No Brasil, a criopreservação de tecido ovariano é usada há anos para preservar a fertilidade de pacientes com câncer; lá fora, ganha força a hipótese de usar a mesma técnica para adiar a menopausa, algo que ainda está longe de virar realidade no país
A criopreservação
de tecido ovariano não é novidade no país e clínicas de oncofertilidade
recorrem à técnica há anos para preservar a fertilidade de pacientes que
precisam passar por tratamentos como quimioterapia.
“A técnica deixou
de ser considerada experimental em vários países, proporcionou centenas de
nascimentos e funciona principalmente para mulheres que correm risco de perder
a função dos ovários por tratamentos médicos”, diz o ginecologista Edvaldo
Cavalcante, responsável pelo Serviço de Cirurgia Minimamente Invasiva da
Clínica Genics.
Esse uso, no
entanto, segue regras específicas: pelo Parecer CFM nº 5/2021, o congelamento e
o autotransplante de tecido ovariano para preservar funções reprodutivas ou
hormonais só podem ser realizados no país dentro de protocolos de pesquisa
clínica aprovados pelo sistema CEP/Conep. Na prática, isso significa que
nenhuma mulher brasileira consegue hoje buscar o procedimento fora de um estudo
autorizado, muito menos com o objetivo de adiar a menopausa.
A
hipótese que vem de fora
É lá fora que
ganha força uma ideia diferente da que sustenta o uso do procedimento no
Brasil: congelar o tecido ainda jovem e reimplantá-lo por volta dos 50 anos, na
tentativa de atrasar a chegada da menopausa em mulheres saudáveis, sem relação
com câncer ou risco à fertilidade.
A hipótese ganhou
força a partir de um estudo de modelagem matemática publicado em 2024, que
estimou que congelar e depois transplantar tecido ovariano poderia atrasar a
menopausa, com efeito tanto maior quanto mais jovem for a mulher no momento da
coleta do tecido.
Os estudos ainda
são iniciais. “É uma hipótese baseada em modelos matemáticos e em pesquisas
preliminares, não existem apurações clínicas robustas que comprovem o
funcionamento de forma segura em mulheres saudáveis”, diz Cavalcante.
Uma revisão
sistemática publicada em 2022 na revista científica Human Reproduction Open,
que reuniu dados individuais de 85 estudos ao redor do mundo, mostrou que mais
de 70% das mulheres apresentaram retorno da função ovariana cerca de 19 semanas
após o transplante do tecido congelado, com taxas de gravidez de 37% e de
nascimento vivo de 28%, sendo que a maior parte das gestações ocorreu de forma
espontânea.
O levantamento
contabilizou ao menos 189 nascimentos a partir da técnica, número que revisões
internacionais mais recentes já situam acima de 200, mas nenhum deles associado
ao uso eletivo para adiar menopausa. Além de devolver a fertilidade, o
reimplante permite a retomada da produção de estrogênio e progesterona, o que
ajuda a restaurar o ciclo menstrual e a aliviar sintomas da insuficiência
ovariana precoce.
Embora sociedades
internacionais já reconheçam a criopreservação de tecido ovariano como método
estabelecido para determinadas indicações médicas, seu uso eletivo em mulheres
saudáveis para adiar a menopausa ainda é tema de debate, mesmo fora do Brasil:
faltam evidências sobre segurança, duração e benefícios reais em comparação com
a terapia hormonal tradicional e, por isso, não deve ser apresentado como
tratamento rotineiro nem como substituto comprovado dela, afirma o
sócio-fundador da Genics, Philip Wolff.
“Trata-se de uma
área em desenvolvimento que ainda exige pesquisa clínica, acompanhamento de
longo prazo, definição ética e regulatória. Mesmo assim, com otimismo, a
clínica Genics já está se especializando nisso para que, no futuro, seja um
serviço ofertado para a população”, finaliza Wolff.
Fontes citadas: Khattak, H. et al. "Fresh and cryopreserved ovarian tissue transplantation for preserving reproductive and endocrine function: a systematic review and individual patient data meta-analysis". Human Reproduction Open, 2022. Parecer CFM nº 5/2021.

Nenhum comentário:
Postar um comentário