No Dia Nacional do Perdão (30/08), psicóloga e psiquiatra explicam como o cérebro lida com mágoas e experiências dolorosas
Uma experiência dolorosa pode terminar, mas
seus efeitos emocionais nem sempre desaparecem com ela. Traições, rejeições,
injustiças, humilhações e quebras de confiança podem permanecer na memória e
continuar provocando emoções mesmo muito tempo depois. Para a psicologia, o
perdão não significa simplesmente esquecer ou seguir em frente, mas elaborar o
que aconteceu e, gradualmente, mudar a relação com a experiência e os
sentimentos associados a ela, sem minimizar a dor ou retirar a responsabilidade
de quem causou o dano.
Segundo a Dra. Mariana Ramos, professora de
Psicologia da Afya Centro Universitário Itaperuna, o perdão é um processo
interno que pode ajudar a reduzir a ruminação e o estresse associados à mágoa.
“Perdoar não significa esquecer o que aconteceu nem aceitar comportamentos
abusivos. Na psicologia, entendemos o perdão como um processo interno de
reorganização emocional. Quando a pessoa deixa de alimentar continuamente
sentimentos de mágoa e desejo de vingança, pode haver redução da ruminação
mental e do estresse. Esse movimento favorece um estado emocional mais
equilibrado e pode repercutir positivamente nos sistemas cerebrais envolvidos
na regulação das emoções, no bem-estar e na motivação”, explica.
Perdoar
não é esquecer
De acordo com a psicóloga, uma das principais
confusões sobre o perdão é associá-lo ao esquecimento. Memória e perdão são
processos diferentes: é possível lembrar de uma situação dolorosa sem continuar
reagindo a ela com a mesma intensidade emocional. “O objetivo da elaboração
emocional não é necessariamente fazer a experiência desaparecer, mas permitir
que ela ocupe outro lugar na história da pessoa. Algumas lembranças, inclusive,
têm uma função adaptativa: ajudam a reconhecer limites, identificar situações
de risco e fazer escolhas diferentes no futuro”, pontua a especialista.
Nesse processo, a aceitação também tem um
papel importante. Ela não significa concordar com o que aconteceu ou considerar
aceitável o comportamento de quem causou o dano, mas reconhecer a realidade da
situação, seus impactos e aquilo que está ou não sob o próprio controle. “Posso
me lembrar do que aconteceu sem precisar reviver emocionalmente aquilo como se
estivesse acontecendo novamente”, afirma.
Essa compreensão também ajuda a diferenciar
perdão de reconciliação. Enquanto o primeiro pode ser um processo interno,
reconstruir uma relação depende de fatores como reconhecimento do dano,
responsabilização, mudança de comportamento, segurança e reconstrução da
confiança. Por isso, é possível elaborar o que aconteceu e seguir a própria
vida sem retomar o vínculo com quem causou a dor. A diferença é especialmente
importante em situações de violência e abuso. Perdoar não significa abandonar
medidas de proteção, voltar a uma relação prejudicial ou devolver a alguém o
acesso que essa pessoa perdeu por causa de seus próprios comportamentos.
O
que acontece no cérebro?
O perdão não está relacionado a uma única
região cerebral. A elaboração de situações dolorosas envolve diferentes
sistemas ligados à regulação emocional, memória, cognição social, tomada de
perspectiva e controle das respostas emocionais.
Quando uma pessoa passa por uma situação
marcante, a experiência pode ser associada a emoções e a estímulos presentes
naquele momento. Por isso, situações semelhantes podem posteriormente despertar
medo, raiva, desconfiança ou necessidade de proteção. A dificuldade pode surgir
quando a lembrança permanece acompanhada de pensamentos repetitivos, como “por
que fizeram isso comigo?” ou “como alguém pôde fazer isso?”. A ruminação pode
manter a pessoa emocionalmente conectada ao acontecimento e contribuir para a
manutenção do sofrimento psicológico.
Do ponto de vista psiquiátrico, experiências
emocionalmente marcantes também podem permanecer associadas a respostas de
alerta mesmo depois que a situação terminou. Segundo o especialista, isso
ocorre porque memória e emoção estão profundamente relacionadas. “A reação de
alerta pode continuar depois de um evento intensamente estressante, seja ele
qual for. Isso é mais comum de acontecer em situações onde a intensidade do
estresse é mais significativa. A gente vê isso do ponto de vista patológico, de
forma mais clara, em transtornos como o transtorno de estresse pós-traumático,
onde a pessoa continua por um longo período revivendo e se mantendo alerta,
tudo que aconteceu dentro do evento traumático estressante.”
A relação entre memória e emoção ajuda a
explicar por que determinadas experiências permanecem tão vivas. Segundo o
médico Dr. Rodrigo Schettino, professor da pós-graduação em Psiquiatria na Afya
Educação Médica Itaperuna “Memória e emoção estão relacionadas. Inclusive,
uma das estratégias que recomendamos durante os estudos é que duas formas
de aprendizado sejam associadas: uma através da repetição e outra por
meio da emoção. Provavelmente, você se recorda do seu primeiro beijo, da
primeira vez que você entrou na escola, e assim vai. Situações que promovem
muita emoção tendem a fazer com que a memória seja consolidada mais
facilmente”, explica o especialista.
