Deslocamento faz parte da rotina, mas seu impacto no corpo e na mente ainda é subestimado
Rio é a cidade em que o brasileiro
passa mais tempo em trânsito; psicólogo explica como esse esforço diário fora
do trabalho impacta a disposição e o bem-estar e dá dicas para amenizar os
efeitos
Passar horas no trânsito já faz parte da rotina de milhões de
brasileiros. Entre congestionamentos, longos trajetos e o transporte público
lotado, o tempo gasto nos deslocamentos entre casa e trabalho ocupa uma parcela
cada vez maior do dia. O problema é que esse período costuma ser encarado
apenas como uma consequência da vida nas grandes cidades, enquanto seus
impactos sobre a saúde física e mental permanecem, muitas vezes, em segundo
plano.
Um levantamento da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas
(CNDL), em parceria com o SPC Brasil e o Sebrae, mostra que moradores de grandes
centros urbanos passam, em média, o equivalente a 21 dias por ano no trânsito.
No Rio de Janeiro, a situação é ainda mais desafiadora. De acordo com um estudo
do aplicativo de mobilidade Moovit, o tempo médio do deslocamento entre casa e
trabalho na Região Metropolitana chega a 58 minutos por trajeto. Entre os
usuários do transporte público, 11% passam duas horas ou mais em cada viagem,
fazendo com que o tempo diário no trânsito possa ultrapassar quatro horas, o
maior registrado no país.
Segundo Carlos Júnior, profissional de psicologia do AmorSaúde,
rede de clínicas parceiras do Cartão de TODOS, o deslocamento não deve ser
visto apenas como um intervalo entre uma atividade e outra. “Múltiplos fatores
estão envolvidos nesse processo, entre eles a insegurança diante de condições
externas, a imprevisibilidade dos horários dos transportes coletivos e o
desconforto durante o trajeto, como a ausência de ar-condicionado, os ruídos
excessivos e a superlotação”, afirma.
O psicólogo destaca que, quanto mais tempo gasto no deslocamento,
menor tende a ser o tempo disponível para atividades importantes, como
descanso, lazer, prática de exercícios físicos, alimentação adequada e
convivência social. A longo prazo, esse desequilíbrio pode comprometer a
disposição e a qualidade de vida.
Quando o cansaço começa antes mesmo do expediente
De acordo com o profissional, os primeiros sinais de que o deslocamento está afetando o bem-estar emocional podem aparecer antes mesmo do início da jornada de trabalho. “O indivíduo pode perceber que a rotina está excessivamente concentrada no trabalho e no deslocamento, restando pouco tempo ou energia para o lazer, a convivência social e o autocuidado”, explica. Entre os principais sinais de alerta, estão:
- Irritabilidade frequente;
- Impaciência durante a rotina;
- Cansaço antes mesmo do início do expediente;
- Falta de disposição para atividades fora do trabalho;
- Sensação de que o dia se resume ao deslocamento e às
obrigações profissionais.
Os efeitos do trânsito vão além do estresse
Carlos ressalta que o impacto dos deslocamentos prolongados não se limita ao desconforto durante o trajeto, pelo contrário, diferentes áreas da vida podem ser afetadas.
- Trabalho: o excesso de tempo no trânsito pode reduzir a concentração,
a produtividade e o interesse pelas atividades profissionais.
- Relacionamentos: o desgaste com o deslocamento pode favorecer o isolamento, a
redução da energia para interações sociais e até a diminuição da libido.
- Sono: as noites de sono podem sofrer consequências importantes, já
que "o estresse se torna cíclico, porque a pessoa não consegue
recarregar a energia”, afirma Carlos.
Como tornar o deslocamento menos desgastante
Embora nem sempre seja possível reduzir o tempo gasto no trânsito, algumas estratégias podem ajudar a diminuir os impactos da rotina. O psicólogo recomenda:
1) Evitar transformar o trajeto em uma extensão do trabalho, ou seja, não utilizar o tempo no transporte público ou de aplicativo para resolver demandas no celular ou notebook.
2) Manter uma alimentação equilibrada ao longo do dia, para que não falte energia para as horas em deslocamento;
3) Cuidar da hidratação, principalmente em períodos quentes e secos, já que durante o deslocamento o acesso à fonte de água é limitado;
4) Reservar tempo para atividades prazerosas para não fazer da vida um looping entre acordar, pegar trânsito, ir e voltar do trabalho e dormir;
5) Buscar momentos de desconexão das demandas profissionais e
conexão com relações sociais.
Quando procurar ajuda profissional?
O acompanhamento profissional pode ser importante e recomendado
quando o desgaste provocado pelo deslocamento começa a afetar diferentes
aspectos da vida. Entre os alertas, estão esgotamento constante, ansiedade
persistente, alterações de humor, apatia e insônia.

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