Palimpsesto
é o nome dado a um manuscrito antigo em pergaminho reutilizado, material
produzido a partir da pele de animais. O texto anterior era raspado para dar
lugar a uma nova escrita, mas seus vestígios permaneciam.
O corpo
humano pode ser comparado a um palimpsesto, pois também é continuamente
“reescrito”: a maioria das células é substituída por novas, a partir da divisão
de células anteriores (mitose). Aqui vale diferenciar renovação de regeneração.
Quando danificados, a maioria dos tecidos humanos adultos não apresenta
capacidade de regeneração completa.
Antes de
cada divisão, o DNA é replicado e sua informação é transmitida às
células-filhas. As novas células não surgem do nada, porque carregam informação
e componentes herdados das células que as precederam. A medicina
tradicionalmente classifica as células em lábeis, estáveis e permanentes.
Durante muito tempo, estas últimas foram consideradas praticamente incapazes de
voltar a se dividir depois de diferenciadas.
O avanço
das técnicas de estudo celular trouxe nuances a essa classificação. O coração é
um exemplo. Hoje se sabe que existe uma pequena taxa de renovação dos
cardiomiócitos, células musculares responsáveis pela contração cardíaca. A
rotatividade estimada é de cerca de 1% ao ano aos 25 anos e cai para
aproximadamente 0,45% aos 75 anos. Os cardiomiócitos permanecem, portanto,
majoritariamente os mesmos desde o nascimento, embora uma parcela menor seja
renovada ao longo da vida.
A maioria
dos neurônios do córtex cerebral também praticamente não é substituída ao longo
da vida. No cristalino, novas fibras são acrescentadas na periferia, enquanto
as fibras centrais podem permanecer por toda a vida. No outro extremo, as
hemácias circulam por cerca de 120 dias antes de serem substituídas; o epitélio
intestinal se renova em poucos dias e a epiderme, em algumas semanas. Outros
tecidos apresentam ritmos intermediários.
O
organismo, portanto, não possui um único relógio de renovação. Algumas
inscrições biológicas são rapidamente substituídas; outras permanecem por muito
mais tempo e outras quase não se renovam. Essa diferença de ritmos torna a
imagem do palimpsesto especialmente adequada: o novo não surge de uma página em
branco nem apaga completamente aquilo que veio antes.
O que já
foi considerado absolutamente fixo pode revelar movimentos mínimos antes
invisíveis. Ainda assim, em meio às mudanças contínuas do organismo,
preserva-se uma impressão de permanência. É essa continuidade que permite que o
corpo se transforme sem perder os vestígios de sua história.
O corpo é, assim, um palimpsesto biológico. Células e moléculas se sucedem em velocidades diferentes, enquanto informações, estruturas e marcas anteriores permanecem. A identidade do organismo não depende de conservar cada peça original, mas de preservar uma continuidade capaz de atravessar essas transformações. O copo muda sem, por isso, perder sua identidade.
Nenhum comentário:
Postar um comentário