Isso não significa, porém, que toda lembrança
dolorosa representa um problema psiquiátrico. A reação de alerta faz parte dos
mecanismos de proteção do organismo e pode ser mais intensa ou persistente
dependendo da natureza e da gravidade da experiência.
A elaboração pode ajudar a modificar a
relação com o passado, reorganizando seus significados e favorecendo formas
mais adaptativas de lidar com as emoções. “O cérebro não possui um ‘centro do
perdão’. O que ocorre é uma interação entre diferentes regiões responsáveis por
memória, emoção, empatia e tomada de decisão. Quando o indivíduo consegue
reinterpretar uma experiência negativa e diminuir a intensidade do
ressentimento, esses circuitos podem funcionar de maneira mais equilibrada”,
explica a psicóloga.
Qual
é o papel da dopamina?
A relação entre perdão e dopamina precisa ser
vista com cautela. O neurotransmissor participa de circuitos relacionados à
recompensa, motivação, aprendizagem e tomada de decisão, mas não há evidência
de que perdoar provoque simplesmente um “banho de dopamina”.
Hoje, a dopamina é compreendida para além da
ideia de uma substância ligada ao prazer. Ela participa de processos pelos
quais o cérebro aprende com experiências, atribui valor a estímulos e orienta
comportamentos motivados por recompensas.
Segundo o psiquiatra,não é adequado
estabelecer uma relação direta e simples entre perdoar e aumentar a dopamina.
“A dopamina não deve ser entendida como um neurotransmissor responsável apenas
pelo prazer ou pela felicidade. Ela participa de processos muito mais amplos,
como motivação, aprendizagem, atribuição de valor às experiências e
direcionamento do comportamento. Por isso, não é adequado dizer que o perdão
simplesmente aumenta a dopamina e, por consequência, produz bem-estar. A
experiência emocional é muito mais complexa e envolve a interação entre
diferentes sistemas cerebrais e neurotransmissores.”
A experiência de perdoar também pode variar
bastante de uma pessoa para outra. Em algumas situações, elaborar uma mágoa
pode estar associado a uma sensação de alívio e redução da tensão. Em outras, a
ideia de perdoar pode provocar desconforto ou até intensificar o estresse,
especialmente quando envolve pressão para retomar uma relação, minimizar o dano
ou abrir mão de limites importantes.
Uma revisão sistemática e meta-análise
publicada em 2025 na revista JAMA Psychiatry, que reuniu dados de
102 estudos, encontrou associação entre a dopamina e processos de aprendizagem
por recompensa e sensibilidade à recompensa. No caso do perdão, portanto, o
neurotransmissor pode participar de mecanismos relacionados à motivação e à
aprendizagem, mas não deve ser apontado como responsável isolado pela sensação
de alívio que algumas pessoas experimentam.
Para a psicóloga, a questão central está
menos em “obrigar-se” a perdoar e mais em compreender o que a experiência
provoca emocionalmente. “A saúde mental depende da forma como processamos
nossas emoções. Quando conseguimos elaborar uma experiência dolorosa e reduzir
a carga emocional associada a ela, diminuímos o estado de alerta constante do
organismo. Esse processo pode contribuir para reduzir o sofrimento emocional e
melhorar a qualidade de vida.”
Perdoar,
ansiedade e estresse
A relação entre perdão e saúde mental também
exige cautela. Guardar ressentimento não significa, necessariamente,
desenvolver ansiedade ou depressão, assim como perdoar não deve ser apresentado
como tratamento para esses transtornos. Ainda assim, a ruminação, a
hostilidade, os pensamentos de vingança e a reativação frequente de situações dolorosas
podem contribuir para a manutenção do sofrimento psicológico. Nesse
contexto, a terapia pode ser uma importante aliada, ajudando a reconhecer
pensamentos automáticos, compreender emoções, identificar crenças construídas a
partir da experiência e desenvolver formas mais adaptativas de lidar com o que
aconteceu.
Depois de uma traição, por exemplo, alguém
pode concluir que “não pode confiar em ninguém”. Embora esse pensamento possa
surgir inicialmente como uma tentativa de proteção, quando generalizado para
todos os relacionamentos, ele pode favorecer a esquiva, a hipervigilância e a
dificuldade de estabelecer novos vínculos. Elaborar essa experiência não
significa apagar a dor, justificar o que aconteceu ou voltar a confiar
indiscriminadamente, mas encontrar uma forma mais equilibrada de seguir em
frente. Isso envolve reconhecer o que foi vivido, aprender com a experiência,
estabelecer limites e, gradualmente, compreender que uma decepção não precisa
definir a maneira como a pessoa se relaciona com o mundo e consigo mesma.

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