Ginecologista Camila Bolonhezi explica quais sinais não devem
ser ignorados e por que buscar avaliação pode evitar anos de desconforto
“É normal sentir muita cólica.” “Toda
mulher fica irritada antes da menstruação.” “Depois dos 40 é assim mesmo.”
Frases como essas ainda fazem parte do cotidiano de muitas mulheres e ajudam a
explicar por que determinados sintomas acabam sendo naturalizados por anos
antes de uma investigação médica.
Dor menstrual intensa, sangramentos fora do
período, ciclos muito irregulares, desconforto durante as relações, queda
importante da libido, alterações repentinas no corpo e sintomas relacionados às
mudanças hormonais podem ser tratadas como características inevitáveis da vida
feminina. Mas, em alguns casos, podem indicar condições que precisam de
avaliação.
Para a ginecologista Camila Bolonhezi, um
dos principais desafios é justamente diferenciar aquilo que pode fazer parte de
uma variação normal do organismo de sinais que merecem investigação. “A mulher
muitas vezes cresce ouvindo que determinados desconfortos são normais e que
precisa simplesmente aprender a conviver com eles. O problema é quando isso faz
com que ela adie uma avaliação e passe anos lidando com um sintoma que poderia
ser investigado e tratado”, explica.
Dor
não precisa fazer parte da rotina
A cólica menstrual é um dos exemplos mais
comuns. Embora algum desconforto possa acontecer durante a menstruação, dores
muito intensas, que impedem atividades do dia a dia, provocam faltas no
trabalho ou na escola ou não melhoram com medidas habituais merecem atenção.
Condições como endometriose e adenomiose,
por exemplo, podem permanecer sem diagnóstico durante anos justamente porque
seus sintomas são interpretados como uma característica “normal” do ciclo
menstrual.
“O que precisamos observar não é apenas a
existência de um sintoma, mas sua intensidade, frequência e impacto na
qualidade de vida. Se a mulher deixa de fazer atividades, precisa se medicar
frequentemente ou sente que sua rotina é determinada pelo ciclo menstrual, é
importante conversar com um ginecologista”, orienta Camila.
Nem
toda alteração hormonal deve ser simplesmente aceita
Outra situação frequente acontece durante
períodos de transição hormonal. Mudanças no ciclo, alterações no sono, ondas de
calor, mudanças de humor, ressecamento vaginal e redução da libido podem
aparecer durante a perimenopausa e a menopausa.
Embora sejam alterações relacionadas a uma
fase natural da vida, isso não significa que a mulher precise simplesmente
aceitar sintomas que comprometem seu bem-estar.
“A menopausa é uma fase fisiológica, mas
isso não significa que todo sintoma precise ser suportado sem acompanhamento.
Existem diferentes possibilidades de tratamento e cada mulher precisa ser
avaliada individualmente”, afirma a ginecologista.
Comparar
não é diagnosticar
A popularização de conteúdos sobre saúde
feminina nas redes sociais também trouxe um efeito colateral pouco discutido: a
comparação. É comum que mulheres troquem experiências sobre sintomas em grupos,
comentários e conversas informais — e, ao ouvir que “todo mundo sente isso”,
acabem reforçando a ideia de que aquele desconforto é normal, mesmo quando não
é. Para Camila, esse tipo de comparação pode atrasar ainda mais a busca por
avaliação. “O relato de outra mulher pode acolher e fazer com que ela se sinta
menos sozinha, mas não deve ser usado como parâmetro de normalidade. Cada corpo
responde de uma forma, e o mesmo sintoma pode ter causas completamente
diferentes de uma pessoa para outra. Por isso a comparação nunca substitui uma
avaliação individual”, explica a ginecologista.
Quando
procurar um ginecologista?
A recomendação é que a mulher procure avaliação quando perceber mudanças persistentes ou sintomas que interferem na rotina, especialmente em situações como:
· dor
menstrual intensa ou progressiva;
· sangramentos
fora do período menstrual;
· alterações
importantes no padrão do ciclo;
· dor
durante ou após as relações sexuais;
· sintomas
vaginais persistentes;
· mudanças
importantes na libido;
· sintomas
que surgem ou se intensificam durante transições hormonais;
· qualquer
alteração que provoque preocupação ou comprometa a qualidade de vida.
Essa lista é orientativa e não substitui
uma avaliação médica: o objetivo não é levar a mulher a se autodiagnosticar,
mas ajudá-la a reconhecer quando vale a pena buscar acompanhamento. Mais do que
esperar que um sintoma se torne incapacitante, a proposta é estimular uma
relação mais atenta com o próprio corpo.
“Conhecer o próprio corpo também significa
perceber quando alguma coisa mudou. A mulher não precisa esperar anos, nem
chegar ao limite do desconforto, para procurar ajuda. A avaliação ginecológica
existe justamente para entender o que está acontecendo e, quando necessário,
buscar uma solução”, conclui Camila.
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