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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Por que tantas mulheres chegam ao consultório depois de anos normalizando sintomas?

Ginecologista Camila Bolonhezi explica quais sinais não devem ser ignorados e por que buscar avaliação pode evitar anos de desconforto


 

“É normal sentir muita cólica.” “Toda mulher fica irritada antes da menstruação.” “Depois dos 40 é assim mesmo.” Frases como essas ainda fazem parte do cotidiano de muitas mulheres e ajudam a explicar por que determinados sintomas acabam sendo naturalizados por anos antes de uma investigação médica.

Dor menstrual intensa, sangramentos fora do período, ciclos muito irregulares, desconforto durante as relações, queda importante da libido, alterações repentinas no corpo e sintomas relacionados às mudanças hormonais podem ser tratadas como características inevitáveis da vida feminina. Mas, em alguns casos, podem indicar condições que precisam de avaliação.


Para a ginecologista Camila Bolonhezi, um dos principais desafios é justamente diferenciar aquilo que pode fazer parte de uma variação normal do organismo de sinais que merecem investigação. “A mulher muitas vezes cresce ouvindo que determinados desconfortos são normais e que precisa simplesmente aprender a conviver com eles. O problema é quando isso faz com que ela adie uma avaliação e passe anos lidando com um sintoma que poderia ser investigado e tratado”, explica.

 


Dor não precisa fazer parte da rotina


A cólica menstrual é um dos exemplos mais comuns. Embora algum desconforto possa acontecer durante a menstruação, dores muito intensas, que impedem atividades do dia a dia, provocam faltas no trabalho ou na escola ou não melhoram com medidas habituais merecem atenção.


Condições como endometriose e adenomiose, por exemplo, podem permanecer sem diagnóstico durante anos justamente porque seus sintomas são interpretados como uma característica “normal” do ciclo menstrual.


“O que precisamos observar não é apenas a existência de um sintoma, mas sua intensidade, frequência e impacto na qualidade de vida. Se a mulher deixa de fazer atividades, precisa se medicar frequentemente ou sente que sua rotina é determinada pelo ciclo menstrual, é importante conversar com um ginecologista”, orienta Camila.


 

Nem toda alteração hormonal deve ser simplesmente aceita


Outra situação frequente acontece durante períodos de transição hormonal. Mudanças no ciclo, alterações no sono, ondas de calor, mudanças de humor, ressecamento vaginal e redução da libido podem aparecer durante a perimenopausa e a menopausa.


Embora sejam alterações relacionadas a uma fase natural da vida, isso não significa que a mulher precise simplesmente aceitar sintomas que comprometem seu bem-estar.


“A menopausa é uma fase fisiológica, mas isso não significa que todo sintoma precise ser suportado sem acompanhamento. Existem diferentes possibilidades de tratamento e cada mulher precisa ser avaliada individualmente”, afirma a ginecologista.


 

Comparar não é diagnosticar


A popularização de conteúdos sobre saúde feminina nas redes sociais também trouxe um efeito colateral pouco discutido: a comparação. É comum que mulheres troquem experiências sobre sintomas em grupos, comentários e conversas informais — e, ao ouvir que “todo mundo sente isso”, acabem reforçando a ideia de que aquele desconforto é normal, mesmo quando não é. Para Camila, esse tipo de comparação pode atrasar ainda mais a busca por avaliação. “O relato de outra mulher pode acolher e fazer com que ela se sinta menos sozinha, mas não deve ser usado como parâmetro de normalidade. Cada corpo responde de uma forma, e o mesmo sintoma pode ter causas completamente diferentes de uma pessoa para outra. Por isso a comparação nunca substitui uma avaliação individual”, explica a ginecologista.


 

Quando procurar um ginecologista?


A recomendação é que a mulher procure avaliação quando perceber mudanças persistentes ou sintomas que interferem na rotina, especialmente em situações como: 

·      dor menstrual intensa ou progressiva;


·      sangramentos fora do período menstrual;


·      alterações importantes no padrão do ciclo;


·      dor durante ou após as relações sexuais;


·      sintomas vaginais persistentes;


·      mudanças importantes na libido;


·      sintomas que surgem ou se intensificam durante transições hormonais;


·      qualquer alteração que provoque preocupação ou comprometa a qualidade de vida.

 

Essa lista é orientativa e não substitui uma avaliação médica: o objetivo não é levar a mulher a se autodiagnosticar, mas ajudá-la a reconhecer quando vale a pena buscar acompanhamento. Mais do que esperar que um sintoma se torne incapacitante, a proposta é estimular uma relação mais atenta com o próprio corpo.

“Conhecer o próprio corpo também significa perceber quando alguma coisa mudou. A mulher não precisa esperar anos, nem chegar ao limite do desconforto, para procurar ajuda. A avaliação ginecológica existe justamente para entender o que está acontecendo e, quando necessário, buscar uma solução”, conclui Camila.



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