No Mês do Psicólogo, Renata Livramento analisa a transição da gestão de pessoas e explica como o cuidado com o bem-estar mental deixou de ser "benefício extra" para se tornar estratégia de sobrevivência do negócio.
A saúde mental deixou de ser um assunto restrito aos setores
de Recursos Humanos e passou a ocupar as reuniões de conselhos e diretorias. O
avanço dos afastamentos, a alta rotatividade e a perda de produtividade fizeram
com que o bem-estar dos profissionais se tornasse uma questão estratégica para
a continuidade dos negócios.
Em 2025, o Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos do
trabalho por transtornos mentais, aumento de aproximadamente 15% em relação ao
ano anterior, segundo dados do Ministério da Previdência Social. Ansiedade e
depressão estiveram entre as principais causas das licenças concedidas.
Para a psicóloga, doutora em Administração e especialista em
Gestão de Saúde Corporativa Renata Livramento, essa transformação representa
uma evolução da própria Psicologia Organizacional. “Durante muito tempo, o
psicólogo dentro das empresas esteve associado principalmente ao recrutamento e
à seleção. Hoje, seu trabalho também envolve compreender como a liderança, as
metas, os processos e a cultura organizacional afetam a saúde e o desempenho
das pessoas”, explica.
Diante desse cenário, muitas empresas passaram a investir em
palestras, rodas de conversa, campanhas e treinamentos sobre saúde mental.
Essas iniciativas são importantes para ampliar o conhecimento, reduzir
preconceitos e ajudar os profissionais a reconhecer sinais de sofrimento. No
entanto, ações pontuais não conseguem compensar uma rotina marcada por
sobrecarga, assédio, falta de autonomia e cobranças desproporcionais.
“Uma palestra pode abrir o diálogo, mas ela perde
credibilidade quando, no dia seguinte, o trabalhador retorna para uma liderança
abusiva, metas inalcançáveis e um ambiente no qual não se sente seguro para
falar. O discurso encontra a prática quando a empresa utiliza esse aprendizado
para rever a maneira como o trabalho está organizado”, afirma Renata
Livramento.
A especialista destaca que o compromisso deve começar na
alta liderança. Cabe à diretoria acompanhar indicadores como afastamentos,
rotatividade, conflitos, denúncias, horas extras e pesquisas de clima. Esses
dados ajudam a identificar setores sobrecarregados, lideranças despreparadas e
processos que podem estar contribuindo para o adoecimento.
A inclusão expressa dos riscos psicossociais no
Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, prevista pela Norma Regulamentadora nº 1
(NR-1), reforçou essa responsabilidade. Além de promover ações educativas, as
organizações precisam mapear os fatores de risco relacionados ao trabalho,
adotar medidas preventivas e acompanhar se as mudanças implementadas estão
produzindo resultados.
“O cuidado verdadeiro aparece nas decisões: na definição de
metas possíveis, na preparação dos gestores, no dimensionamento das equipes, na
resposta às denúncias e na proteção contra retaliações. Saúde mental não é
oferecer benefícios para que o profissional suporte um ambiente adoecedor, mas
transformar as condições que produzem esse sofrimento”, destaca.
No Mês do Psicólogo, Renata Livramento reforça que empresas maduras tratam o tema de forma contínua. “Quando a saúde mental entra na estratégia, ela deixa de depender apenas de campanhas e passa a orientar decisões. Isso protege os profissionais, reduz riscos e contribui para uma organização mais saudável, produtiva e sustentável”, conclui.
Fonte: Renata Livramento — Psicóloga. Doutora em Administração. Especialista em Gestão de Saúde Corporativa.
renatalivramento.com.br
@renata.livramento
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