Estudos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que 43% dos estudantes do DF já experimentaram
O uso de cigarros eletrônicos, também conhecidos como vapes,
quase dobrou entre estudantes brasileiros de 13 a 17 anos, dando um salto de
16,8% em 2019 para 29,6%. Os dados são da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar
(PeNSE 2024),
divulgados recentemente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), e também apontam aumento de forma generalizada nas maiores regiões do
país, com o Centro-Oeste concentrando o maior percentual (42,0%).
Para esclarecer dúvidas acerca do uso de cigarro eletrônico,
entrevistamos o médico pneumologista do Hospital Universitário de Brasília
(HUB-UnB/HU Brasil), Ricardo Martins.
O que é o cigarro eletrônico?
O cigarro eletrônico, vape ou e-cigarette é um
dispositivo que aquece um líquido com nicotina; solventes, como propilenoglicol
e glicerina vegetal; aromatizantes; e metais pesados; produzindo um aerossol
tóxico que é inalado. No Brasil, a venda, importação e propaganda são proibidas
desde 2009, e a Anvisa reafirmou essa proibição em 2024 após avaliar riscos à
saúde.
De quais formas as substâncias liberadas pelo cigarro
eletrônico afetam o organismo?
De várias formas. Entre elas está a grave dependência à nicotina,
já que os cigarros eletrônicos ofertam a nicotina em concentrações muito altas,
inclusive na forma de sais de nicotina, que aumentam o poder viciante. Também
acontecem os danos respiratórios. O aerossol contém substâncias cancerígenas e
metais como níquel, estanho e chumbo. Em alguns casos, a exposição equivale a
mais de 20 maços de cigarro comuns. Além disso, há os riscos cardiovasculares,
pois a nicotina aumenta a frequência cardíaca e a pressão arterial, e favorece
inflamação e aterosclerose, elevando riscos de infarto e AVC.
Quais são os riscos para fumantes passivos?
Os mesmos dos que ficam em contato com fumantes de cigarros
comuns, porém, com maiores chances de apresentarem enfermidades, tais como doença
pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), doenças cancerígenas e doenças
cardiovasculares.
Algumas pessoas defendem que o cigarro eletrônico é uma
opção mais segura para fumantes e que se trata apenas de um vapor saborizado.
Essas afirmações são verídicas?
Não. Cigarros eletrônicos não são inofensivos. A carga total de
nicotina é equivalente a dezenas de cigarros tradicionais, o que aumenta a
dependência e o risco de contrair doenças graves. Um cigarro comum contém cerca
de 1 a 2 mg de nicotina absorvida e pode chegar a 60 mg/ml em alguns produtos
comercializados em outros países.
Entre o cigarro, o vape e o narguilé há uma opção
menos prejudicial para a saúde?
Não. Todos esses produtos são modelos que a indústria do cigarro
utiliza para viciar o consumidor na nicotina, dando uma nova roupagem ao mesmo
produto. Todos são extremamente danosos à saúde.
Mesmo sendo proibido no Brasil, a experimentação e o uso do
cigarro eletrônico estão crescendo entre os adolescentes. Quais fatores
contribuem para popularizar o uso de vape entre jovens brasileiros?
São vários os fatores, dentre os quais cito a aparência moderna e
sabores atraentes; a falta de informação sobre riscos; a influência social e o
marketing informal; e a falsa percepção de que é “menos prejudicial”, o que não
é verdade, segundo estudos brasileiros. O uso do produto cresce rapidamente
entre adolescentes. No DF, estudos do IBGE mostram que mais de 43% dos
estudantes de 13 a 17 anos já experimentaram.
Quais são os prejuízos que o cigarro eletrônico pode causar
para a saúde, tanto respiratórios quanto de forma geral?
No caso específico do cigarro eletrônico surge uma nova doença que
recebeu o nome de EVALI, sigla em inglês para designar uma doença respiratória
oriunda do consumo desse produto desse produto. O cigarro eletrônico possui um
recipiente para inserção de um refil de nicotina e outros produtos, e de um
dispositivo, em geral, alimentado por uma bateria, para aquecer e vaporizar
esses produtos. A composição do cigarro eletrônico é variável, e é comum
encontrar nicotina, água e aromatizantes e solventes, como a glicerina e
propilenoglicol. A temperatura de vaporização pode atingir até 350°C. Entre os
compostos gerados por essa reação estão produtos cancerígenos, como o
formaldeído. Em 2019, foram registrados casos de
lesões pulmonares causadas pelo uso de cigarros eletrônicos. Desde então, foram
registrados 2.558 casos, muitos com lesões que geram a necessidade de
internação, sendo que alguns desses foram a óbito.
Quais os riscos do uso desses cigarros eletrônicos e dos
narguilés por adolescentes?
A curto prazo, a doença respiratória aguda citada acima. A médio e
longo prazos, doenças crônicas graves, especialmente respiratórias e
cardiovasculares.
Esses dispositivos causam vício? Se sim, como tratar?
Sim, a dependência de nicotina, uma das mais difíceis de se
tratar. Uma vez dependente, o paciente deve ser conduzido para uma modalidade
de tratamento que envolve uso de técnicas psicoterápicas associado a adesivo de
nicotina ou medicamentos que diminuam a dependência dessa droga. É importante
frisar que o Sistema Único de Saúde (SUS) dispõe desse tratamento e que é uma
inverdade informar que esses produtos tiram a pessoa da dependência do cigarro.
Ao contrário, estudos têm demonstrado que há um aumento do consumo de cigarros
por parte de crianças e adolescentes com a introdução desses dispositivos no
mercado.

Nenhum comentário:
Postar um comentário