Existe uma diferença importante entre uma empresa
que realmente inova, e outra que apenas encena a inovação. A primeira sabe
aonde quer chegar, e incorpora este conceito em seu planejamento estratégico,
como parte indispensável para obter uma geração de valor. A segunda, por outro
lado, coleciona iniciativas, adota tecnologias da moda e promove discursos
sobre transformação, mas não consegue responder a uma pergunta básica: qual
resultado isso trouxe para o negócio?
Vivemos uma época muito presente de um teatro da
inovação, em que muitas organizações investem em soluções sofisticadas como
inteligência artificial, robótica e outras tecnologias, sem, necessariamente,
definir como contribuirão para a conquista dos objetivos desejados. Muito
movimento aparentemente positivo, mas pouco impacto efetivo, sem uma direção
clara ou critérios para avaliar o que deve avançar, ser ajustado ou abandonado.
Não há nada de errado em testar novas ideias,
experimentar recursos ou assumir riscos. Pelo contrário: a inovação pressupõe,
justamente, a capacidade de explorar caminhos ainda não consolidados, entendendo
o erro como parte deste processo de aprendizado e evolução, e não algo a ser
temido ou evitado. O que não pode acontecer é transformar essa jornada em uma
sequência de medidas desconectadas, sem indicadores capazes de demonstrar seu
impacto.
Se a inovação pretende ser uma alavanca de
crescimento, competitividade e geração de valor para a empresa, ela precisa
ocupar um espaço mais relevante na gestão. Não como um projeto paralelo, mas
como parte do planejamento interno, direcionando desde a governança, ao
estabelecimento das metas desejadas. Do contrário, o que se vê em muitos
negócios é o chamado "voo de galinha": ações que até podem escalar
rapidamente em um primeiro momento, mas que não conseguem se sustentar a longo
prazo.
Dados do levantamento “State of AI 2025”, da
McKinsey, comprovam isso: apesar de 62% das empresas entrevistadas afirmarem já
terem experimentado agentes de IA, quase dois terços relataram que ainda não
começaram a escalar essa tecnologia para além de projetos-piloto, transformando
essas experiências em algo estruturado que gere valor agregado. Ou seja, existe
uma distância relevante entre testar uma tecnologia e fazer com que traga os
resultados esperados.
A inovação, portanto, não pode ser tratada como um
fim em si mesma, mas como um meio utilizado pela organização para alcançar objetivos
concretos: desenvolver novos produtos e serviços, criar fontes de receita,
aprimorar processos, reduzir custos, aumentar a produtividade ou otimizar
aquilo que já existe. A tecnologia, nesse contexto, é uma ferramenta que pode
viabilizar esses avanços, mas não representa, sozinha, uma estratégia
independente nesse sentido.
Dentre tantas metodologias inovadoras capazes de
auxiliar as organizações ao longo dessa jornada, está a ISO de Inovação, metodologia
internacional que estabelece requisitos para a implementação de um sistema de
gestão da inovação, orientando as empresas nos melhores caminhos que podem ser
seguidos. Mais do que estimular a criação de ideias, sua aplicação ajuda a
estruturar processos, responsabilidades e diretrizes para que a inovação esteja
conectada à estratégia e seja conduzida de maneira sistemática.
Na prática, isso passa desde pela definição clara
de onde a empresa pretende chegar, a quais desafios ou oportunidades precisam
ser enfrentados, determinando objetivos específicos a serem conquistados, quais
critérios e indicadores serão utilizados para mensurar as iniciativas adotadas,
para que consigam desenvolver e testar soluções, identificando e decidindo
quais iniciativas devem receber continuidade. É uma mudança importante de perspectiva,
em que ao invés de perguntar apenas "o que podemos criar?", a
organização passa a questionar "qual problema precisamos resolver e qual
resultado queremos alcançar?".
Aqui, a governança de inovação exerce um papel
central, uma vez que é ela que ajuda a estabelecer prioridades, definir
responsabilidades, direcionar recursos e criar mecanismos de acompanhamento
para que essas ações não se percam ao longo do caminho. Isso não significa eliminar
o risco ou exigir que toda iniciativa inovadora tenha retorno financeiro
imediato, mas pressupondo a experimentação e, consequentemente, a possibilidade
de erros e aprendizados, evitando que esses experimentos aconteçam sem
propósito, sem conexão com a estratégia ou sem critérios claros de
acompanhamento.
No fim, evitar o "teatro da inovação"
significa, mais do que investir em tecnologias sofisticadas, criar laboratórios
ou anunciar projetos disruptivos, ter clareza sobre o problema que se pretende
resolver, o resultado que se deseja alcançar e como cada iniciativa contribuirá
para a estratégia do negócio. Quando há um alinhamento verdadeiro entre a
governança, direcionamento e capacidade de transformar ideias em novos
produtos, os processos se tornam mais eficientes, as chances de terem melhorias
concretas são potencializadas, e a inovação deixa de ser apenas um discurso e
passa a cumprir seu verdadeiro papel: de gerar valor e resultados sustentáveis
para a organização.
Alexandre Pierro - doutorando em energia e mestre em gestão e engenharia da inovação, engenheiro mecânico, bacharel em física e especialista de gestão da PALAS, consultoria pioneira na implementação da ISO de inovação na América Latina.
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