O
aumento dos diagnósticos de neurodivergência trouxe mais informação,
visibilidade e acesso à avaliação especializada. Mas também criou uma nova
preocupação: diante de tantos conteúdos sobre autismo, TDAH e outros
transtornos do neurodesenvolvimento nas redes sociais, como diferenciar um
sinal que merece investigação de um comportamento comum da infância?
Para a psicóloga Fernanda Martins, pós-graduada em Neuropsicologia e especialista em intervenção precoce com crianças autistas, o cuidado começa justamente por não transformar uma característica isolada em diagnóstico. “É muito importante diferenciar informação de identificação. Ter uma característica associada ao autismo, TDAH, enfim, outra condição, não significa automaticamente ter aquele diagnóstico”, alerta.
O debate ganha dimensão diante do crescimento da identificação do Transtorno do Espectro Autista (TEA). Dados do Censo Demográfico do IBGE apontam 2,4 milhões de brasileiros com diagnóstico autodeclarado de autismo, o equivalente a 1,2% da população. Nos Estados Unidos, levantamento do CDC mostra que a prevalência identificada também cresceu significativamente, chegando a uma em cada 36 crianças. Mais do que indicar uma simples “explosão” de casos, os números refletem mudanças na forma como a sociedade reconhece sinais, busca avaliação e compreende o espectro.
O ponto central não seria simplesmente “por que aumentaram os diagnósticos?”, mas o que mudou na maneira de diagnosticar e quais são os riscos de um diagnóstico precipitado. Segundo Fernanda, a atualização dos critérios diagnósticos e a ampliação do conhecimento sobre o autismo contribuíram para que mais pessoas fossem identificadas. Ela lembra que o DSM-5, em 2013, unificou diferentes classificações dentro do Transtorno do Espectro Autista, ampliando a compreensão da condição.
Ao
mesmo tempo, a popularização do tema exige cautela. “Todo mundo pode ter
dificuldade de atenção, ser mais sensível ao som, gostar de rotina,
comportamento repetitivo. Mas o diagnóstico considera um conjunto de
características”, explica a psicóloga. Ela também alerta para o crescimento do
autodiagnóstico a partir de conteúdos publicados nas redes sociais e defende
que o diagnóstico seja construído a partir da história e do funcionamento de
cada pessoa, considerando os impactos na escola, no trabalho, nas relações e na
autonomia.
Diagnóstico não é rótulo
O cuidado é especialmente importante na infância. Dificuldades de comportamento, atenção, sono, alimentação ou interação podem fazer parte de diferentes fases do desenvolvimento e, isoladamente, não significam necessariamente uma condição neurodivergente. Por isso, a avaliação precisa considerar o conjunto de sinais, o histórico da criança e seu funcionamento cotidiano.
Fernanda destaca ainda a importância de uma avaliação especializada. O diagnóstico médico pode contar com o apoio da neuropsicologia, por meio de entrevistas e aplicação de testes que ajudam a esclarecer o quadro quando existem dúvidas. “Quanto mais precoce, melhor é o desenvolvimento da criança, melhor vai ser a intervenção, melhor vai ser o resultado”, afirma.
Mais
do que combater diagnósticos, a proposta é evitar dois extremos: nem banalizar
a neurodivergência, nem ignorar sinais que precisam ser investigados. Como
resume a especialista, a condição não deve ser romantizada como um
“superpoder”, mas também não pode ser tratada como incapacidade. “Existem
potencialidades e dificuldades. Elas variam muito entre as pessoas. Então não
romantizar e nem patologizar”, finaliza.
Rodrigo Brivio & GêDois Curitiba
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