Especialista do Hospital e Maternidade
Santa Joana alerta que gravidez e pós-parto aumentam significativamente o risco
da doença e reforça a importância de reconhecer os sinais de alerta
A gestação é marcada por uma série de adaptações fisiológicas
essenciais para o desenvolvimento do bebê e para preparar o organismo da mulher
para o parto. Entre essas mudanças está o aumento natural da capacidade de
coagulação do sangue, um mecanismo de proteção contra hemorragias, mas que
também eleva significativamente o risco de trombose. Considerada uma das
principais causas de morbidade e mortalidade materna no mundo, a doença exige
atenção desde o início do pré-natal e continua sendo uma preocupação durante
todo o puerpério, especialmente nas primeiras seis semanas após o nascimento do
bebê.
De acordo com o Ministério da Saúde, mulheres grávidas têm um risco
até seis vezes maior de desenvolver trombose quando comparadas à população
feminina da mesma faixa etária. No pós-parto, esse risco pode ser até 15 vezes
maior, sobretudo em razão das alterações hormonais, do aumento dos fatores de
coagulação, da compressão das veias pelo útero durante a gestação e da redução
da mobilidade, principalmente após cesarianas ou internações prolongadas.
A forma mais comum da doença é a trombose venosa profunda (TVP),
caracterizada pela formação de um coágulo em uma veia profunda, geralmente nas
pernas. Quando esse trombo se desprende e migra para os pulmões, pode provocar
uma embolia pulmonar, uma complicação grave que requer atendimento imediato.
"O organismo da gestante passa por adaptações para reduzir o
risco de hemorragias durante o parto. Essa proteção fisiológica, porém, torna o
sangue mais propenso à coagulação. Quando esse mecanismo se associa a outros
fatores de risco, aumenta significativamente a possibilidade de formação de trombos.
Por isso, a avaliação individualizada durante o pré-natal é fundamental para
identificar pacientes que necessitam de acompanhamento mais próximo ou de
medidas preventivas específicas", explica Dr. Eduardo Cordioli, diretor
técnico do Hospital e Maternidade Santa Joana.
Embora qualquer gestante possa desenvolver trombose, algumas
condições aumentam ainda mais esse risco. Histórico pessoal ou familiar da
doença, trombofilias hereditárias ou adquiridas, obesidade, idade materna acima
de 35 anos, gestação múltipla, hipertensão, pré-eclâmpsia, tabagismo,
fertilização in vitro, doenças autoimunes, câncer, cesariana e períodos
prolongados de repouso estão entre os principais fatores de atenção. Por isso,
as diretrizes brasileiras recomendam que toda gestante seja submetida a uma
avaliação de risco logo no início do pré-natal, com reavaliações ao longo da
gravidez e também após o parto.
Outro ponto de atenção é que os sintomas podem ser confundidos com
desconfortos comuns da gestação. Dor, sensação de peso e aumento da temperatura
em apenas uma das pernas, além de inchaço unilateral e vermelhidão, merecem
investigação médica. Já sinais como falta de ar súbita, dor intensa no peito,
tosse com sangue ou episódios de desmaio podem indicar uma embolia pulmonar e exigem
atendimento de urgência.
"É comum que a gestante apresente algum grau de inchaço,
principalmente no final da gravidez. No entanto, quando esse edema ocorre
apenas em uma perna, vem acompanhado de dor, vermelhidão ou calor local, não
deve ser encarado como algo normal. O diagnóstico precoce faz toda a diferença
e reduz significativamente o risco de complicações para a mãe e para o
bebê", alerta Cordioli.
O diagnóstico da trombose é realizado por meio da avaliação
clínica e, principalmente, do ultrassom Doppler venoso, exame seguro durante toda
a gestação. Quando há suspeita de embolia pulmonar, exames complementares podem
ser indicados, sempre considerando o melhor equilíbrio entre segurança materna
e fetal.
Quando identificada precocemente, a doença possui tratamento
eficaz. Durante a gestação, o uso de anticoagulantes, especialmente as
heparinas de baixo peso molecular — que não atravessam a placenta — é
considerado seguro e representa o tratamento de escolha. Em muitos casos, a
medicação precisa ser mantida por pelo menos seis semanas após o parto para
reduzir o risco de novos eventos trombóticos.
"A trombose é uma condição potencialmente grave, mas também
altamente prevenível. Hoje contamos com protocolos bem estabelecidos que
permitem identificar mulheres de maior risco, instituir medidas preventivas e
oferecer tratamento seguro durante toda a gestação e no pós-parto. Quanto mais
cedo a doença é diagnosticada, melhores são os desfechos para mãe e bebê",
afirma o especialista.
Além do acompanhamento médico, medidas simples fazem parte da prevenção,
como manter uma boa hidratação, evitar longos períodos na mesma posição,
caminhar regularmente conforme orientação do obstetra, controlar o ganho de
peso e utilizar meias de compressão quando indicadas. Para gestantes
classificadas como de alto risco, a tromboprofilaxia medicamentosa pode ser
necessária, sempre sob orientação da equipe médica.
Para os especialistas, a principal mensagem é que a trombose pode ser silenciosa, mas não deve ser subestimada. Reconhecer precocemente os fatores de risco e os sinais de alerta é essencial para garantir uma gestação mais segura e reduzir uma das principais causas evitáveis de complicações maternas.
Hospital e Maternidade Santa Joana
www.santajoana.com.br
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