ancestralidade, sozinha, determine quem desenvolverá uma doença. 

“A aparência também não revela todas as nossas origens. Cor da pele, textura do cabelo, formato dos olhos e outras características correspondem a uma parcela das informações presentes no genoma. Irmãos podem herdar combinações diferentes de variantes genéticas, inclusive algumas relacionadas à saúde. Por isso, compartilhar os mesmos pais não significa ter exatamente as mesmas predisposições genéticas”, afirma Di Lazzaro.
 

O que o teste pode mostrar? 

Segundo a Dra. Fernanda Soardi, consultora em genética e genômica do Lustosa, marca Dasa em Minas Gerais, os testes de ancestralidade analisam milhares de marcadores distribuídos pelo DNA e os comparam com bancos genéticos de populações de diferentes regiões do mundo. O resultado pode apontar, em percentuais, componentes de ancestralidade que nem sempre aparecem nos relatos familiares ou são percebidos pela aparência. Esses percentuais são estimativas e podem variar de acordo com as populações utilizadas como referência na análise. 

“No Brasil, essa investigação pode trazer resultados especialmente diversos. A formação da população brasileira reúne séculos de encontros entre povos indígenas, africanos, europeus e grupos que chegaram ao país em diferentes movimentos migratórios”, conclui a geneticista.
 

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